24 de jul de 2007

Cinema "engrajado"

Os filmes de Jorge Furtado sempre foram marcados por elementos metaligüísticos - inclusive alguns de seus curtas. Porém, em Saneamento Básico, o diretor foi além e criou um filme que é, do início ao fim, recheado de interessantes metalinguagens que discutem, entre outras coisas, o papel do Cinema, o sistema de captação de recursos no Brasil e o próprio método cinematográfico. Tudo isso dentro de uma comédia eficiente do ponto de vista narrativo e que - vejam só! - nos faz rir.

Saneamento Básico conta a história da construção de uma fossa para o esgoto de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul que só seria possível se seus moradores conseguissem fazer um filme de dez minutos. Isso porque não havia mais verbas para saneamento básico para o município naquele ano, apenas um dinheiro federal para um concurso de vídeos cuja premiação serviria para a tão sonhada fossa. Então, alguns moradores (os casais Fernanda Torres e Wagner Moura e Camila Pitanga e Bruno Garcia, mais Paulo José e posteriormente Lázaro Ramos) decidem fazer o tal "vídeo de ficção", que por motivos "dicionáricos" passa a ser um filme de monstro - o "Monstro da Fossa".

As atuações estão muito boas, particularmente a química Torres-Moura. O único porém fica para o fato de que quem conhece o pessoal da "sera gaúcha" vai se decepcionar um pouco com a tentativa de Paulo José e Tonico Pereira se passarem por gringos. Mas o maior destaque do filme realmente é a metalinguagem. Se dessa vez o diretor - e também roteirista - não faz uso de instrumentos narrativos visuais diferentes, presente em outros filmes (quadrinhos, fotos ou videogame, já utilizados em O Homem que Copiava e Meu Tio Matou um Cara), aqui ele usa e abusa do elemento metalingüístico sem complicar o roteiro.

Não vou falar de todas as tiradas - não quero entregar a história -, mas tem algumas que valem a pena serem citadas:

Como todo filme brasileiro, ele abre com aquela tela preta cheia de patrocínios e incentivos fiscais. É aí que começam as tiradas de Furtado: escutamos a voz de Fernanda Torres conversando conosco, pedindo para sentarmos, perguntando se deveríamos esperar pelas pessoas atrasadas ou não. Parece uma bela estratégia do diretor para passarmos o tempo enquanto aguardamos aqueles obrigatórios e chatos créditos iniciais, mas quando finalmente a primeira imagem do filme surge na tela, somos surpreendidos pelo fato de que não era a atriz falando conosco, mas a sua personagem dialogando com os moradores da cidade.

Durante a pré-produção e a produção do "filme do monstro da fossa", somos levados por Furtado a acompanhar alguns processos nos quais os realizadores têm que passar, que talvez nem passem pela cabeça da maioria dos espectadores; entre decupagem, captação de recursos, montagem e edição, somos quase que levados pela mão em um mini-curso de "como fazer um filme". É claro que, pelo resultado apresentado, o curso poderia ser de "como não fazer um filme", mas o que importa é que tudo isso é colocado no roteiro de maneira orgânica, em favor da história e de forma extremamente engraçada.

"O melhor de se filmar é bobagem"
. Com essa frase, dita no meio do filme pelo personagem de Bruno Garcia, Jorge Furtado faz uso de um instrumento interessante, aparentemente paradoxal, para nos dizer que o Cinema não precisa ser necessariamente engajado nem se julgar importante. E aí entra o paradoxo, pois essa é uma mensagem extremamente engajada, já que aqui Furtado faz uma bela defesa do Cinema de entretenimento, hoje em dia tão associado a filme ruim. "Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa", já diria o poeta. Existe muito filme "sério" ruim e muito filme de entretenimento de qualidade; uma coisa não anula a outra, e é exatamente isso que Furtado defende - aliás, é exatamente isso que ele faz e vem fazendo há tempos: Cinema de entretenimento e de qualidade. E essa discussão adquire um caráter "engajado" justamente pelo momento em que o Cinema brasileiro passa atualmente: estamos aparentemente divididos entre o "Cinema de autor" e o "Cinema Mainstream", e os dois seriam como água e óleo. Cinema no Brasil que não denunciar alguma chaga do país - seja ela a pobreza do Nordeste, a violência da ditadura, a injustiça social, etc. - é considerado escapismo e provavelmente não receba verbas de incentivo à cultura. Dessa forma, o filme de gênero tem sido relegado a um segundo plano - quantos filmes de ação ou de ficção científica bons (pra citar dois gêneros) foram feitos no país nos últimos anos? Aliás, quantos filmes de humor bons foram feitos nos últimos anos? Furtado não defende aqui que o Cinema não possa ser usado como denúncia, mas que ele é não é só isso. E Saneamento Básico, além de ser a voz que nos diz isso, ainda se revela um ótimo exemplo da sua própria mensagem.

A própria trajetória da personagem de Fernanda Torres, que começa engajada socialmente e depois faz de tudo para que o seu filme venha a se tornar um sucesso, funciona como mais uma metalinguagem, que nos mostra que às vezes um suposto filme engajado pode ter sido filmado com motivações puramente comerciais. E, visto de modo inverso, que um filme aparentemente "comercial", "raso" e "bobo" como Saneamento Básico pode gerar discussões sérias acerca de vários temas do Cinema - e ainda por cima divertir.

FICHA TÉCNICA

Saneamento Básico, o Filme - 2007 - Nota A
Direção e Roteiro: Jorge Furtado. Com: Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Lázaro Ramos, Janaína Kremer, Tonico Pereira, Paulo José, Sérgio Lulkin, Zéu Brito, Lúcio Mauro Filho.

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