22 de jan de 2007

Cinema

Recomeço a postar críticas de filmes por aqui. O esquema é o seguinte: não são necessariamente filmes novos, mas todos que estiverem aqui vão ter sido vistos há pouco tempo e passarão por uma avaliação amadora da minha parte, recebendo um conceito plagiado da UFRGS (A, B, C e D). O primeiro da nova série é...
O ano em que meus pais saíram de férias (2006, direção de Cao Hamburguer) - nota A
O filme se passa em 1970 e acompanha Mauro, um garoto mineiro de 12 anos, deixado para o avô em São Paulo pelos seus pais, que supostamente vão sair em férias. Na verdade, seus pais estão sendo perseguidos pelos militares e precisam fugir, e inventam essa história de férias para não abalar o garoto. O pai de Mauro promete que voltará antes da Copa do Mundo começar, o que de certa forma tranqüiliza seu filho. O problema é que o avô de Mauro morre antes do menino chegar, e agora cabe a Schlo, vizinho judeu do falecido, a responsabilidade pela tutela de Mauro até seus pais voltarem – se é que voltarão.

Um dos grandes triunfos do roteiro é acertar a mão ao colocar dois temas tão aparentemente distintos – futebol e ditadura, um tema leve e outro pesado – em um mesmo filme. Ele alterna momentos tensos com toques cômicos de maneira orgânica, o que faz com que o filme jamais se torne apenas um ode ao esporte ou um “documento” sobre o regime militar. Um bom exemplo disso está na parte em que vemos os estudantes “subversivos” comemorando o gol da Tchecoslováquia contra o Brasil, dizendo que seria uma vitória do comunismo se o Brasil perdesse. Logo em seguida, ao sair a virada dos brasileiros, vemos a comemoração eufórica do bairro inteiro, inclusive dos esquerdistas.

Utilizando uma fotografia granulada para dar mais proximidade à época retratada, o filme consegue envolver o espectador na época em que se passa. A direção de arte também ajuda nesse ponto graças ao figurino apurado e à preocupação em manter tudo o mais próximo possível dos anos 60. Com tudo isso e mais os registros de trechos de algumas partidas do mundial de 1970, somos quase transportados àquela época, e confesso que tive saudade de um tempo que não vivi graças a uma espécie de nostalgia que perpassa todo o filme.

Mas o longa não é só flores; sem cinismo, ele retrata a ditadura como um elemento do filme, evitando tornar-se apenas um filme “anti-militar” para realmente contar uma história cujo tema – ditadura – perpassa-o de maneira decisiva. É muito interessante reparar que o realizador tenha optado em nos deixar com as mesmas informações que o garoto tem, como se enxergássemos a sua história através do seu ângulo – o que é reforçado pela narração em off de Mauro: observe que em nenhum momento sabemos para onde os seus pais foram, nem o conteúdo dos bilhetes que Schlo e o personagem de Caio Blat trocam e o que aconteceu com o judeu na delegacia.

Além disso, os atores atuam de maneira segura, sem deixar a peteca cair, mesmo os atores infantis. Isso talvez se deva ao fato de o diretor já ter experiência com a criançada (ele dirigiu O Castelo Rá-Tim-Bum – o filme). Michel Joelsas consegue passar toda a impaciência do garoto Mauro, e Germano Haiut faz de seu personagem um sujeito contido que às vezes parece se perguntar “por que comigo, meu Deus?”.

O maior defeito do filme talvez resida no fato de não conceituar melhor o período em que se passa. Ao não fazer menções diretas à ditadura, dá a impressão que o filme foi feito apenas para brasileiros – na melhor das hipóteses, para quem conhece a história recente do país. Poderia haver uma pequena introdução em legenda ou em narração em off que não faria mal algum.

Sem fazer concessões no seu final, o filme parece honrar o apelido que ganhou de alguns – o de “filme mais argentino já feito no Brasil” –, graças à forma tocante com que trata um tema ainda delicado da história do Brasil. Mas encará-lo assim seria desonrá-lo, pois ele é muito mais que isso. É uma história tocante, um relato de uma época aterrorizante, vista da ótica de um menino de 12 anos apaixonado por futebol. Só por ter juntado isso sem parecer piegas ou panfletário já vale uma conferida.

3 comentários:

Rodrigo Cardia disse...

Assisti esse filme e também achei excelente, devido à maneira que é contada a história, do ponto de vista do Mauro. Mas também achei que fez falta uma introdução em que se explicasse o que se passava no país à época, pois quem não tem conhecimento de História do Brasil poderia não entender direito por que os pais dele "saíram de férias".

Anônimo disse...

Sem legendas, sem locução em off. Ainda não vi o filme, mas sou contra essas coisas, sempre.

Leandro Corrêa disse...

Que diferença faria se algumas pessoas não entendessem porque os pais sairam de férias?
Além da reconstituição de época, esse é o outro grande mérito do filme: só sabemos o que o guri sabe; a confusão que um não-brasileiro teria é igual à que Mauro teve.
Não é "sensacional", mas é um bom filme...

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