8 de abr de 2008

The Mist

Stephen King é, para mim, um cara injustiçado. Muita gente acha que ele escreve mal, mas hoje em dia várias pessoas “importantes” já voltaram atrás em relação a sua literatura. Muita gente acha que ele só escreve contos e livros de horror/terror, mas na verdade esse é só o seu gênero principal. Muita gente acha que as suas obras, quando adaptadas para o Cinema, não ficam boas, mas aí (e nas outras duas afirmações anteriores também) nós temos Frank Darabont para nos provar o contrário.

Dono de uma filmografia curta, dos quatro longas-metragens da sua carreira, três são adaptações de obras literárias de King: além de The Mist ele dirigiu e escreveu Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre. Esses dois últimos não são de terror/horror; o primeiro é um drama que se passa dentro de um presídio (e que está em segundo lugar na lista do Top 250 do IMDB, maior banco de dados de Cinema do mundo, na votação dos internautas como melhor filme de todos os tempos – e com a mesma nota do primeiro lugar) e o segundo é um drama com toques de realismo fantástico aclamado por crítica e público. Faltava a Darabont adaptar uma obra de terror de King, já que são poucos os filmes do gênero baseados em livros do “mestre do horror” que são realmente memoráveis (me lembro só de Carrie, a Estranha e O Iluminado, e gostaria de esquecer porcarias como Cujo e O Apanhador de Sonhos) e ele parece captar como ninguém o universo do cara. Com The Mist, portanto, tudo parecia levar a crer que teríamos um baita filme de terror. Depois de assistir o filme, posso dizer que, se não temos um baita filme de terror, pelo menos temos uma bela adaptação de uma obra de King. Na verdade, se Darabont não tivesse acertado tanto a mão nos dois outros filmes ou se outra pessoa tivesse assinado The Mist, o resultado seria mais evidenciado, pois não se esperaria tanto. Porém, comparado com as suas outras adaptações, essa é realmente a sua pior cartada. Só que isso não quer dizer que necessariamente o filme seja ruim.

A história é a seguinte: após uma violenta tempestade, uma neblina toma conta de uma pequena cidade do Maine, aprisionando dezenas de pessoas em um supermercado. O problema é que essa neblina esconde monstros que vão desde insetos gigantes até uma espécie de dinossauro gigantesco, e agora as pessoas terão que lutar por suas vidas. Não bastasse os seres estranhos, começam a surgir divergências sérias entre o grupo, o que torna tudo mais tenso.

Pessoas presas num lugar, sendo ameaçadas por algo misterioso? Sim, esse tipo de história vem sendo contada há anos por diversos filmes (de vampiros e mortos-vivos, principalmente), mas como diz o próprio Stephen King num de seus contos, “não importa a história, importa o narrador”. Aqui, Darabont consegue dar dinamismo suficiente para a história caminhar de maneira inesperada, retirando cedo personagens que pensávamos que fossem ficar até o fim e dando a outros, que tinham menos importância até então, uma grade força. Os diálogos são muito bem construídos, particularmente em um filme do gênero, dando tridimensionalidade a seus personagens (a exceção fica com o baixinho Ollie).

Os bichos que vêm com a neblina logo mostram que não estão de brincadeira; fortes e rápidos, matam as pessoas sem dó e são muito superiores aos humanos, como mostra a seqüência em que algumas criaturas invadem o supermercado e causam um belo estrago. O problema é que os efeitos visuais não são lá grande coisa, fazendo com que a maioria dos ataques perca parte do impacto. A exceção está nas seqüências que envolvem a neblina, o que faz com que os efeitos possam ser ajudados pela pouca visibilidade existente.

Aliás, um recurso presente na maior parte dos filmes de suspense/terror é justamente a falta de visibilidade (graças à escuridão), o que felizmente não acontece em The Mist. Se ela existe para ajudar alguns efeitos visuais, ela não se faz presente para causar medo ou sustos. Pelo contrário: quase toda a película se passa no claro, o que é mais um ponto positivo, visto que mesmo assim o filme consegue o mérito de assustar, causar medo e tensão e prender o espectador na cadeira.

Outro mérito do filme é justamente trazer o suspense também para dentro do supermercado; sabemos que existem monstros lá fora, mas mesmo quando eles não entram nos mantemos em tensão constante graças aos problemas internos, relativos à própria natureza do ser humano, que começa a agir de maneira diferente ao topar com uma situação inexplicável. Dessa forma, temos uma pregadora religiosa que em questão de horas passa de louca a exemplo a ser seguido, criando um séquito ao seu redor apenas com sua teoria do Antigo Testamento, gritando que Deus está castigando a humanidade pelos pecados que ela vive cometendo; um advogado incrédulo (até mesmo por questões pessoais) que lidera um grupo que quer sair do supermercado para buscar ajuda; e finalmente, o grupo do “mocinho”, que tenta manter a calma e fazer tudo da maneira mais racional possível. À medida que o tempo vai passando esses conflitos vão aumentando, tornando a situação de dentro do supermercado tão ruim quanto a de fora.

Aliás, o papel de Marcia Gay Harden é irritantemente bom - ao contrário dos outros atores, apenas ok. Lembrando em algumas cenas a mãe de Carrie, a atriz imprime um olhar triste e insano que lhe dá muita verossimilhança ao bradar frases sobre o castigo divino. E é interessante notar que à medida que suas previsões parecem ter efeito muita gente passa a acompanhar suas pregações e ser um seguidor. Esse mini-culto fica tão cego que chega a praticar um “sacrifício” em nome de Deus. Aqui está uma óbvia crítica à cegueira religiosa. Por outro lado, o grupo de Thomas Jane (o “mocinho”) é mais racional. Isso não significa que eles não sejam contraditórios: para ajudar uma pessoa muito ferida eles se arriscam a sair do supermercado para alcançar a farmácia ao lado, correndo o risco de sacrificar mais vidas ainda – o que de fato acontece. Apesar disso, esse evento na farmácia é importante para a história; afinal, depois dele um dos personagens passa, a seguir o culto fanático-religioso e os outros finalmente decidem que permanecer no mercado não vai servir de nada e tentam fugir dali.

Mas o principal em The Mist é, com certeza, o final: sem fazer concessão nenhuma ao espectador, o filme traz um desfecho que vai deixar a maioria das pessoas frustrada e/ou chocada, mas que é absolutamente genial pela originalidade que contém. Não se trata aqui de uma reviravolta no estilo Shyamalan; está mais para o final de Oldboy, uma tragédia que faz a gente exclamar (com o perdão do palavreado) “Puta merda!”.

FICHA TECNICA

The Mist - Nota B

Direção e roteiro: Frank Darabont. Com: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden.

5 comentários:

Thiago F.B disse...

A maioria dos filmes adaptados de King que já vi tinham efeitos realmente fracos. Penso que com efeitos melhores esses filmes teriam uma receptividade melhor...
Falando propriamente deste filme, ainda não vi para fazer uma comentário mais pertinente, mas o texto me deixou curioso para conferir. Afinal, king é o cara!!!

Ana disse...

É um baita filme, o final realmente é inesperado e confesso que me deixou frustrada, mas nem todos os finais são felizes.
Adorei a tua crítica, muito bem escrita. Parabéns Amor! Beijão

André disse...

Cadê? Darabont + Stephen King? Não estreou aqui... Eu quero ver!!

Eu mesmo disse...

Cara, a Paris Filmes comprou os direitos de distribuição do filme no Brasil e até agora não botou data de estréia pros cinemas. Isso dá quase a certeza de que vai sair direto pra DVD em algum longínquo dia de 2008 (se não for em 2009). Como eu estava com muita vontade de assistir, apelei pro torrent.
;)

Abração!

Rodrigo Cardia disse...

Apelei pro torrent também. E valeu a pena: realmente, como filme de suspense/terror ele é apenas bom, mas é muito interessante no tocante às relações entre as pessoas e como elas reagem a situações extremas.
Aliás, desse filme dá até para fazer uma análise de viés antropológico, utilizando o conceito de eficácia simbólica de Lévi-Strauss, que faz entender melhor porque a fanática religiosa ganhou tantos adeptos. Não vou escrever aqui para não contar mais detalhes do filme, hehe.

Abraços

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