5 de fev de 2007

O homo ocidentus

A coisa é mais ou menos assim, toscamente: no início do século passado estávamos em plena Belle Époque. As mais novas invenções do homem faziam com que houvesse pelo mundo um clima de otimismo com o que viria. Esse otimismo era ajudado pelo evolucionismo, pensamento muito em voga na época e que dizia que a História da humanidade era uma evolução contínua, da barbárie até a civilização. É dessa época a art nouveau, o Impressionismo, o cinema, a física contemporânea, o avião... O ser humano ocidental (homo ocidentus) se olhava com orgulho.

Pois veio a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) e tudo caiu por terra. O homem, como que acordando de um sonho bom, viu do que era capaz: até então, foi a maior guerra da história da humanidade, com o número de mortos atingindo a cifra dos milhões e cagando em cima de todas as conquistas e esperanças da Belle Époque: por exemplo, é aí que os aviões começam a ser usados para a guerra, o que viria a ser um dos motivos para o suicídio de Santos Dumont. Para piorar, veio a quebra da bolsa de Nova York em 1929 e as suas conseqüências: fome, desemprego, violência, xenofobia, etc.

O homo ocidentus mal podia acreditar ter sido o responsável por aquilo, então se agarrou a esperanças até então impensáveis. O pensamento liberal, alicerce da Belle Époque, entra em crise no mundo, ao mesmo tempo em que outras formas de pensamento tomam corpo a ponto de rivalizar com os liberais: é o caso principalmente dos fascismos europeus e do socialismo soviético. Agora temos três soluções infalíveis para o ser humano. O problema é que elas não podem conviver juntas. Vem então a Segunda Guerra Mundial e a quebra de todos os recordes negativos possíveis: número de países envolvidos, número de mortos, número de filmes podres sobre o tema... E mais uma vez o homem faz uso de suas invenções maravilhosas para esmagar seu semelhante: a bomba atômica é só um exemplo disso.

Passada a guerra, o mundo ocidental começa a pensar que só existem dois tipos de pessoas no mundo: os ocidentais, bem penteados e de barba feita, e os comunistas, aqueles que comem criancinhas. Não interessava mais se o sujeito encochava a vó no tanque da área ou se era um serial killer. Se não era comunista, era bom. Esse reducionismo gerou uma série de infortúnios ao redor do mundo (Coréia, Vietnã, o nosso próprio Brasil com os nossos magníficos militares...). A vantagem dessa dicotomia foi que a gente ainda tinha no que acreditar – no caso, no capitalismo.

Daí veio o ano de 1968 e muita coisa mudou – ao menos na superfície. Maio de 1968 quase representou uma revolução nunca vista antes, até o Partido Comunista Francês mandar todo mundo voltar ao trabalho. O que sobrou disso foi uma espécie de revolução nas idéias, e daí sobreveio o movimento que ficou conhecido como hippie. Além de fumar maconha, ficar pelado e fazer música boa, os caras acreditavam que só paz e amor eram mais do que suficientes para que o homem pudesse conviver em sociedade. De certa forma eles ajudaram para o fim da guerra do Vietnã e para o surgimento de toda uma contra-cultura que estimulou uma dialética interessante com o poder estabelecido. Uma pena que quase todos os hippies daquela época sejam hoje os maiores caretas do mundo – bem, talvez isso queira dizer alguma coisa.

O fim do socialismo na URSS e a queda do muro de Berlim significaram várias coisas para o mundo. Uma delas foi que o capitalismo não precisava mais fingir. Sem adversário, estava livre para ser, de agora em diante, o que sempre quis: selvagem. Sem outra opção sólida, palpável, como foi o socialismo que estava logo ali, o homem ocidental se rendeu de vez àquela máxima capitalista de que quem não tem dinheiro é vagabundo que não aproveita as oportunidades e que quem é rico e bem-sucedido merece cada centavo que tem por ter se dedicado.

Temos então uma nova fase de otimismo no mundo ocidental. Nós vencemos e vendemos. O McDonald’s e a Coca-Cola estão em todo o lugar. Vivemos uma era de prosperidade nunca antes vista. E vale tudo para mantê-la e mais ainda para ampliá-la. Ao mesmo tempo, o planeta Terra parece gritar por socorro: essa prosperidade traz uma poluição e um consumo de energia nunca vistos na história, o que faz com que o planeta comece a sentir seus efeitos. Começam as primeiras matérias sobre o CFC e o efeito estuda. Ah, mas parar de produzir é dar um passo para trás, e isso é impensável no momento. Aqueles milhares de demitidos naquela fábrica, as milhões de toneladas de lixo produzidas por dia, tudo é número. Eu e você somos um número – no caso, dois números. O mundo parece ter um objetivo maior do que coisas pequenas como o meio ambiente, por exemplo.

Vem os anos 2000 e até os países que cagavam para o meio ambiente – os EUA, que não assinaram o Tratado de Kioto nos anos 90, são o melhor exemplo – começam a se preocupar. Manchetes diárias ao redor do mundo nos informam o caos que virou o clima mundial. Enchentes, secas, nevascas, temperaturas elevadíssimas, tudo assusta. E o pior é que parece ser tarde demais para voltar atrás. E agora? O que será do homem ocidental? Continuamos tocando pra frente o progresso a todo o custo e deixamos para nossos filhos ou nossos netos resolverem o problema da poluição – se é que a gente chega até lá – ou paramos, botamos a mão na cabeça, admitimos que está tudo errado e começamos de novo? Bem, com base em tudo o que acabei de escrever, confesso que fiquei preocupado...

3 comentários:

André disse...

Acho que no futuro ainda seremos números - no caso, 1 e 0.

Rodrigo Cardia disse...

Excelente!
Vou postar no meu blog apenas para recomendar a leitura do teu texto!

luciano disse...

tá preocupado? tenho uma solução: passe na igreja de jesus cristo salvador mais perto da tua casa! mil felicidade no outro mundo ou seu dinheiro de volta!

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