24 de out de 2008

Todos iguais

Neste ano, estou acompanhando mais as eleições de São Paulo do que as de Porto Alegre, o que me permite traçar alguns paralelos entre as duas. Porém, o que mais me chama atenção neste ano - na verdade, nos últimos anos - é a pasteurização das campanhas.

Durante boa parte do século passado, os partidos políticos, quando existiam no Brasil, podiam ser claramente divididos, principalmente entre esquerda e direita - graças, em boa parte, à Guerra Fria. Até durante a ditadura, com a ARENA e o MDB, havia uma clara diferença de posicionamento. Após vários fatores diferentes, como o fim da URSS e da Guerra Fria, a volta da democracia e o advento do neoliberalismo, tudo começou a mudar nas campanhas e discursos políticos. Vou citar duas grandes diferenças no cenário político, que também significaram mudanças de comportamento nas engrenagens que movem o sistema da política brasileira e, a meu ver, também podem ter outras conseqüências não muito boas para os partidos.

Em primeiro lugar, cada vez mais publicitários começaram a ser contratados para gerenciar as campanhas eleitorais, fazendo do horário político uma verdadeira campanha de marketing em que o candidato é "vendido" como um "produto" e suas façanhas e fracassos são maquiados para uma maior aceitação por parte do eleitor. O grande marco, para mim, foi quando o PT contratou o Duda Mendonça para fazer a campanha do Lula para presidente de 2002. Automaticamente, aquele cara de aparência suja, ex-metalúrgico, que falava tudo errado, deu lugar para um senhor de barba branca, fala mansa e que até apreciava bons vinhos, veja só. Não foi só por isso que o Lula se elegeu, mas que isso ajudou, ajudou. E então, cada vez mais as agências de publicidade descobriram esse filão (ou foram descobertas por esse filão, não sei), fazendo o Maluf parecer um cara para casar com a tua filha. Isso, é claro, foi causando uma certa padronização das campanhas eleitorais; afinal, ninguém mais quer se envolver com assuntos espinhosos antes de se eleger. O maior exemplo, nesse caso, é o das falsas promessas de candidatos a prefeito que dizem que cumprirão os quatro anos de mandato e que não vão sair antes para concorrer ao governo do estado. Só para citar dois casos, o Tarso Genro, em Porto Alegre, se elegeu para prefeito em 2000 c0m a promessa de que ia cumprir os quatro anos, sob acusação da oposição de que ia é sair dois anos depois para concorrer ao governo. Em 2002, quem era o candidato a governo do RS pelo PT? Genro, claro. Não se elegeu, bem feito. Sorte maior teve o José Serra, que se elegeu prefeito de São Paulo em 2004 dizendo que não ia concorrer ao governo ou à presidência em 2006 - ele chegou a fazer uma declaração em cartório. Não é que o seu Serra conseguiu se eleger governador de São Paulo em 2006? Tsc, tsc. No caso das campanhas para prefeito de São Paulo este ano, é nítido que, junto ao discurso do candidato (cada vez mais igual ao do adversário) está associado uma grande peça publicitária, um grande "show" de imagens, músicas e fontes que , a princípio, não têm nada a ver com uma campanha eleitoral.

Em segundo lugar, ocorre uma "prostituição" das ideologias políticas; cada vez mais os candidatos adequam suas campanhas por conveniência e não por inclinação partidária ou política. Um bom exemplo pode ser visto nas eleições para prefeito em São Paulo: no primeiro turno houve quase um empate técnico entre Marta Suplicy (PT) e Gilberto Kassab (DEM), mas com votos predominantemente vindos das camadas mais pobres para a primeira e com a maioria dos votos das classes A e B para o segundo. Pois bem, a estratégia de campanha da candidata do PT para o segundo turno foi mostrar que ela também vai fazer muito para os empresários e empresas, assim como para os bairros mais nobres da cidade, enquanto que Kassab se concentra em mostrar que fez e fará muito mais pelos pobres de São Paulo. Ora, se temos dois candidatos que vão governar para os ricos e para os pobre da melhor forma possível, que vão se concentrar no social, mas também dar apoio às grandes empresas, qual é a diferença entre os candidatos? A suposta diferença que os publicitários das duas campanhas querem nos vender está na competência; um acusa o outro de não ter feito isso ou aquilo durante seu mandato e já emenda que fez ou vai fazer melhor do que o outro. Novamente, não há nenhum indício de inclinação ideológica nos seus discursos, apesar de um partido ser declaradamente de direita, e o outro, de esquerda.

Particularmente, penso que essas novas características do mundo político de hoje são muito nocivas para a democracia, visto que supostamente não há muitas opções de mudança para a população. Cada vez mais escutamos as pessoas falarem que não vão votar em ninguém ou vão votar em qualquer um porque "é tudo igual", o que não deixa de ser cada vez mais verdade. Em Porto Alegre, a Manuela se aliou ao PPS, o que seria inadmissível há alguns anos. Hoje, é algo quase natural, criticado apenas por algumas mentes supostamente atrasadas. Infelizmente, parece que quem mais perde com isso é a esquerda, que já vem perdendo há algum tempo, desde que começou a jogar o jogo político com as regras da direita. Perde tanto que chego a me perguntar: estaremos presenciando o fim da esquerda no Brasil? Mas isso é assunto para outra postagem...

3 comentários:

Rodrigo Cardia disse...

Em São Paulo, o Kassab promete governar pensando "nos mais pobres". E aqui em Porto Alegre, o Fogaça promete o mesmo...

Mario disse...

O que nos leva à grande questão sobre a "Grande Democracia do Irmão do Norte": lá temos dois partidos que prometem a mesma coisa para as mesmas pessoas.
Onde está o poder de escolha das massas (que não votam)?
Democracia ou ditadura de dois partidos iguais?

Thiago F.B disse...

Eu cheguei à conclusão que no Brasil tudo é uma grande putaria!!! A política é marcada pela infidelidade, no futebol se vê cada vez de forma mais clara as intenções escusas de "comissões de arbitragem" e cada vez mais intervenção de tribunais que só avacalham o campeonato!!! No país dos interesses que se vende a imagem da democracia e da igualdade!!! O Brasil não tem saída...até pq ele não quer uma !!!

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