28 de fev de 2007

Um conto em três partes (parte 3)

Obs: Para ler todo ele de uma vez, sem precisar ficar pulando de post em post, clique em "Conto", no fim desse post. Isso ajuda.

Ele contemplou, do alto daquele prédio abandonado, as pessoas dezoito andares abaixo, apressadas, pequeninhas, miúdas. Ao mesmo tempo, no chão da beirada, onde colocava seus pés, algumas formigas passavam, apressadas, pequeninhas, miúdas. De repente, um sentimento estranho e novo o invadiu de uma maneira única na sua vida; começou a compreender que nós, os seres humanos, não somos nada. Temos a pior maldição que alguém poderia receber, um dom que por sua própria natureza é o seu próprio fim: somos seres racionais. Ao pensar racionalmente e conseguir expressar essa racionalidade, coisa que só nós fazemos, nos diferenciamos dos outros animais e achamos que somos superiores a eles. Porém, ao observarmos sob um ângulo diferente – e paradoxalmente racional –, os humanos nada mais são do que formiguinhas dentro de um mundo – um universo – infinitamente mais amplo do que sua vã razão consegue conceber. Vivemos sempre preocupados com alguma coisa: dinheiro, doença, falta de segurança, questões de trabalho, amor, futebol... E a maioria dessas preocupações se perderia na poeira se enxergássemos as coisas em uma escala diferente. Ou seja, tudo depende de como você observa as coisas. Ele percebeu que já sabia de tudo isso há muito tempo, mas que por um motivo ou outro nunca havia realmente se dado conta do que isso queria dizer.

Somos todos iguais, em relação a nós e em relação às formigas. Somos racionais e cometemos as maiores irracionalidades possíveis. Quanto a tudo isso, sabia apenas que ele não conseguiria mudar nada. Mais do que sofrer ou morrer, o que ele precisava fazer a partir de agora era viver. Era aproveitar a vida, os bons e pequenos momentos, aquelas coisas que ele sempre odiou ler em correntes que recebia por e-mail. E dessa forma, se influenciasse positivamente alguém, já seria lucro e faria essa “sobrevida” valer a pena. Lentamente desceu do prédio abandonado, enxugando as lágrimas de redenção que não paravam de sair. Caminhou tranqüilo e leve como uma pena. E sem pena de ninguém.

É claro que ele não conseguiu manter esse sentimento o tempo todo ao longo do resto da sua vida. Mas, mesmo nos piores momentos que ainda enfrentaria, nunca mais seria o mesmo de antes.

2 comentários:

Rodrigo Cardia disse...

Muito bom esse conto, publica mais!

Abraços

André disse...

Nah, a vida não é nada. Difícil mesmo é o BBB.

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