19 de nov de 2007

Tropa de Elite

Por problemas logísticos, demorei para assistir Tropa de Elite. Isso fez com que eu fosse previamente bombardeado por todos os lados com comentários e alusões a trechos do filme que, mesmo que eu quisesse evitar, não conseguiria. Toda a polêmica em torno do roubo do filme não finalizado e sua posterior distribuição pirata por tudo quando é camelô, aliada à discussão sobre a própria temática me fizeram acreditar que o filme estava sendo superestimado. Ledo engano, parceiro.

O filme conta a história do Capitão Nascimento (Moura), comandante de um esquadrão do BOPE (Batalhão de Operações Especiais da PM do Rio de Janeiro) que, após um bom tempo à frente da sua equipe, começa a apresentar sinais de cansaço - incluindo síndrome do pânico - e precisa encontrar um substituto à altura antes de sair. Na PM "regular" ele encontra dois candidatos, Matias (Ramiro, o inteligente) e Neto (Junqueira, o determinado), e deve escolher logo, porque sua esposa, no final da gravidez, o pressiona para que ele saia o mais rápido possível da corporação.

Através dessa história, José Padilha (diretor do excelente documentário Ônibus 174) tece um retrato da tal "guerra particular" que João Moreira Salles e Katia Lund nos mostraram em Notícias de Uma Guerra Particular, outro documentário imperdível, através de uma ótica no mínimo corajosa: a de um policial. Com um roteiro escrito a seis mãos (Padilha, Braúlio Mantovani, do também ótimo Cidade de Deus, e Rodrigo Pimentel - ex-capitão do BOPE e um dos entrevistados no documentário de Salles e Lund), Tropa de Elite não faz nenhuma concessão ao mostrar a violência existente em ambos os lados dessa guerra, contando com a narração em off do Capitão Nascimento.

Com uma montagem desconcertante, que acerta ao dar um caráter rápido às cenas mais tensas e ao travar o ritmo quando precisa desenvolver os personagens, o filme é um desfile de boas atuações, dos personagens principais aos coadjuvantes. Wagner Moura, em especial, dá ao Capitão Nascimento o tom certo; apesar de ser talvez o personagem mais racional e que mais tem a noção geral dos acontecimentos por ali, parece estar cego diante do próprio potencial que tem nas mãos para usar de violência sem critérios para conseguir o que quer. Aliás, sua narração é mais uma decisão acertada do diretor, pois dá ao espectador a chance de ouvir as argumentações de Nascimento - e ao constatar que elas são, na sua maioria, absolutamente coerentes, o que fica é uma sensação de concordância com alguns de seus atos (voltarei a isso mais tarde). A maior parte do tempo o diretor deixa a câmera na mão, que transborda urgência ao que está acontecendo na tela, seja nas operações na favela, seja durante o pesado treinamento do BOPE. Além disso, o som é ótimo, e só ele já basta como argumento para não assistir Tropa de Elite numa cópia pirata, e sim no cinema; a montagem e o design de som estão sensacionais (percebam o funk no início, quando um trecho "à capela" é alternado com outro com as batidas), e a trilha sonora se encaixa perfeitamente com os momentos em que elas aparecem - e olha que eu nunca imaginei dizer isso de um filme que tem uma música do Tihuana na trilha...

Mas o principal em Tropa de Elite não parece ser o filme em si, mas sim as diferentes mensagens que ele sugere. Escrevo "sugere" porque Padilha não nos dá nenhuma resposta pronta, apesar de às vezes parecer o contrário: ele nos joga na cara as questões e deixa que tentemos respondê-las por nós mesmos (já volto a essa questão novamente). Isso desde já é de uma curiosidade problemática sem paralelos no Cinema brasileiro, visto que é um filme "cabeça" de "ação" que está sendo exibido em salas Multiplex do Brasil inteiro, enquanto que até então os filmes-cabeça nacionais costumavam passar em salas menores e em número bem reduzido. Aumenta-se o alcance, mas será que se aumenta o alcance? Entre as diversas questões, destaco as que penso serem as mais relevantes:

- em primeiro lugar, uma questão mais geral, que é a de que o problema da violência e das drogas no Rio é mais complexo do que se vê em conversa de boteco; são várias variáveis envolvidas, nenhuma está isolada da outra e todas se retroalimentam, crescendo de maneira conjunta e exponencial. Portanto, soluções unilaterais seriam simplistas e maniqueístas, esvaziando em muito a discussão em torno do tema - e a sua conseqüente solução.

- Os jovens universitários: quem faz algum curso universitário de Humanas sabe o quanto do que está ali é bem real. Quantos pseudo-comunistas, por exemplo, não discutem la revolución bebendo Coca-Cola e usando Nike? No caso do filme, alunos discutem a violência policial, a violência do tráfico, mas não enxergam o quanto aquela inocente maconha que fumam está no meio da questão, e conseqüentemente o quanto eles mesmos são, em certa medida, agentes desse processo. "Na prática a teoria é outra", já diria um estagiário de História dando aula, depois de várias cadeiras na Faced... A cena em que se discute Foucault, aliás, é uma das melhores, quando chovem reclamações sobre a truculência policial contra aqueles estudantes, todos esclarecidos, ricos e cidadãos honestos que não fazem nenhum mal a não ser usar drogas de vez em quando, sonegar impostos e furar a fila do RU - alguns ainda queimam mendigos e espancam prostitutas, mas não vamos generalizar aqui, né? Os policiais deveriam estar atrás dos criminosos, não deles, ora bolas! A recriação desse discurso no filme, tantas vezes repetido pela elite brasileira, tem um caráter de crítica fundamental no filme. Talvez Padilha quisesse tanto chamar a atenção com isso que incluiu cenas demais explicando essa história (como aquela em que Matias bate em um estudante em uma passeata pela "paz" - outra ótima crítica, aliás). Talvez nem com esse monte de explicações a elite entenda, já que a sua memória seletiva depois do filme só se lembra do BOPE matando os traficantes na favela. O que me leva a outro ponto.

- Tropa de Elite foi acusado por várias pessoas de ser fascista. Afinal, ele serviria como uma propaganda do BOPE, mostrando um capitão deles como herói, mostrando cada morte dos traficantes como mais uma, mas a de um dos seus integrantes com todos os detalhes e honrarias possíveis, etc. Discordo desse ponto de vista. Para mim, o filme de Padilha não é fascista, ele apenas expõe sentimentos em uma parcela do público que me fazem dizer, com certa tristeza, que uma boa parte da sociedade brasileira é fascista. Explico: a situação da violência no Brasil chegou a tal ponto que parece não haver muita solução a não ser a repressão pura mesmo. Isso quer dizer que poderíamos permitir que um policial, que nada mais é do que um policial, tenha poderes de um Estado de Exceção para, além de prender, julgar e condenar o réu, e o Poder Judiciário que se dane. A coisa é bem grave quando vemos várias pessoas comemorando as ações do BOPE no filme, ou dizendo que precisamos de mais Capitães Nascimento no Brasil (né, Luciano Huck?), com carta branca para subir o morro, invadir as casas e matar pobres. Um dos problemas é que ninguém quer o BOPE invadindo Copacabana. Esse tratamento diferenciado é típico de sociedades fascistas, e lamentavelmente a nossa - ou uma parcela importante dela - está caminhando, consciente ou não, para esse caminho. Isso é culpa de uma série de questões (como eu disse mais acima), mas o que importa aqui é que cada vez mais a sociedade brasileira faz vista grossa quando a violência policial atinge "os outros". O que me leva a uma outra questão.

- "Os outros": cada vez mais eu enxergo a sociedade brasileira das grandes cidades dividida entre os que têm e os que querem ter (isso é diferente da velha luta de classes do tio Marx - não comemorem, pseudocomunistas!). Isso quer dizer que entre os policiais e os moradores dos bairros nobres existe uma visão muito distanciada e estereotipada em relação aos moradores das favelas e das periferias, e vice-versa. Isso dá uma certa tranqüilidade na hora de torcer pra um dos lados nessa guerra; se eu tenho dinheiro, pra mim bandido bom é bandido morto. Se eu moro na favela, bom mesmo é o traficante, não os porcos ou os playboys. Na semana retrasada, por exemplo, depois do tiroteio na Vila Areia em que um policial foi morto e um traficante foragido foi preso, uma moradora da vila foi entrevistada e disse que o sujeito preso era "uma boa pessoa". Essa alteridade torta justifica que os dois lados enxerguem o outro com um desdém preocupante, visto que ambos são do mesmo país, do mesmo estado, da mesma cidade - nem estou argumentando que ambos são seres humanos, vejam bem.

- Por fim, parece que a situação brasileira chegou a tal ponto de violência que qualquer coisa que vise a acabar com ela torna-se aceitável - mesmo que também seja violência. O problema é que, quando a gente avança demais, depois é muito difícil de se voltar atrás, parceiro...

Por todos os seus méritos técnicos (com ajuda da Universal, é bom lembrar) e por seus méritos, digamos, sociológico-filosóficos, Tropa de Elite configura-se no melhor filme brasileiro que eu assisti nesse ano, disparado, surpreendentemente.

FICHA TÉCNICA

Tropa de Elite - 2007 - Nota A
Direção: José Padilha. Roteiro: José Padilha, Bráulio Mantovani e Rodrigo Pimentel. Com: Wagner Moura, Milhem Cortaz, Caio Junqueira e André Ramiro.

6 comentários:

Rodrigo Cardia disse...

Eu não daria nota A para o filme, e sim A+. Aliás, para o post também.

Abraços

Murilo disse...

se tu falasse mal do filme, eu ia te botar no saco!

Leo disse...

Só nota A??

O SENHOR É UM FANFARRÃO, SEU 02!!

:D

Thiago F.B disse...

mas pior do que botar no saco é o que vem depois do saco!!!!
hehehehehe

André disse...

Se tu nã0 fosse preguiçoso e tivesse escrito antes, eu poderia linkar esse texto na minha resenha, o que enriqueceria o post.

Estou SERIAMENTE começando a achar que o filme vazou de propósito...

Laura disse...

Com um pouco de devasagem...Bom texto, bom mesmo! Mas me diga, o que a Universal tem a ver com o filme? Essa parte ainda não sabia!!! Seu fanfarrão!

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