23 de dez de 2007

Quem morre?

Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca.
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o preto no branco
e os pingos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida
fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente
quem passa os dias queixando-se de sua má sorte
ou da chuva incessante.

Morre lentamente
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.

PABLO NERUDA

18 de dez de 2007

Enquanto isso, no Uruguai...

E-mail que recebi hoje:

Não costumo mandar mensagens com este teor. Mas quero informar-lhes que em este exato momento MUITOS URUGUAIOS e MUITOS OUTROS QUE NÃO SÃO NECESSARIAMENTE URUGUAIOS estamos COMEMORANDO. Depois de 34 anos de golpe de Estado e 18 da Lei de Impunidade, acaba de ocorrer a PRISÃO, por Terrorismo de Estado, do militar e Ditador de 1980-1985, General-Repressor Gregorio "Goyo" Álvarez!!!

Independente dos desdobramentos imediatos, de possíveis liminares e de avanços e recuos, neste momento, no Uruguai, estão presos Bordaberry - a pata civil (da repressão interna e do Condor), golpista que comandou a ditadura entre 1973 e 1976 -, e agora, "el Goyo" - a pata militar (da repressão interna e do Condor).

Hoje comemoramos. Pelos que nunca deixaram de enfrentar as trovoadas, o medo, a impunidade e os Moinhos de Vento fardados e seus cúmplices, diretos e indiretos.

Hoje comemoramos por LAS VIEJAS (as Madres uruguaias)...

Hoje comemoramos POR TODOS OS QUE NÃO ESTÃO!!!

Hoje, às 19 horas, tem festa em Montevidéu, num lugar pequeninho mas carregado de Memória: a praça LIBERTAD.

E logo em seguida, a juntar forças para revogar a Ley de Caducidad - a lei da Impunidade que anistiou os criminosos de Estado.

17 de dez de 2007

15 de dez de 2007

Luckács

A princesa Gawa estava nos seus aposentos naquela manhã e uma sensação estranha lhe tomara o peito. Era uma espécie de insatisfação, um tédio com sua vida naquele dia, que praticamente lhe arrancara do castelo e a fizera ir naquela taverna. Não sabia porque havia sentido aquilo, visto que andava bem; sua vida estava tranqüila e não havia grandes incomodações lhe perturbando.

Entrou na taverna e sentou numa mesa bem ao fundo. Estava vestida como uma camponesa e, como nunca havia sido mostrada a ninguém de fora do castelo, sabia que não seria incomodada. Saía de vez em quando do castelo para dar voltas, isso já não era novidade para ela. Sentou, pediu uma graspa para que ninguém desconfiasse de nada - afinal, ir a uma taverna e não pedir graspa era muito suspeito. Recebeu a bebida de um homem com uma aparência muito suja, que contrastava com o ambiente do castelo de onde recém saíra.

Estava ali, pensando na vida, quando de repente um menino de uns sete anos veio em sua direção e ficou olhando para ela. "Oi", ela disse, com aquela expressão simpática típica de uma princesa. O menino correu para o lado oposto, como se estivesse com medo. "Crianças", pensou Gawa, enquanto sorvia um gole de sua bebida. Logo depois, ao olhar para frente, avistou o pequeno novamente encarando-a. Perguntou seu nome, ao que ouviu como resposta um "Não posso responder, não posso falar com estranhos". Achou aquilo tão bonitinho, tinha a naturalidade que só mesmo as crianças sabem ter. "Meu nome é Sybil", disse ela, usando o nome falso que sempre usava ao sair do castelo. "Hum, agora acho que posso falar com a senhorita. Meu nome é Luckács". A princesa perguntou com quem ele estava, ao que o menino respondeu que estava com a mãe e a avó, sentadas lá na frente da taverna.

Os dois conversaram então demoradamente. O menino parecia ser muito inteligente, pois falava sobre várias coisas que meninos de 7 anos não costumam saber - tempo das colheitas, cálculos complexos e outras coisas que deixavam Gawa muito curiosa para saber de onde ele tirava tantas informações. "Não sei, meu pai diz que tenho um dom especial", respondeu Luckács, sem nenhuma falsa modéstia. Em seguida, emendou: "na verdade, quero lhe dizer que vim aqui, no fundo dessa taverna, para lhe dizer uma coisa". A princesa já havia terminado a segunda graspa e olhava aquele pequeno garoto com uma curiosidade quase anormal, quando ele lhe falou: Ymrrebus adverssus amaverum sed vitai*. A falsa Sybil quase caiu para trás; afinal, aquilo era latim, língua que não era falada há gerações por ali! Como o menino sabia aquilo? Ela lhe perguntou e ele respondeu que havia lido em uma enciclopédia que havia ganho do seu pai. Porém, desta vez a princesa achou que a resposta do garoto soava como uma desculpa. Não tinha nenhum motivo para não acreditar nele; afinal, essa parecia a razão mais provável para ele conhecer aquela frase. Logo em seguida o menino disse que precisava ir e, quase sem se despedir, foi para a parte da frente da taverna.

Sybil foi embora minutos depois; achava que não tinha mais motivos para estar ali. Era estranho que não soubesse por que tinha querido estar ali e nem por que queria ir embora, mas obedeceu à sua vontade inconsciente, ainda com a frase de Luckács na cabeça. Achava-a bonita, mas sem muito significado. Mal sabia ela que cerca de dois anos mais tarde descobriria o seu sentido, um sentido pleno e completo, enquanto seu anjo da guarda, um menino de 7 anos, a observava do alto de uma nuvem.

*Em situações adversas o amor é a solução para a vida.

12 de dez de 2007

Faça a evolução

Esse clipe é sensacional. Lançado em 1998, Do the Evolution representou o retorno do Pearl Jam ao mundo dos videoclipes, mas ainda demoraria alguns anos para que os seus integrantes aparecessem em um. Desenhado pelo Todd McFarlane (conhecido pelos seus desenhos históricos nos gibis do Homem-Aranha e por ter criado o Spawn), é daqueles clipes que não sobrevivem sem a música que ele representa, justamente por ilustrá-la de maneira genial. A letra fala sobre a natureza podre do ser humano, que se acha a última bolacha no pacote do planeta Terra e que, por isso, pode fazer o que quiser, seja com a Natureza ou com os outros humanos, em nome da "evolução".

O clipe conta rapidamente a história da vida no planeta, desde os primeiros seres vivos até a chegada do homem, que significou mudanças drásticas para todos os seres. Então o vídeo vai enumerando as várias barbaridades dos humanos, como guerra, escravidão, experiências com animais, massificação, hiperconsumismo, o Poder, campos de concentração, fanatismos, o orgulho pela prole e pelas tradições nojentas passadas de pai para filho e a força da religião. Do the Evolution é uma obra de arte: impossível não se emocionar com o macaco amarrado, numa seqüência que mostra um claro paralelo com um homem sendo executado em uma cadeira elétrica; a seqüência da menininha correndo em um campo, em que tudo parece tão pitoresco, e que de repente a mostra pisando em um formigueiro; a Morte, belíssima, dançando e mostrando sua verdadeira face em rápidos flashes; as seqüências dos homens ao redor da fogueira e sua "evolução".

Isso que eu nem estou falando da música propriamente dita, que é algo... Em suma, um vídeo para quem acha que não existe vida inteligente no rock, uma grande mensagem e um grande alerta, anos antes dessa moda de responsabilidade ambiental. Deixo aqui o clipe com tradução e também a letra original da música. Para ver duas, três, dez vezes:



DO THE EVOLUTION
I'm ahead, I'm a man
I'm the first mammal to wear pants, yeah
I'm at peace with my lust
I can kill 'cause in God I trust, yeah
It's evolution, baby

I'm at peace, I'm the man
Buying stocks on the day of the crash
On the loose, I'm a truck
All the rolling hills, I'll flatten 'em out, yeah
It's herd behavior, uh huh
It's evolution, baby

Admire me, admire my home
Admire my son, he's my clone
Yeah, yeah, yeah, yeah
This land is mine, this land is free
I'll do what I want but irresponsibly
It's evolution, baby

I'm a thief, I'm a liar
There's my church, I sing in the choir:
(hallelujah, hallelujah)

Admire me, admire my home
Admire my son, admire my clones
'Cause we know, appetite for a nightly feast
Those ignorant Indians got nothin' on me
Nothin', why?
Because... it's evolution, baby!

I am ahead, I am advanced
I am the first mammal to make plans, yeah
I crawled the earth, but now I'm higher
2010, watch it go to fire
It's evolution, baby
Do the evolution
Come on, come on, come on

C***lho!!!

Não havia título melhor pra essa postagem... Cliquem nesse link.

Agradecimentos ao Mário (conhece?).

Filmes para 2008

Dezembro está aí e, como sempre, eu começo uma lista de filmes que quero ver nos cinemas em 2008. Quase nunca chego a 50% da lista, mas espero que no ano que vem eu seja mais presente nas salas. Enfim, segue uma lista, bem pequena e sem ordem de preferência, dos meus desejos cinéfilos para o ano que vem (e, de certa forma, minhas sugestões pra vocês - caso não gostem, não me culpem!!). Detalhes sobre os filmes nos respectivos links:

- There Will Be Blood, de Paul Thomas Anderson;
- Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, de Steven Spielberg;
- Cloverfield, de Matt Reeves;
- Onde os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Coen;
- A Bússola de Ouro, de Chris Weitz;
- The Mist, de Frank Darabont;
- Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, de Tim Burton;
- Persepolis, de Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi;
- The Dark Knight, de Christopher Nolan;
- Arquivo X 2, de Chris Carter;
- The Happening, de M. Night Shyamalan;
- Na Natureza Selvagem, de Sean Penn;
- Lust, Caution, de Ang Lee;
- O Escafandro e a Borboleta, de Julian Schnabel;
- À Prova de Morte, de Quentin Tarantino;
- Wall-E, de Andrew Stanton.

Juca Kfouri

Existem poucas pessoas que realmente admiro, e um deles é o Juca Kfouri. O cara há muitos anos luta quase que sozinho contra as barbaridades que acontecem no mundo do futebol no Brasil, seja entre os cartolas ou entre a relação promíscua de muitos jornalistas com entidades futebolísticas. Como ele mesmo diz nesse vídeo, o futebol imita a vida e, no Brasil, nada melhor do que as falcatruas do mundo da bola para ilustrar o pensamento da nação.



"Como diz o Eurico Miranda, 'a ética é coisa de filósofo'".

11 de dez de 2007

Vida Real

Achei que tu não existisses, então te inventei.
Na minha ânsia por amor, te pintei com as cores mais belas.
Fiz-te perfeita demais, uma utopia de mulher.
E sonhei e imaginei e viajei e delirei
com a minha idealização.
Com aquela que eu sabia, só existia na minha cabeça.
Mas então te encontrei
e vi que era tu quem eu imaginava.
Quase não acreditei, e desde então abandonei
aquela que havia inventado,
pois te ter ao meu lado
vale mais do que a minha imaginação.

There Will Be Oscar

Com estréia prevista para o dia 26 de dezembro nos EUA e dia 15 de fevereiro no Brasil, There Will Be Blood, novo filme do genial Paul Thomas Anderson (Magnólia), tem tudo pra estourar no Oscar do ano que vem. Ainda nem foi lançado comercialmente e já está vencendo importantes festivais norte-americanos de crítica, como os de Nova Iorque e de Los Angeles. Mais um da série "Filmes que eu vou ver CERTO no cinema em 2008". A história se passa nos anos 1920, na Califórnia, e mostra o conflito entre um engenheiro da indústria petrolífera e seu filho, que têm idéias diferentes a respeito da classe operária e do socialismo. A partir daí tem início uma história de escândalos e intrigas políticas. Fiquem com o trailer:

7 de dez de 2007

Always evil


Tirado de onde? Daqui, ora bolas!

Silêncio absoluto

Ediomar foi ao cinema. Tinha um dia de férias pela frente e queria ver uma comédia, nada melhor para o derradeiro dia de descanso. Escolheu o filme, o local e a sessão; seria no primeiro horário da tarde, logo após o almoço. E lá foi Ediomar, ansioso por mais um filme.

Chegou ao cinema e executou o velho ritual de sempre: comprou o ingresso (ia sempre sozinho) e o refrigerante (não gostava de pipoca), depois dirigiu-se diretamente até a poltrona mais ao centro possível. Nesse caso, era mesmo a cadeira mais central, porque além dele só havia mais uma pessoa sentada na sala. Ainda não haviam ligado o projetor e o silêncio ali imperava. Gostou do que via porque não suportava cinema cheio; para ele, quanto menos gente, melhor. Assim, diminuía a probabilidade de um celular tocar no meio do filme ou de algum chato de plantão sentar a seu lado para dizer "olha só, agora vem a parte boa".

Já devidamente acomodado no seu lugar, Ediomar foi sendo acometido por uma sensação estranha e logo percebeu o que era: havia, naquela sala de cinema, um silêncio penetrante. Desde que chegara ali não havia barulho, mas agora estava percebendo isso mais claramente. A menina que lhe fazia companhia ali não fazia barulho, e nenhum decibel podia ser ouvido. Ao perceber o silêncio, a primeira sensação que teve foi de incômodo. Afinal, como todo morador de uma grande cidade, Ediomar estava mais do que acostumado ao ritmo frenético e constante da sua metrópole, em que nem de madrugada fica-se livre de barulho. Lembrou imediatamente da noite anterior, quando um caminhão de lixo passou na frente da sua casa, em plena madrugada, fazendo um barulhão e acordando meio mundo. Agora, depois de não sabia quanto tempo, se encontrava ali, sem barulho algum, sem nada pra escutar. E percebeu, atônito, que não sabia o que fazer com aquilo.

O primeiro pensamento que passou pela sua cabeça foi o de fazer algum barulho e quebrar aquele incômodo silêncio. Depois pensou melhor e quis deixar essa honra ao destino, limitando-se apenas a assistir o espetáculo que aquela ausência de som lhe provocava. O que decidiu fazer, logo em seguida, foi algo que não fazia há tempos, nem lembrava há quanto: passou a sentir.

O primeiro sentimento que lhe tomou o corpo foi uma grande nostalgia de quando era criança quando, antes de dormir, sua mãe beijava-lhe o rosto e lhe acariciava a face, dando-lhe um boa noite carinhoso. Logo após essa rotina ela desligava a luz do quarto e o pequeno Ediomar ficava ali, no escuro e no silêncio, pensando em como queria ser logo um adulto e poder fazer o que quisesse. A criança pensava como deveria ser bom ser grande, ter o seu próprio dinheiro, trabalhar, enfim, viver como mamãe e papai viviam.

O pensamento de Ediomar retornou ao cinema. Percebeu que havia crescido e, naquela sala de cinema, no mesmo silêncio e escuridão de quando era criança, mas separados por anos dos daquele quarto em que o pequeno Ediomar dormia, pensou em como queria três coisas agora: novamente ganhar um boa noite carinhoso, ao ir dormir naquela noite; ficar mais vezes no silêncio absoluto, pensando na vida; e voltar a ser criança. De repente, uma luz invadiu a tela do cinema e o barulho retornou àquela sala. Em breve os trailers começariam.

Saiu do cinema sem assistir o filme, em busca de silêncio.

Creative Commons License

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.