7 de out de 2008

Capitalismo natural

Esses dias, vendo o Saia Justa, programa da GNT em que todas as apresentadoras parecem saber tudo sobre todos os assuntos, elas estavam discutindo sobre a crise da economia mundial e Mônica Waldvogel soltou a seguinte frase (foi mais ou menos assim): "Eu acho que o capitalismo nunca vai acabar, ele é tão... natural". Na hora eu fiquei muito irritado, porque essa é mais uma das inúmeras falácias do capitalismo, a de ser natural e infalível. Afinal, o mercado é auto-regulável e o Estado deve ser mínimo, não é?

Então por que o pessoal que passou anos enchendo o saco de todo mundo que criticava as privatizações e a ideologia neoliberal agora está apavorado e defendendo a entrada do Estado no tal "Mercado-que-se-auto-regula"? Estou tentando acompanhar de perto a cobertura da imprensa brasileira a respeito da crise (é difícil, mas eu tento) e o que mais aparece nas entrevistas com economistas é o papo do "pelo amor de Deus, os governos dos países ricos precisam ajudar os pobres bancos, ou a economia vai ruir!". Quer dizer que os grandes capitalistas podem viver às custas de especulações à vontade, até que um dia tudo que poderia dar errado efetivamente dá errado (na verdade, na verdade, os sinais estavam aí há meses, mas ninguém queria ver) e então aquele que antes era o vilão, o retrógrado, o errado - o Estado - tem que interferir com centenas de bilhões de dólares para acalmar os mercados e salvar as suas peles?

Resumir a crise para um leigo é tarefa fácil: nos últimos anos houve muita liquidez no mercado (ou seja, tinha muito dinheiro disponível), entrando a uma taxa, vamos dizer, constante, no valor imaginário de X. Dessa forma, os sabichões da economia começaram a emprestar dinheiro a torto e a direito, aumentando o crédito disponível no mercado (afinal, sempre entrava X por mês). Nos EUA, isso se ilustrou muito bem no crédito imobiliário, que fez com que muitas pessoas/empresas pegassem dinheiro emprestado para comprar um imóvel. Esse crédito tinha juros baixos, o que fez com que gestores de fundos e bancos super inteligentes comprassem títulos das instituições que fizeram o empréstimo, o que por sua vez fazia entrar mais dinheiro para elas, que, geniais como só elas, emprestavam mais dinheiro ainda, sem ter recebido de volta nada do primeiro empréstimo. Aí, quem pegou empréstimo começou a não ter como pagar (por vários motivos diferentes), o que gerou uma reação em cadeia que foi prejudicando aqueles nobres especuladores e agiotas modernos, terminando por fim a causar uma retração no crédito, porque o mercado ficou todo cagado de emprestar mais dinheiro.

No mundo globalizado de hoje, créditos vindos dos EUA podem ser utilizados para gerar ativos em qualquer lugar no mundo, e os investidores europeus, sempre brilhantes, fizeram isso sem dó. Quando começou a crise de crédito, eles foram ficando cada vez menos sem dinheiro. Eis que várias empresas começaram a dizer que estavam com problemas de caixa, simplesmente porque contavam com o dinheiro que ainda não tinham e, quando ele não apareceu, a coisa apertou. Para piorar, nenhum banco ou fundo de investimento divulga quanto dinheiro tem investido nesse tipo de investimento (créditos de alto risco) - se bobear, nem eles sabem. Isso fez o mercado ficar paralisado de medo e os investidores saírem da Bolsa - que é muito instável e suscetível a frescuras do mercado.

Pronto, a merda tava feita. Bancos grandes, enormes, começaram a quebrar da noite pro dia, e os capitalistas de plantão, em vez de fazer o que sempre fazem e dizer que estava tudo bem, que era só uma crise conjuntural, se borraram e foram pedir ajuda ao papai Estado, que no início até relutou um pouco para ceder - no caso dos EUA -, mas acabou dando ajuda. Até agora não se sabe se essa ajuda vai ajudar, e vários países da Europa estão providenciando dinheiro também - até a Islândia está se fu!

Duas coisas que eu quero extrair do que está aí em cima: a primeira é que é curioso que os veículos de comunicação dêem as notícias claramente torcendo pela aprovação de todos os pacotes possíveis de ajuda aos bancos e nunca dando explicações de por que a crise está desse jeito, ou de quem é a culpa nisso tudo. Parece sempre que quem nega auxílio aos bancos é o vilão e que ninguém teve culpa, aconteceu tudo sozinho, do nada.

A segunda coisa é que não existe sistema infalível, nunca existiu e nem vai existir. O capitalismo não é um ente natural, ele existe há bem pouco tempo na História da humanidade e nada indica que ele vá permanecer para sempre. É lógico que para os contemporâneos sempre é mais difícil perceber isso (se desse para voltar no tempo e perguntar para um romano, no auge do Império Romano, se aquilo um dia iria acabar, certamente escutaríamos um retumbante "não", tal qual o da Mônica Waldvogel), mas feliz ou infelizmente, a nossa opinião não vale muito perante a força dos acontecimentos. Não estou dizendo que o capitalismo está para acabar, mas esse tipo de crise serve para cada vez mais deixarmos de ser ingênuos e acreditar cegamente nas leis de mercado (que são feitas por homens para parecerem naturais, tais quais as leis religiosas).

4 comentários:

Débora Vogt disse...

Não estamos dizendo que o capitalismo vai acabar, mas seria divertido assistir isso. Aqueles que tanto especularam com dinheiro, que tanto ganharam a custa da miséria dos outros caírem. Eu assistiria como se fosse um seriado de domingo, tranquila, com uma pipoca na mão. Eu sempre escuto o Boechat, que na contramão dos jornalistas em geral, faz uma análise crítica das coisas... ora, porque nós, a população, com nossos impostos (deles vem o dinheriro do estado) temos que salvar bancos? Se eu falísse e fosse lá pedir ajuda, me dariam? pagariam minhas contas.. é, o capitalismo continua sendo o centro das contradições. Primeiro eles nos roubam, depois nós os salvamos...

Patrícia disse...

Simplesmente maravilhoso teu texto...Nem vou me prestar a escrever algo sobre esse assunto, embora eu fique maravilhada com a constante variação de humor do Mercado, essa pessoa com sentimentos, porque teu texto ja diz tudo.
Bjocas querido! Nos vemos no findi!

Renata disse...

Olha...o pacote pra salvar bancos é algo extremamente keynesiano. Embora só se ouça falar nisso, muita gente esperta e muitos think tanks são absolutamente contra. Justamente porque se trata de socializar os prejuízos (enquanto os lucros são privados). Não é algo unânime, não.

E quanto às causas da crise...bom, deixaste de analisar vários aspectos que fazem toda a diferença, e que talvez tu desconheça. Todo eles envolvem intervenção estatal...errônea, como de praxe. Mas isso o Jornal Nacional não explica, então fica mais fácil todo mmundo falar em crise da "especulação" e do "mercado" (como se o mercado fosse uma entidade...).

Laura disse...

Pena tu não ter assistido a aula do Padros de contemporânea III da semana passada. Quase uma premonição catastrófica do futuro da humanidade. Adorei a parte em que os "capitalistas se borram".

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