30 de jan de 2009

Political Compass

Dias atrás, recebi por e-mail do Rodrigo um teste muito interessante a respeito de um assunto que estou há tempos querendo escrever por aqui: posicionamento esquerda/direita. Esse assunto (direita e esquerda) há algum tempo é algo confuso; para mim, ele soa meio "datado", não no sentido do Fukuyama de que a História acabou, mas sim pelo fato de que essa dicotomia talvez tenha se tornado simplista demais perante a complexidade que o século XX ofereceu.

Exemplificando, o que o Partido dos Trabalhadores é, atualmente? Esquerda? Se sim, o que o define como tal? Se não, o que o exclui disso? Nesse exemplo, parecem existir elementos suficientes para corroborar as duas respostas, o que pode nos levar a sugerir uma terceira: o PT é de centro. Isso, por sua vez, nos leva a mais questionamentos em relação às características desse "centro", que parece bem mais uma tentativa de explicação de quem não sabe direito do que está falando do que qualquer outra coisa. Complicado, não? 

Enfim, isso me leva ao teste. Ele adiciona um eixo ao padrão "esquerda/direita", que é o "conservador/liberal", sendo o primeiro um eixo basicamente econômico e, o segundo, social. Essa abordagem é muito interessante e adiciona novos elementos à discussão (eu, por exemplo, penso que nem um eixo nem outro deveria ser tão condicionado a uma dimensão específica - no caso, econômica ou social. Afinal, uma pessoa pode ser considerada economicamente conservadora ou liberal de acordo com a sua definição política de esquerda ou direita - que por sua vez está condicionada também por padrões sociais, como ajuda aos mais carentes ou ampla confiança nas grandes corporações, etc. Se o que está nesses parênteses está muito confuso, juro que tento explicar melhor em outra postagem). Mas divago. Gostei tanto dos textos que antecedem o teste e o seu resultado que resolvi traduzi-los, pois tem muitas coisas com as quais concordo. A seguir, o texto. No final, o link para o teste em espanhol e em inglês. Se você o fizer, por favor coloque o resultado nos comentários, como curiosidade mórbida. Ah, em tempo: o meu resultado foi -5,50 no eixo econômico e -7,23 no eixo social.

"Existem muitas evidências disso [a necessidade de mais um eixo]. As velhas categorias unidimensionais de "direita" e "esquerda", estabelecidas de acordo com o arranjo da Assembléia Nacional da França de 1789, são simplistas demais para a complexidade do quadro político atual. Por exemplo, quem são os "conservadores" na Rússia atualmente? Seriam os ultrapassados stalinistas ou os reformadores que adotaram visões de direita dos conservadores como Margaret Thachter?

Na escala padrão esquerda-direita, como se distingue esquerdistas como Stalin e Gandhi? É insuficiente dizer que Stalin era simplesmente "mais à esquerda" que Gandhi. Existem diferenças políticas fundamentais entre eles que as velhas categorias não conseguem explicar. Da mesma forma, geralmente descrevemos os reacionários sociais como "direitosos", o que deixa reacionários de esquerda como Robert Mugabe e Pol Pot de fora.



SOBRE O COMPASSO POLÍTICO

Na introdução, explicamos as inadequações da linha tradicional esquerda-direita.



Se assumirmos que essa é uma linha essencialmente econômica, então ela é suficiente, dentro dos seus limites. Podemos ver, por exemplo, Stalin, Mao Tse Tung e PolPot, com seu compromisso com uma economia totalmente controlada, na extrema esquerda. Socialistas como Mahatma Gandhi e Robert Mugabe ocupariam uma posição na esquerda, mas menos extrema. Margaret Thachter estaria bem à direita, porém mais à direita ainda estaria alguém como o General Pinochet, com seu pensamento superextremista de livre mercado.

Isso dá conta da parte econômica, mas a dimensão social também é importante em política. É por isso que o parâmetro esquerda-direita não é plenamente adequado. Então adicionamos outro, abrangendo posições que vão do autoritarismo extremo à liberdade extrema.



Tanto a dimensão econômica quanto a social são fatores importantes para uma análise política apropriada. Ao adicionar a dimensão social, pode-se ver que Stalin foi um autoritário de esquerda (ou seja, o Estado é mais importante do que o indivíduo) e que Gandhi, acreditando no valor supremo de cada indivíduo, é um esquerdista liberal. Enquanto o primeiro envolve coletivismo arbitrário imposto pelo Estado, na esquerda-baixo extrema está o coletivismo voluntário em nível regional, sem o envolvimento do Estado. Centenas de comunidades anarquistas existiram na Espanha durante o período da Guerra Civil Espanhola.

Você também pode colocar Pinochet, que foi preparado para sancionar assassinatos em massa para o bem do livre mercado, na extrema direta e também na posição mais autoritária. No lado não-socialista você pode distinguir alguém como Milton Friedman, que é anti-Estado mais por questões fiscais do que sociais, de Hitler, que queria fazer um Estado mais forte, mesmo se para isso metade da humanidade fosse varrida do mapa no processo.

O gráfico também deixa claro que, apesar das percepções populares, a oposição de fascismo não é o comunismo, mas sim o anarquismo (isto é, socialismo liberal), e o oposto de comunismo (isto é, uma economia inteiramente planejada pelo Estado) é o neoliberalismo (isto é, economia não-regulada extrema).

O entendimento usual do anarquismo como uma ideologia de esquerda não leva em conta o "anarquismo" neoliberal encampado por Ayn Rand, Milton Friedman e o Partido Libertário norteamericano, que junta teorias econômicas do darwinismo social de direita com posições liberais para a maioria das questões sociais. Com frequência os seus impulsos liberais param um pouco antes de se oporem a leis fortes e posições de ordem, e são mais econômicos em substância (isto é, sem impostos). Portanto, eles não são tão extremamente liberais como são extremamente de direita. Por outro lado, o coletivismo liberal clássico do anarcossindicalismo (socialismo libertário) está no canto esquerdo inferior.

Em nossa página, desmontamos o mito de que o autoritarismo é necessariamente "de direita", com os exemplos de Robert Mugabe, Pol Pot e Stalin. Da mesma forma, Hitler, em uma escala econômica, não é de extrema direita. Sua política econômica foi amplamente Keynesiana, e à esquerda de alguns partidos trabalhistas de hoje. Se fosse possÌvel colocar Hitler e Stalin para sentar e discutir economia, os dois autoritários teimosos encontrariam uma série de coisas em comum.

Enfim, aqui está o teste em inglês, e aqui o de espanhol. Bom teste!

26 de jan de 2009

Um Link de Graça #3

O link de hoje é meio diferente: não se trata de um site em especial, mas sim de uma caixa de comentários sobre uma postagem. Ela serve para provar que ainda há vida inteligente na Internet. Isso porque, na maioria das caixas de comentários que vejo, pipocam comentários ofensivos dentro de frases sem nexo ou sem o mÌnimo de argumentação - muitas vezes com os dois -, normalmente (não) assinadas por anônimos, e não raro com claros exemplos de que a inclusão digital não vem sendo seguida por uma política para erradicar o analfabetismo funcional, visto que alguns comentaristas não conseguem sequer entender o que foi escrito. Entrem, por exemplo, em sites de notÌcia que deixam espaço para comentários, no Youtube, ou mesmo no Blog do Juca, e vejam o nível dos comentários por lá: um misto de imbecilidade com preguiça mental, aliado a uma irritante intolerância e uma falta de coerência nas suas palavras.

Enfim, esse não é o caso dessa postagem, que trata sobre a lamentável forma como a câmara de Vereadores de Porto Alegre aprovou, quase às escondidas, projetos no mínimo polêmicos que vão de encontro ao Plano Diretor da cidade. Os comentários, que inicialmente tratam sobre o tema e que depois vão parar no conflito da Faixa de Gaza, são de uma qualidade ímpar na Internet atual: opiniıes contrárias, embasadas e respeitosas, como um bom debate deveria ser. Lendo essa página aprendi mais ainda como me portar, não só em caixas de comentários, mas na "vida real" mesmo. Espero que sirva para outras pessoas também. Clica aí e vai.

9 de jan de 2009

Um Link de Graça #2

Bem, eu não sei definir direito este site. Nem sei explicar porque ele me atraiu a ponto de hoje eu visitá-lo diariamente. Só sei que me divirto cada vez que entro no Surra de Pao Mole (sim, assim mesmo), ou simplesmente surra, site-blog que fala de tudo e de nada: tem opiniões políticas (sempre radicalmente embasadas pelos seus dois escritores, Psycho e Patético - antigamente havia outros também), dá sugestões de coisas legais/nem tão legais de São Paulo, fala sobre cultura, etc. Fico triste quando entro lá e não tem nenhuma atualização, principalmente por causa dos comentários, que são um capítulo à parte; recheado de PDCs (Punheteiro de Comentários, se não me engano), eles são um misto de comentários inteligentes com xingamentos de alto baixo nível entre si, que me fazem rir mais do que muito site de humor. Como quase tudo que é em série, tem que ler uma boa amostragem para tirar o melhor proveito. Recomendado.
Se tu ainda não clicou no link de cima, clica aqui e vai.

7 de jan de 2009

Uma carta comum

Acordei. Mais um dia pela frente, menos um dia na minha vida. Ao lavar meu rosto e me enxergar no espelho, a sensação de que estou vendo um estranho não me assombra. Perdi tudo o que me fazia sonhar, tudo o que me dava esperanças de seguir em frente. Todos nós precisamos de alguma coisa que nos faça acordar, levantar, lavar o rosto, comer, mijar, viver. O que acontece quando não temos mais nada? O que acontece quando, em segundos, tudo o que você tinha, tudo no que acreditava, é levado para longe, retirado à força da sua existência? Sinceramente, não sei. Mas é essa a pergunta que terei que responder daqui pra frente, se quiser continuar acordando, levantando, lavando o rosto, comendo, mijando, vivendo. Por ora, sou parte zumbi, parte homem. Minha parte zumbi, cada vez maior, me é auto-destrutiva; minha parte homem, cada vez menor, é a que tenta dar razão à existência das duas partes e é aquela que escreve estas mal traçadas linhas. Tenho medo de que a insanidade tome conta de mim de uma hora para outra. A sinto chegando cada vez mais perto a cada instan affh sggin gwg k wwwwwwwgwgglllsvsvsvsv...

6 de jan de 2009

Um Link de Graça #1

Muita gente acha que a internet está uma bosta: 90% é pornografia, e o resto divide-se entre portais com notícias vazias e toscas e sites/blogs que parecem só se importar com o lucro e em linkar outros, sem produzir nada - e o pior, normalmente linkam coisas toscas e as mesmas que todos. Porém, no meio dessa enorme quantidade de informação com pouco conhecimento, existem locais em que é possível encontrar coisas de qualidade - seja para aumentar tua cultura, seja para se divertir com um humor inteligente, seja para passar o tempo de uma maneira agradável.

É por isso que inicio hoje essa série, para dar algumas sugestões de lugares legais pela internet para serem visitados. NÃO são posts pagos, nem aqueles do tipo "te linkei, me linka ae também"; são simplesmente sugestões completamente pessoais, sites que estão na barra de favoritos do meu navegador, e que eu acho que seria legal serem compartilhados com vocês. Tentarei, na medida do possível, sempre colocar uma pequena análise seguida de exemplos práticos, para vocês já saberem mais ou menos do que se trata antes de clicar no link. Bem, era isso. Boa diversão!

Link do dia: Super Hype, o maior blogueiro de São Paulo.

Simplesmente genial e para poucos. Essa é a melhor definição para mais uma criação do já lendário André Dahmer, que desta vez ataca com uma ironia fina os blogueiros "profissionais" que se vendem por qualquer coisa. O negócio é mais ou menos assim: os blogs, no início, eram basicamente diários virtuais. Aí alguns começaram a produzir coisas específicas em alguns deles, tornando-os de certa forma especializados em algo. O primeiro exemplo dessa época que me vem à cabeça é o Kibe Loco, que era o blog pessoal mais visitado do Brasil. Enfim, com o tempo, o capitalismo e sua indústria da propaganda decidiram entrar nesse filão pra tirar um - afinal, ninguém é de ferro. Aí, várias empresas passaram a pedir para blogueiros escreverem postagens sobre determinado produto, mas sem que parecesse propaganda, em troca de um mimo ou de dinheiro. Em suma, o cara escrevia "Bá, tomei o novo refri da Boka-Cola, e é demais, galerinha! Vocês têm que experimentar para ver que louco que é. Além do mais, eles estão fazendo uma super promoção...". Nada contra ter ou fazer propaganda em blog; o problema é quando ela existe de maneira orgânica ao texto e o leitor passa a não mais diferenciar o que é opinião e o que é propaganda. Se tu já fez uma conexão com a grande imprensa, essa é a questão, meu caro, e se tu não fez, presta atenção; a história recente da propaganda e da imprensa é quase um simulacro do que aconteceu na última década na chamada "blogosfera" (termo horrível, meu Deus...). Acreditava-se que a internet possibilitaria uma democratização da informação, que ali haveria conhecimento dissociado das grandes corporações, etc, etc, etc. Grande ilusão, pelo que a gente pode ver em vários blogs "de sucesso" por aí.

Enfim, pra vocês verem como um simples blog irônico pode gerar uma discussão interessantíssima sobre os limites da propaganda (não só nos blos, mas na mídia em geral), sobre ética na escrita para as massas e outras cositas...

Cliquem aqui para ir ao blog.

Update: não esqueçam de ler os comentários, hilários...

2009

Bem, 2008 passou e esse blog teve altos e baixos, assim como seu dono. Consegui a proeza de diminuir em mais de 50% a quantidade de postagens, o que provavelmente me fez perder muitos dos meus poucos leitores. Porém, para os corajosos que continuam a visitar esta página, ainda na esperança de ver alguma coisa nova (sim, vocês cinco aí atrás, escondidos), podem comemorar: estou trabalhando árduo em novas séries que terão início e meio (porque até agora várias tiveram início e fim), bem como em postagens das mais variadas, tudo para agradar a vocês e à minha vontade de escrever. Enfim, 2009 vai ser foda aqui no Moldura!

Na seqüência, a primeira das novas séries: Um Link de Graça, na qual eu recomendarei um site que acredito ser interessante para se visitar. Até lá!

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