1 de out de 2007

Lembranças e Fantasmas

Todo mundo tem coisas guardadas em casa. Papéis, brinquedos, generalidades, algo arquivado e esquecido nas gavetas, enfim, que sempre evocam nosso passado de uma maneira ou de outra. Em grande parte dos casos, elas se referem a algum momento que já é tão distante que não merece nem ao menos uma visita, mas insistimos em mantê-las guardadas. Porém, existem momentos em que chega a hora de fazer uma limpeza.

Deixamos aqueles depósitos de memória ali, sobre aquela mesa, dentro daquela gaveta, naquela prateleira – e hoje em dia também na nossa caixa de mensagens – primeiro como uma tentativa de não esquecer, como uma recordação. Às vezes, à medida que o tempo corre, passamos a desenvolver uma outra relação com eles, passando a enxergá-los com um estranhamento inconveniente. Eles deixam de ser longínquos conhecidos e tornam-se estranhos inoportunos. Todo o sentimento que lá se fixava e que de lá poderia nos contaminar já não existe mais; aquelas coisas agora já são só coisas, às vezes não mais desejadas. Tornaram-se fantasmas. Para eles, um destino: a eliminação.

Mas por que aqueles objetos, tão caros um dia, hoje já não significam nada ou tiveram seu significado tão alterado que nem parecem mais vindos da nossa própria vida? Ora, porque nós mudamos. Estamos constantemente nos esquecendo disso, às vezes por pura conveniência, mas o fato é que nunca mais seremos os mesmos que fomos hoje; seja pelas experiências próprias ou pelas testemunhadas, seja pela maturidade ou por qualquer outro motivo, vivemos em constante mudança. Esta pode ser imperceptível se vista de um dia para o outro, mas como um processo de longa duração ela é bem fácil de ser reparada. Já no século IV a.C. Heráclito de Éfeso, filósofo grego, dizia: “Um homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio. Na segunda vez, as águas já são outras e ele está mais velho”. Nós mudamos, mas as coisas guardadas não. E elas passam a ser, ao invés de lembranças, fantasmas a nos assombrar, a nos incomodar. Então, é hora de nos livrarmos delas, sem remorso.

Pode acontecer também de precisarmos nos desfazer desses vestígios materiais das nossas lembranças porque muitas vezes eles são empecilhos para continuarmos seguindo em frente. Eles tentam nos manter em um momento que já não existe mais a não ser ali, naqueles objetos. Isso pode ser prejudicial, principalmente se tentamos seguir em frente com a nossa vida e mais ainda se estamos começando a tentar trilhar novos caminhos. Nesse caso, não só é importante o descarte, mas indispensável.

Minha mãe, após a morte de meu pai, foi aos poucos se desfazendo de uma série de objetos relacionados a ele. Hoje em dia pouco sobrou. Ela consegue recuperar as recordações que quer sobre seu marido facilmente puxando tudo pela memória. Muito mais prático, não ocupa espaço e nem assombra. Se ela foi muito extremista? Para alguns, pode ser. Mas para ela serviu exatamente para o que queria no momento.

Essa é a tônica do processo: cada um sabe melhor do que ninguém a hora certa de limpar o seu armário, arrumar a sua mesa, esvaziar as suas gavetas. Ou pelo menos deveria saber. Porque nada melhor para seguir, recomeçar ou reiniciar a vida do que um caminho sem fantasmas.

6 comentários:

luciano disse...

acho bom tu dar um tempo do trabalho de técnica...

Leo disse...

Ótimo texto cara!
E quem nunca se deparou com um sentimento com este, não é mesmo?

Rodrigo Cardia disse...

Muito bom o texto!
Pior é que sempre acontece isso: guardamos coisas por acharmos que vamos precisar delas um dia (ou porque têm algum valor sentimental), e quando percebemos, tornou-se algo inútil ou que atrapalha.

Abraços

Eu mesmo disse...

Tirei tudo pra fora
Mandei tudo embora
Agora, só na memória
E na história!
:)
Baci

André disse...

Aqui em casa, ainda está difícil mexer nas coisas do meu pai: se algumas já conseguimos organizar, outras ainda precisam de mais tempo.

Eu, por exemplo, simplesmente não consegui apagar do pc uns vídeos de corrida que eu não assisto e só ocupam espaço, porque foi ele que baixou. Mas, com o tempo, imagino que fica mais fácil.

Belo texto.

Thiago F.B disse...

é cara...acho que tem coisas mais cotidianas que é mais fácil guardar ou se desfazer...ainda mais quando são coisas só tuas e tals...
Mas penso que deve ser mais difícil quando esses objetos se reportam à alguém em específico e tals...aí nesse caso, pra saber, só vivendo mesmo!!!
Mas sem dúvida todos passamos por momentos como este...por isso que gostei tanto do texto...
era isso...abraço..faloooow.

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