18 de jun de 2007

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Escrevendo certo por linhas tortas

Até um tempo atrás eu não gostava de ver em fóruns ou no Orkut ou em qualquer lugar aquelas formas alternativas de escrita (tipo "vo6 saum du caralhu"). Achava aquilo um atentado à língua portuguesa, uma demonstração intencional de ignorância, etc, etc, etc. Pois bem, depois de pensar um pouco mais demoradamente no assunto, eu confesso: estava errado.

Sair falando mal desse tipo de comportamento é puro preconceito. Explico: quem, dentre os nobres leitores deste humilde blog, fala um português 100% correto? Nós, os gaúchos, por exemplo, adoramos falar o "tu" e usar o verbo na terceira pessoa do singular (tu sabe?), e amamos cortar alguns "s" do final das palavra*. "Ah, mas a fala é uma coisa, a escrita é outra." Não. Não é. Vai dizer que nunca ouviu alguém falar alguma coisa errada (tipo "tem bem menas gente aqui hoje") e ficou pensando "hum, que mangolão"? Os erros ocorrem tanto para a escrita quanto para a fala, e o preconceito é o mesmo. E esse preconceito está muito calcado no status.

Max Weber chamou a atenção de que não é só o capital que forma uma elite; é preciso também haver status (prestígio social), que se consegue através de uma série de estratégias, dentre elas o uso de comportamentos próprios e de preconceitos quanto a qualquer outro comportamento. Pois bem, o escrever/falar certo é um desses comportamentos. Se eu escrevo/falo certo, me coloco em um nível acima daqueles que não o fazem. Vamos pensar bem: uma pessoa que erra uma palavra, seja escrita ou falada, não tem A MENOR CHANCE de ser tão capaz de expôr suas idéias quanto outra que não erre? Qual é a relação entre as duas coisas, a não ser a manutenção de um prestígio social? É importante existir uma gramática que normatize a língua; afinal, de outro jeito talvez não conseguíssemos nos entender. Mas não pode se perder de vista que essas normas são, em última instância, políticas.

Essa escrita estilizada que existe por aí hoje em dia nada mais é do que a expressão de uma geração. Se essa geração está equivocada em seus princípios, isso não tem nada a ver com o fato dela escrever desse jeito - isso porque qualquer geração tem suas gírias próprias, o que é até mesmo fonte de identificação de grupos sociais diferentes. Achar que alguém que escreve de um jeito xis não consegue estabelecer uma argumentação lógica é cair no puro preconceito. Não estou aqui dizendo que TODOS os que escrevem assim o fazem sabendo como a mesma frase ficaria com um português correto, ou que TODOS são ótimos na retórica. Apenas que essa forma de escrita pode ser uma opção - ninguém nunca escreveu num e-mail alguma abreviatura, por exemplo?

* ironia óbvia

2 comentários:

Thiago F.B disse...

Eu uso muito este tipo de escrita quando estou no msn...ou quando vou cementar algo em algum fotolog de algum amigo(a) meu...
É uma maneira de escrever mais rápido e agilizar o que seria uma conversar sem fala...mas escrevendo da forma mais correta dificultaria as coias ao manter uma conversa com mais de 4 ou 5 pessoas ao mesmo tempo...por isso ao outra escrita...
afinal você nunca usou um "vc" ???
heheheh
abraço...
Falooooooooow.

André disse...

"Preconceito Linguístico", já dizia a minha professora. A real é que as pessoas andam procurando maneiras de se sentir inteligente, e ridicularizar tal forma de escrita é uma delas.

Mas que é irritante tentar ler alguma coisa escrita em MiGuXêXxXxXx, isso é.

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