17 de abr de 2008

Só para lembrar...

Excelente artigo sobre as razões americanas (algumas) para a invasão ao Iraque:

As verdadeiras razões de Bush

Por
Said Barbosa Dib, professor de História

"Não são justas as análises simplificadoras e ingênuas da mídia que colocam o presidente George W. Bush como um monstro ou um energúmeno sanguinário. Mesmo que seu intelecto não seja dos mais geniais, ele não é definitivamente, um camarada mau nem bobo. Pelo contrário, é um cidadão patriota que está tentando salvar os EUA da bancarrota, impedir a queda do Império sob seu comando.

Digo isto porque, ao contrário do que se fala, o governo norte-americano está totalmente desesperado com a ruína iminente da sua economia. Segundo W. Clark, do jornal "Indy Time", o temor do Federal Reserve (Banco Central americano) é de que a Organização dos Países exportadores de Petróleo (Opep), nas suas transações internacionais, abandone o padrão dólar e adote definitivamente o euro. O Iraque fez esta mudança em novembro de 2000 - quando o euro valia cerca de US$ 0,80 - e escapou ileso da depreciação do dólar frente à moeda européia (o dólar caiu 15% em relação ao euro em 2002).

Esta informação, se analisada por aqueles que conhecem os problemas estruturais do sistema de Breton Woods e as atuais limitações energéticas dos norte-americanos, coloca em dúvida a hegemonia do dólar no mundo e explica a razão pela qual a administração Bush quer, desesperadamente, um regime servil na história Mesopotâmia. Se o presidente norte-americano tiver sucesso, o Iraque voltará ao padrão dólar, não correndo o risco de servir de modelo alternativo para outros países dependentes como o Brasil. É por esta razão que o governo norte-americano, ao mesmo tempo, espera também vetar qualquer movimento mais vasto da Opep em direção ao euro.

Por isso, essa informação é tratada quase como um segredo de Estado, pois governos dependentes como o nosso, que apostaram tudo no modelo neoliberal, iriam para o fundo do poço junto com seus chefes norte-americanos. Isso porque os países consumidores de petróleo teriam de despejar dólares das reservas dos seus bancos centrais - atualmente submetidos ao FMI- e substitui-los por euros. O dólar entraria em crash com uma desvalorização da ordem de 20% a 40%e as conseqüências, em termos de colapso da divisas e inflação maciça, podem ser imaginadas. Pense-se em algo como a crise Argentina em escala planetária, por exemplo.

Na verdade, o que permeia toda essa discussão é a chamada "crise dos combustíveis fósseis". O físico e pensador Batista Vidal lembra que "as reservas de petróleo estão extremamente concentradas em poucos pontos do planeta, pois o total descoberto no mundo está situado em vinte campos supergigantes". Assim, na ótica do Primeiro Mundo, se os atuais países em desenvolvimento realmente se desenvolvessem, o Mundo teria ou que descobrir meia dúzia de campos supergigantes ou o petróleo acabaria em 10 ou 15 anos.

Por isso, o sistema de poder financeiro mundial, subjugado pelo padrão dólar, está completamente desacreditado, falido. Os bancos estão caindo aos pedaços em todos os países ditos desenvolvidos, principalmente nos Estados Unidos e Japão. Prevê-se um colapso a qualquer momento. Agora o que sustenta isso? Devido à ocupação militar no Oriente Médio - ampliada a partir da crise do petróleo da década de 70- mesmo com o déficit público monstruoso dos EUA, o dólar inflacionado compra artificialmente o petróleo, base de toda a economia americana e ocidental.

Portanto, Sadam selou o seu destino quando, em fins de 2000,decidiu mudar para o euro. A partir daquele momento, uma outra Guerra do Golfo tornava-se um imperativo para Bush Jr.. Ou seja, o que está em jogo não é nem o caráter texano caricato de Bush, nem uma questão de segurança nacional norte-americana, mas a continuidade da falácia do dólar. E esta informação é censurada pela imprensa norte-americana e suas vassalas tupiniquins, bem como pela administração Bush, pois pode potencialmente reduzir a confiança dos investidores e dos consumidores, criar pressão política para formação de uma nova política energética que gradualmente nos afaste do petróleo do Oriente Médio e da órbita anglo-americana e fazer com que projetos como o nosso Pró-Alcool mostrem sua força".

O texto do nobre professor deve nos remeter à uma reflexão profunda. Vamos difundi-la para que nossos amigos não sejam surpreendidos pelo terremoto mundial que se avizinha.

PS: Por isto que a Alemanha, defensora ferrenha do Euro, é terminantemente contra a guerra e por isto que a Inglaterra, que não adotou o Euro em seu país é a favor da guerra.

10 comentários:

Renata disse...

Nota-se que o autor não é economista, mas sim um historiador que não vai com a cara dos EUA (praticamente uma redundância essa última frase)...
Considerando que boa parte dos membros da Opep não são exatamente aliados dos EUA, é ingênuo pensar que uma guerra no Iraque esteja protelando a tal adoção do "padrão Euro". A adoção do padrão Euro só acontece se for vantajosa para as partes envolvidas.
Mas enfim, historiador anti-EUA tem dessas coisas.

Eu mesmo disse...

Excelente argumentação. É claro, o artigo é inválido porque o autor é historiador, logo, anti-EUA, como não pensei nisso antes? Eu havia até me esquecido das verdadeiras razões da invasão dos EUA ao Iraque: as armas químicas de destruição em massa e a implementação compulsória da democracia, um exemplo para o mundo! Como eu sou ingênuo...

(Só pra constar, dizer que "historiador não vai com a cara dos EUA" é um reducionismo tão grande quanto afirmar que todo economista é de direita).

renata disse...

Se tu realmente prestar atenção no que escrevi ali no meio do comentário, a minha crítica não se centrou no fato do autor ser anti-EUA, mas sim no fato de que ele fez um raciocínio que não tem muita sustentação. Ó: a Opep tem vários membros que, assim como o autor do texto, não são fãs dos EUA -> a Opep teria poderes para "destruir" os EUA, bastando adotar o padrão Euro nas suas transações -> "devastado", é difícil os EUA invadirem todos os membros da Opep ao mesmo tempo para forçá-los a adotar o dólar de novo (se no Iraque eles já estão penando pra sair de lá...)
Não tem sentido a Opep temer os EUA enquanto possui meios tão concretos (segundo o autor) de ferrar "totalmente" a economia deles. A partir disso, o autor desvenda uma grande conspiração mundial para sustentar os EUA, a la Olavo de Carvalho. Eu só comentei que o cara é nitidamente antiamericano porque é a única explicação pra isso tudo fazer algum sentido.

E quanto a economistas "de direita" ...meu (breve) contato com o meio acadêmico da economia contraria a tua percepção. Por direita, imagino que tu queira dizer "liberal", e não "conservador". Marx ainda fascina muita gente, principalmente na UFRGS.
Insisto que é difícil achar historiador sem tendências esquerdistas. =] Aceito indicações.

Eu mesmo disse...

O raciocínio é interessante, mas em nenhum momento o texto diz que a Opep vai ou quer adotar o Euro, e sim que os EUA estariam se prevenindo caso ela quisesse isso. O que o autor fala é que o exemplo do Iraque poderia servir para que os outros países da Opep (e também "outros países dependentes como o Brsil") o seguissem, e com isso o dólar estaria ameaçado. Invadir o Iraque e fazer voltar o padrão dólar serve tanto como alerta (se alguém mais fizer isso, nós invadimos) como para não deixar o mundo ver as conseqüências (positivas ou negativas) de tal escolha.

Quanto à direita e esquerda, essa é uma questão delicada. Ainda vou postar algo sobre isso, mas termos como "liberal", "conservador" e "reacionário", servem tanto para direita quanto para a esquerda hoje em dia, dependendo da ótica que se utiliza. O que eu quis dizer é que há historiadores a favor dos EUA e de sua política neoliberal, assim como há economistas que dão mais importância a questões sociais. Generalizar quase nunca é bom.

Sobre as indicações, tente Niall Ferguson, François Furet e, principalmente, Francis Fukuyama. Acho que tu vai gostar.

E continue comentando sempre, o debate é sempre bem-vindo por aqui!

Patrícia disse...

Valter, teu blog está virando uma arena! Debates, discussões...Nossa!A galera tpa prestigiando mesmo tendo idéias contrárias as tuas, que democrático isso! Rsrsrs, Resultado de bons textos. Quanto ao anônimo lá da postagem da ditadura, não deu mais sinal de vida...Eu tenho algumas idéias sobre quem pode ser, tipo teoria conspiratória, hehe. Vê se entra no msn de vez em quando tá? Eu ja te adicionei ano passado, mas nunca te vejo. Bjos

Thiago F.B disse...

Kra...que o motivo(verdadeiro) era o petróleo todos já sabiam!!! Mas essa ótico o texto ao lado me fez pensar na questão de uma maneira mais ampla e isso foi bacana. Quanto ao debate acima, muito bom mesmo!!! Mas vale lembrar que em política nada é tão simples assim (como, vamos todos nos unir e ferrar eles), tem muito rabo preso e etc... Sem contar que líderes comprometido e que "viram a casaca" normalmente aparecem mortos "misteriosamente"... Enfim...
Kra...muito bom!!! Faloooooow

renata disse...

Ferguson eu conheço...o resto eu vou dar uma olhada. Mas tava procurando algum tupiniquim, pra ser mais exata.
Enfim, só acho que há razões mais concretas para essa guerra - nem vou adentrar no mérito delas serem suficientes ou não...tendo a achar que estão todas equivocadas. Mas continuo achando q fazer guerra p/ dar "avisos" pra Ahmadinejad e cia. seria um objetivo pouco produtivo a ser buscado pelos EUA. E meio conspiratório demais. =]
Até mais!

Eu mesmo disse...

Renata, na única linha que eu escrevi nessa postagem eu coloquei a palavra "algumas" entre parênteses, justamente porque eu também acho que existam outras razões para a invasão no Iraque. As diferenças entre o mundo islâmico e o ocidental e os interesses econômicos norte-americanos são tantos que é difícil apontar uma única causa, ou mesmo uma principal. Essa é, talvez, só mais uma, de repente até em menor escala. O que dá pra dizer é que a história das armas de destruição em massa é tão falsa quanto uma nota de três dólares.

Sobre historiadores tupiniquins de direita, dá uma olhada no midiasemmascara.com.br, um site que parece brincadeira, mas não é. De extrema direita, abriga historiadores e outros profissionais (incluindo Olavo de Carvalho) que adoram fazer o mesmo que os radicais de esquerda: dizer que existe uma conspiração no mundo, etc. e tal. Apesar do tema meio doido, tem umas fontes pra tu pegar, tipo Carlos I.S. Azambuja.

Abraço!

Said Barbosa Dib disse...

Prezado Kleiton:

Fico agradecido pela defesa do meu texto, que foi escrito em 2002. Se seus leitores quiserem maiores informações sobre o tema, sugiro que acessem a postagem do meu Blog:
http://saiddib.blogspot.com/2008/03/crise-do-dlar.html

Alí você encontrará, ao final da postagem, algum links que tratam mais detalhadamente do assunto.

Ps.: Quanto a ser de "dreita" e de "esquerda", creio ser muito medíocre e simplista tais parâmetros. Sou, com muito orgulho, um brasileiro que procura pensar além da dagmática. Por isso, no meu Blog, faço sugestões de links tanto de entidades vistas como de esquerda quanto de direita.

Um forte abraço,

Prof. Said Barbosa Dib
saiddib.blogspot.com

Eu mesmo disse...

Caro Said, fiquei contente pela tua visita ao meu blog. Sou freqüentador do teu blog e inclusive coloquei um link para ele nessa postagem. Seja sempre bem-vindo!

Sobre direita e esquerda, realmente existe hoje em dia uma grande confusão a respeito desses termos. Uma hora eu ainda quero escrever sobre isso (falta tempo...).

Grande abraço!

PS: eu não sou o Kleiton, tá? ;)

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