11 de mai de 2007

Inspirações

Ultimamente, lendo meus blogs favoritos eu me vi algumas vezes na mesma situação: vou comentar algum post, concordando ou discordando do que foi colocado, quando percebo que meu comentário daria um ótimo assunto para um post próprio. Portanto, vou aos poucos postando esses "comentários maiores", sempre dando o crédito da postagem original. O primeiro da série é um referente a esse post, do Kleiton do Cataclisma 14.

Para quem está com preguiça de ir até o link para ver do que se trata, um pequeno resumo: o texto mostra uma reportagem do Terra dizendo que o presidente da CNBB criticou o programa de educação sexual do governo federal por este induzir "à promiscuidade, ao promover a distribuição de preservativos". Por esse tipo de comportamento (que entre outras coisas pecaria "pela falta de bom senso dessa instituição, pela falta de adequação ao novo cenário mundial, por tentar tapar o sol com a peneira"), o texto conclui que a Igreja está perdendo muitos fiéis, perguntando-se se é tão difícil a Igreja ver que os tempos são outros.

Realmente, se olharmos as recomendações sociais que a Igreja faz aos seus fiéis e as analisar com uma visão "progressista", no sentido da história dos comportamentos, parece que há um grande atraso entre a visão católica e o que acontece no mundo hoje em dia. Mas é importante pensar que toda a religião, vista sob esse ponto de vista, é "atrasada". Isso porque o tempo das Igrejas não muda; as recomendações que constam de seus livros sagrados foram dadas há tempos imemoriáveis por personagens autorizados pelo seu Deus ou por Ele próprio; se Ele quisesse que essas regras mudassem, teria avisado. Portanto, as coisas continuam do mesmo jeito até segunda ordem. É claro que para algumas novas igrejas sempre se dá um jeito de se reinterpretar os escritos sagrados (a maioria das que eu me refiro se inspira no texto da Bíblia), e é exatamente por isso que elas estão roubando fiéis de religiões mais "conservadoras".

Mas não pensemos que no caso da Igreja Católica as coisas sempre foram imutáveis. Basta lembrar que antes do capitalismo obrigar as pessoas a trabalhar a preguiça não era considerada um dos sete pecados capitais, mas sim a acídia (ou tristeza, normalmente por uma visão pessimista das coisas). Além disso, o jejum da sexta-feira santa também passou por alterações ao longo do tempo, graças à falta de praticidade que ele implicava. Porém, essas alterações não significaram grandes mudanças nos dogmas (verdade divina que não aceita contestação) da Igreja Católica: em nada alteraram o significado dos pecados capitais nem o da Sexta-Feira Santa.

No caso específico da proibição do uso de qualquer método anti-concepcional (e não só da camisinha, vejam bem), no entanto, parece que se houvesse um "avanço" no sentido de aliviar a restrição - ou mesmo eliminá-la - isso poderia significar uma reação em cadeia em várias questões caras à religião católica, o que poderia por sua vez acarretar até o seu fim, pelo menos ideológico.

Vejam só: por que proibir os métodos anti-concepcionais? Ora, porque a gente só pode transar com o intuito de procriar (como diria a Comunidade Ninjitsu, igual a Bob Marley/uma trepada e um bebê). E mais: sexo, só depois do casamento. Para terminar, não esqueçamos que o adultério não é permitido, sendo proibido tanto pelos Dez Mandamentos e pelos Sete Pecados Capitais quanto em uma série de passagens bíblicas. Tudo isso junto dá no seguinte: não é preciso método anti-concepcional, nem camisinha. Ora, se não há traição e o sexo tem como único intuito fazer nenês, ninguém nunca vai pegar AIDS ou outra DST (a não ser em casos excepcionais, mas aí em quantidade suficientemente pequena para que nem se pense nesses métodos).

A sociedade mudou? Azar o dela, segundo os católicos. Quem é católico mesmo (o que eu chamo de "católico roots") vai continuar obedecendo às leis de Deus. É o homem que tem que se adaptar a elas, e não elas que têm que se adaptar às mudanças comportamentais do homem. É por isso que o divórcio ainda não é permitido pela Igreja Católica, trinta anos depois da sua aprovação laica. E é aí que entramos no risco de, ao mudar a concepção da camisinha, começarem a cair os dogmas da Igreja: o homem não é mais importante do que Deus e ponto final. O sexo é exclusivamente para procriar e ponto. E assim por diante.

Mas porque os dogmas da Igreja são tão importantes? Ora, só duas coisas no mundo impedem a gente de sair entrando nas casas alheias, estuprando as mulheres e pilhando o que vemos pela frente: as leis humanas (o Direito) e as leis divinas (nesse caso específico, o que a Igreja Católica diz). Gostando ou não, é preciso dar a essas duas instâncias a importância que lhes é devida, de controle do caos, de supressão dos nossos instintos, enfim, da ordem. Por tudo isso, talvez seja tão difícil de a Igreja mudar a sua concepção em relação aos anti-concepcionais (trocadilho infame, eu sei).

Para terminar, quero deixar claro que não sou católico nem defendo a posição do Papa. Afinal, como disse no início da frase anterior, não sou católico. Assim como não concordo inteiramente com nenhuma outra religião. Porém, são as concepções deles. Os judeus não comem porco, os hindus não comem vaca, os católicos não comem (quase) ninguém. Não tá afim de cumpri-las, bem, é só sair dessa ou daquela crença. Porque, como eu já disse outra vez, se você se diz pertencente a alguma religião, tem que cumprir à risca, sem perguntar o porquê. Agora, achar que o que a Igreja Católica diz tem alguma importância é no mínimo ingênuo; afinal, ninguém (ou quase ninguém) deixa de transar antes do casamento, por exemplo, porque o Papa disse que é errado. Então, porque se preocupar com isso?

4 comentários:

luciano disse...

Preciso!
O problema é quando os missionários das regiões mais afastadas e pobres do país incentivam seus fiéis a não utilizar nenhum tratamento anti-concepcional. Mesmo que o governo tentasse qualquer medida para evitar aquelas famílias de 10 filhos subnutridos, 7 já mortos, com renda de nem um salário mínimo, teria a presença dos representantes da igreja pra manter a vontade de deus ali.
Mas tirando esse pequeno caso, escuta quem quiser mesmo. Dizer que não transa antes do casamento é uma bela desculpa por não ter conseguido ainda perder o cabaço (huahuahua)

Leo disse...

Realmente é o fim da várzea essa notícia. Só que eu acho o seguinte: pq as pessoas ainda insistem em serem católicas, quando esta religião prega coisas que vão contra a uma prática essencial (no caso do uso da camisinha) ou até mesmo de uma orientação sexual (no caso dos gays).

Melhor procurarem outra coisa pra fazer! :P

Rodrigo Cardia disse...

Quem não concorda com a Igreja Católica, que deixe de ser católico! Procurem outra religião, ou façam como eu: tornem-se agnósticos.

Leandro Corrêa disse...

O Papa é tipo o Relações Públicas da Igreja Católica: por mais que toda a sociedade tenha se transformado e passado a não concordar com a empresa, o papel do RP é continuar defendendo aquilo que a empresa acredita.

Não devemos culpar o Papa por suas declarações, mas a Igreja. O Papa é um Zé Mané! hehe! Aliás, como podem chamar esse alemão de Papa? Esse Bento XVI está mais para impostor, falcatrua. Papa que é Papa descia do avião e beijava o chão!!!

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