30 de abr de 2008

Caso Isabella (III)

Dias atrás, no Saia Justa, Mônica Waldvogel disse que não achava que a mídia era a culpada pela exploração do caso Isabella; para ela, o fato de haver vários curiosos em torno de onde estão os pais da menina e a comoção nacional devem-se à excepcionalidade do caso. Mesmo havendo várias outras notícias do mesmo nível, essa tomou de assalto as reportagens da imprensa por causa de si mesma e não por causa de uma escolha da imprensa.
Eu gostaria de fazer um pequeno comentário a respeito dessa declaração.

Para começo de conversa, Waldvogel trabalha na maior rede de comunicação do Brasil e uma das maiores do mundo. Isso já faz dela meio suspeita para defender a atuação da mídia nesse caso (aliás, esse termo “mídia” também foi criticado por ela, como se quisesse diferenciar a atuação da Globo em relação a outros meios de comunicação). O caso é que existem sim outros fatos acontecendo no Brasil que poderiam estar na imprensa de uma forma mais evidente no momento, não fosse o caso Isabella. Por exemplo, poucas pessoas sabem o que é a tal "crise alimentar" que está acontecendo no mundo, o que eu humildimente considero umas dez mil vezes mais importante que a Isabella (com todo o respeito à menina). Isso faz SIM do caso uma escolha da mídia. O problema, aí, é aquele velho paradoxo que ninguém sabe ao certo responder: as pessoas assistem determinado programa de TV porque ele é transmitido ou um programa de TV é transmitido porque tem gente para assistir? E isso, meus caros, faz toda a diferença.

Como, desde exatos trinta e um dias atrás, os maiores picos de audiência dos noticiários (incluindo-se aí o Fantástico) têm sido durante a divulgação de informações “bombásticas”, “exclusivas” e “especiais” das redes, cada vez a mídia busca alimentar, ela mesma, esse acontecimento. Afinal, é o que dá audiência, e isso gera mais receita para o canal de televisão/jornal/rádio, então é o que será transmitido. Então, se as pessoas não assistissem a esse teatro televisivo, o assunto mudaria. É um círculo vicioso: ao perceber que o caso Isabella é o que dá audiência, a mídia começa então a criar notícia. “Criar”, porque a notícia já se encerrou, mas as informações continuam a chegar à população, mesmo que não sejam verdadeiras. Aliás, se não forem verdadeiras, melhor ainda, já que daí se desmente tudo e se tem mais notícia criada. Um exemplo disso é o tal sangue no carro, que já foi com certeza da Isabella, depois não era mais, depois era de novo, e agora não se tem mais certeza. Ou as reportagens tratando das pessoas que estão lá, quase acampando na frente da casa em que estão os pais da menina; ora, essas pessoas são justamente fruto das notícias que a mídia veicula, e elas próprias tornam-se objeto de notícia. Ou seja, notícia do fruto da notícia. E por aí vai.

Isso faz com que aconteça o que está acontecendo desde o início: a acusação antecipada dos supostos autores do crime. Se é verdade que cada vez mais fica evidente quem matou Isabella (isso parece um “quem matou Odete Roitman”), mesmo trinta e um dias depois do crime AINDA não se tem certeza de nada. Isso quer dizer que a população não deveria estar com esse sentimento de certeza em relação ao pai e à madrasta da guria. Mas, como a mídia aponta a todo instante o casal como protagonista do acontecimento (alimentada pelos delegados que parecem estar adorando aparecer e que parecem às vezes ter comportamento de jornalista), os espectadores vão atrás.

Por tudo isso, discordo totalmente do que Mônica Waldvogel disse no seu programa. Para mostrar que esse caso não é nem tão excepcional assim, passo alguns links de notícias de crimes relacionados a assassinatos de pais ou filhos (até avó!), todas encontradas rapidamente na internet e que não tiveram repercussão alguma na imprensa brasileira por um motivo simples: ESCOLHA.

3 comentários:

Ana disse...

Infelizmente a escolha da mídia é o que mais dá retorno pra eles. Acabei de passar por vários canais e pelo menos três deles estão mostrando incansavelmente o caso da menina que foi assassinada. Tem uma repórter da Record que é muito sem noção, ontem estava olhando um programa e ela foi chamada ao vivo em frente a casa dos avós maternos da menina. Naquele momento o avô estava chegando em casa de carro, enquanto ele abriu a garagem para entrar, a repórter se enfiou junto e ficou perguntando muitas coisas pra ele, a única coisa que ele conseguia dizer era: agora não, depois eu falo. Por favor, saia que quero fechar o portão. Ela teve a capacidade de perguntar: hoje faz um mês que a Isabella morreu, o que vocês pretendem fazer???? O que passa na cabeça dessa criatura sem alma?? Que coisa triste.

Beijo, amore!

Débora Vogt disse...

Todo texto tem uma intenção, convencer o leitor. Isso, nós estamos cansados de saber.O problema é que boa parte da população não se dá conta disso e aceita com passividade tudo o que a mídia diz. Mas se o jornalismo faz isso é porque tem público, leia e aplauda... A questão é que o tal senso crítico não é desenvolvido... percebo isso quando trabalho com ensino médio. A culpa? Talvez do sistema, da educação, do governo, mas talvez seja da gente mesmo, também.

André disse...

Estou quase torcendo para que não sejam o pai e a madrasta os culpados, só pra ver o que a mídia irá dizer - ou seja, até mesmo eu, formado em comunicação social, acabo influenciado (ainda que ao contrário, nesse caso) pelo maldito sensacionalismo.

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