4 de mai de 2007

Cannibal Holocaust

No post sobre o 300 eu havia mencionado por cima essa produção de 1980, que até hoje recebe o título de um dos filmes mais controversos de todos os tempos. E não é para menos. Trata-se de um daqueles filmes exploitation de diretores italianos do final da década de 70 e início da de 80, quando repetiam temas de filmes de sucesso de Hollywood com um orçamento muitíssimo menor. A diferença é que aqui o diretor Ruggero Deodato faz um quase mockumentary (um pseudo-documentário), utilizando uma estrutura de certa forma inovadora e com cenas bastante realistas, o que ajudou a promover o filme de maneira tão... diferente.

Atenção: contém spoilers (ou seja, se você ainda não viu o filme os próximos parágrafos podem estragar algumas surpresas...)

Cannibal Holocaust conta a história de um antropólogo (Robert Kerman) que é enviado para a fronteira do Peru com o Brasil para descobrir o que aconteceu com quatro jovens documentaristas (Carl Gabriel Yorke, Francesca Ciardi, Perry Pirkanen e Luca Barbareschi) que foram até lá dois meses antes para fazer um documentário sobre tribos canibais e não voltaram. O antropólogo e seus guias se aventuram no meio da mata e até descobrir o destino dos caras vão presenciar um estupro ritual seguido de morte (uma punição por adultério) e um assassinato de uma nativa de uma tribo pela tribo rival - entre outras coisas mais leves. Após descobrir que os jovens haviam sido mortos por uma das tribos canibais, ele consegue levar as fitas das gravações do documentário para os EUA. Lá, assiste as últimas horas do grupo e descobre o que realmente aconteceu. Durante a exibição dessas imagens, mais estupros, decapitações, canibalismo, empalamento e toda a sorte de atrocidades que a cabeça do roteirista Gianfranco Clerici conseguiu conceber.

Depois de lançado na Itália, o filme foi rapidamente censurado e o diretor preso, acusado primeiro por "obscenidade" e posteriormente por fazer um "snuff film" (um filme que contém mortes reais), baseado em rumores de que atores teriam realmente morrido durante as filmagens. Na verdade, houve assassinatos no filme, mas de animais: um quati, uma tartaruga gigante, uma aranha, uma cobra, dois macacos e um porco foram mortos para (perdoem o trocadilho) a execução do filme. Mesmo após retiradas as acusações - depois de Deodato ter conseguido provar que os atores estavam vivos -, o filme foi banido na Itália, Inglaterra, Austrália e uma pá de outros países, em alguns desses até hoje.

O pior é que o filme, apesar de moralmente reprovável em várias ocasiões, não é ruim. Mas primeiro vamos aos pontos negativos: em primeiro lugar, as mortes totalmente desnecessárias dos animais, que inclusive foram reprovadas pelo próprio Deodato anos depois. A maioria foi inserida apenas para aplacar um eventual sadismo do espectador e, além disso, todas poderiam ter sido montadas com bonecos (assim como as dos humanos, ora bolas!). Além disso, a edição é meio problemática em alguns momentos, quando a filmagem não é "documental": os cortes são muito bruscos em algumas ocasiões, o que não deixa de ser característico dos exploitation da época.


Mas é inegável a qualidade da trilha sonora de Riz Ortolani: apesar de claramente gravada em equipamentos precários, sua musicalidade ora contrasta de maneira eficiente com a atmosfera criada em algumas cenas, ora acentua todo o horror do meio daquela selva. Também é digna de nota a montagem do filme, que nos surpreende no fim do filme com a revelação de quem são os verdadeiros "selvagens". Afinal, descobre-se no final que os mocinhos não eram quem pareciam ser e que os bárbaros e atrasados indígenas foram na verdade primeiramente suas vítimas. Até que ponto nós, que nos auto-denominamos os racionais e os mais evoluídos da espécie humana, podemos efetivamente nos colocar no alto do pódio? Esse conceito de relativizar a nossa civilização em relação a uma outra é muito interessante, fornecendo uma bela crítica à auto-imagem ocidental. Por último, é importante destacar que filmes como Bruxa de Blair têm um grande tributo a pagar a Cannibal Holocaust, graças as suas imagens "documentais" e ao seu estilo pseudo-real.


No fim das contas, é um bom filme. Mas só assista se você tiver estômago forte. Bem forte.


FICHA TÉCNICA:
Cannibal Holocaust (1980) - Nota B
Direção: Ruggero Deodato. Com: Robert Kerman, Carl Gabriel Yorke, Francesca Ciardi, Perry Pirkanen e Luca Barbareschi.

4 comentários:

Rodrigo Cardia disse...

Não vi esse filme mas já sabia bastante sobre a polêmica que causou, como o caso do diretor ter de provar à polícia que todos os atores estavam vivos... Para ver o impacto que causou.

Rodrigo Cardia disse...

Ah, tinha me esquecido: SAUDAÇÕES TRICOLORES!

Abraços

Eu mesmo disse...

Rodrigo, vou ter que começar a usar a moderação de comentários...

Rodrigo Cardia disse...

Pensei que esse blog defendesse a liberdade de expressão, e não a censura... hehehe...

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