11 de set de 2007

Photoshop, que beleza!

A tecnologia é algo realmente incrível. Encurta distâncias, nos permite fazer coisas jamais sonhadas pelos nosso antepassados, nos libera de várias tarefas chatas e ingratas. Porém, como sempre tem um ser humano por trás dela, isso pode ser também ruim. Tecnologia bélica é um exemplo óbvio para o caso, mas prefiro me ater a um outro: o efeito do Photoshop na sociedade ocidental.

Desde que foi criada, a manipulação digital de imagens (mundialmente conhecida pelo nome do software desse tipo mais conhecido, o Photoshop) provou ser de uma utilidade sem precedentes: nunca foi tão fácil criar verdadeiras obras-primas, seja em anúncios publicitários, seja na confecção de áreas de trabalho para divertir a galera. Já existe até site que faz concursos de imagens "photoshopeadas" e artistas cujas obras são exclusivamente feitas através do programa.

Na contramão de tantas vantagens, o Photoshop proliferou a falsificação de fotos, desde fotos humorísticas até aquelas de espíritos. Recentemente, o portal do UOL pediu para internautas mandarem alguma foto do acidente do avião da TAM, caso tivessem. Acabaram recebendo e publicando uma foto-montagem de algum engraçadinho.

Mas para mim, a pior conseqüência do Photoshop é aquela que está atrelada a uma maldição contemporânea: a escravidão da moda. As revistas em que mulheres lindíssimas aparecem na capa ou no miolo - e não falo só da Playboy, apesar dessa ser sempre a mais lembrada - exercem um fascínio impressionante no imaginário de homens e mulheres: para os leitores em geral, essas modelos representam um padrão ideal de beleza a ser alcançado, conquistado ou imitado. E quem não é assim não é um vencedor, não pode ser feliz e tem algum problema - come demais, se exercita de menos, etc. Não é à toa que muitos currículos pedem obrigatoriamente uma foto anexada a eles. Sugestão: usem photoshop e sejam contratados.

Na área de cosméticos, as mulheres correm para comprar tudo que é tipo de produto de beleza: existe hoje em dia uma infinidade de cremes específicos para cada parte do corpo (daqui um tempo vai ter creme para dedo médio, creme para dedo indicador...). Não bastando isso, o mercado percebeu que havia muita gente que não comprava produtos de beleza e inventou a figura do metrossexual, preenchendo a última fatia de consumidores que faltava - a última não, quando o mercado estiver saturado provavelmente vão criar cremes para os dedos das mãos de bebês metrossexuais.

Na área da ginástica, proliferam novos métodos de "entrar em forma", que há muito tempo não é mais sinônimo de ser saudável, mas sim de moldar o corpo em determinadas formas. Já não basta mais caminhar ou correr ou fazer abdominais; agora temos que fazer academia e ter um personal trainer e fazer ioga e também algum método chinês. Ah, e é sempre bom comprar aquele cinto para perder peso sem esforço, aquele do comercial da TV.

Na área da nutrição, a bagunça está criada. Com a proliferação de revistas com manchetes do tipo "Perca 10 kg em um mês com a dieta do aipim que a atriz Nicole Nogueira recomenda", praticamente todo mundo virou um expert em nutrição. Isso gera avaliações completamente distintas de um mesmo alimento: se hoje o ovo é um vilão por causa do, sei lá, colesterol, amanhã comer ovo já será bom por causa do, sei lá, colesterol. Se há vinte anos existia a gordura da picanha (visível e, por isso, facilmente evitável), a industrialização de produtos alimentares gerou uns 212 tipos de novas gorduras, sendo que a mais perigosa é a temida gordura trans (que por sua vez já tem várias ramificações). Hoje em dia, comer bem é comer pouco. De preferência, nada. Aliás, agora é o momento ideal de algum espertinho começar a ministrar um curso de como se alimentar com luz.

Isso sem contar as coisas que não pertencem a nenhuma dessas áreas, tipo "não sorrio muito para não ter rugas amanhã", ou "preciso urgentemente colocar silicone nas axilas(?)". Enfim, tudo para podermos alcançar aquele padrão de beleza estampado nas revistas. Porém, esquecemos - ou fingimos esquecer - que aquele padrão, além de ter sido escolhido como padrão ideal, é totalmente falsificado.

Vejamos as duas características apontadas do padrão atual de beleza:

- é um padrão escolhido porque isso é uma escolha, não existe um padrão de beleza naturalmente ideal para o ser humano. Nosso padrão é baseado em grande parte no modelo da Antigüidade Grega, mas não podemos esquecer que existiram - e existem - vários outros modelos em outras épocas e culturas. Quem não lembra das gordinhas da Renascença?

- é um padrão falsificado porque as fotos que mostram esse modelo são todas adulteradas por meio digital, recebendo um tratamento que as tira do mundo real e as transportam para um mundo idealizado, que não pertence a nenhum ser humano, nem mesmo às modelos das fotos. Quer uma prova dessa última afirmação: veja as fotos abaixo. As primeiras são da campanha publicitária e as outras são da modelo real (a atriz filipina Angelica Panganiban). Provavelmente até ela deseje ter o corpo da modelo da campanha...



É importante cuidar do corpo. O problema é que na nossa sociedade isso virou prioridade de uma maneira torta, falsa e que serve para enriquecer uma pá de gente. Muitos homens e mulheres há tempos deixaram as suas qualidades soterradas em pilhas de barras de cereal, botox, bicicletas ergométricas e quilos de silicone. Simplesmente deixaram de ser eles mesmos para tentarem ser alguém que não existe.

Por último, um vídeo antigo, mas educativo, do potencial do Photoshop:


4 comentários:

Anônimo disse...

É por essas e outras que eu recomendo teu blog! Ótimo texto, ótimo video! Laura

Rodrigo Cardia disse...

Esse é um texto que eu gostaria de ter escrito!

Abraços

André disse...

Sede não é nada, imagem é tudo.

luciano disse...

Isso aí não serve para aumentar certas "coissa", hein?

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