3 de set de 2007

Antes do Pôr-do-Sol

Atenção: esse post contém spoilers. Caso não queira saber o rumo do filme, não o leia.

Antes do Amanhecer, lançado em 1995, é um filme belíssimo que conta a história de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy), que se conhecem em um trem na Europa e acabam se apaixonando. O problema é que ele vai voltar para os EUA e ela para Paris, mas ao se despedirem combinam de se encontrar seis meses depois, em Viena, sem ao menos trocarem os telefones. O que a história tem de mais interessante é o fato de que o casal se apaixona através de uma gostosa e intensa conversa ao longo de todo o filme. Repleto de diálogos inteligentes e cheios de reflexão, o filme elabora um perfil realista dos protagonistas e desenvolve uma história simples, mas comovente, através de um fiapo de história.

Antes do Pôr-do-Sol foi lançado nove anos depois do seu antecessor e se passa justamente nove anos depois, quando Jesse está em Paris para a divulgação de seu livro (que fala justamente sobre os acontecimentos de Antes do Amanhecer) e acaba reencontrando Celine. Mais uma vez com pouco tempo disponível - o avião de Jesse parte em pouco mais de duas horas -, os dois então desenvolvem outra vez uma conversa interessantíssima, passando por vários temas em que mostram a sua visão de mundo e se percebem ainda apaixonados um pelo outro. Logo no início já ficamos sabendo que eles não se encontraram em Viena, conforme haviam marcado; a avó de Celine, muito querida por ela, fora enterrada exatamente no dia combinado, e apenas Jesse compareceu ao encontro - levando um cano monumental.

Aqui a história é contada em tempo real, o que, juntamente com a coincidência dos nove anos de distância entre o filme e os acontecimentos, causam uma impressão metalingüística que aproxima mais ainda o enredo de um fato real. Isso é auxiliado também através da excelente química entre os dois protagonistas, que passam o filme todo juntos e conversando por longos e belos planos. Aliás, a direção é discreta na medida certa, limitando-se a testemunhar uma bela - mas até certo ponto melancólica - história de amor: após nove anos, ambos percebem-se ainda apaixonados, mesmo tendo se conhecido por tão pouco tempo - ou por causa disso (chego nisso daqui a pouco). Por outro lado, ela agora namora um fotógrafo de guerra e ele está casado e tem um filho. Porém, ambos sentem-se deslocados das suas relações, e em vários momentos eles parecem querer dizer um para o outro algo do tipo: "só vai dar certo se for com você", mas nunca o fazem.

Esse é um ponto muito legal no filme: mais importante do que o que um faz pelo outro ao longo da projeção é o que eles não fazem: em vários momentos, percebemos a vontade não efetuada de tocar o outro; em outra ocasião, Jesse pega Celine no colo apenas para soltá-la logo em seguida, ambos encabulados por parecerem ter passado dos limites. Nesse caso, a ausência fala mais do que a presença.

As questões filosóficas abordadas no filme dariam vários parágrafos - desde questões isoladas como o quanto a ausência de publicidade e incentivos ao consumismo afetam a nossa criatividade e o nosso modo de viver até um futuro novo livro de Jesse, com uma premissa muito interessante -, mas vou me ater só na relação entre os dois. Já perto do final da película ele chega à conclusão de que caso a avó de Celine tivesse morrido dias antes ou dias depois da data do encontro tudo seria diferente nas suas vidas; é como se eles fossem feitos um para o outro - mesmo ambos não acreditando nisso -, mas que por azar, destino ou sei lá o que, tivessem sido afastados definitivamente pelo próprio rumo que suas vidas tomaram, ao não conseguirem mais se encontrar - e eles não tinham nem ao menos o telefone ou o sobrenome do outro.

Porém, o final chega dúbio e, de certa forma, redentor, estabelecendo uma das duas ótimas rimas temáticas do filme (a outra abordarei mais abaixo): no início da projeção, quando está sendo entrevistado por ocasião do lançamento do livro, Jesse é perguntado sobre qual é o destino de seus personagens, já que o fim da sua obra é deixado em aberto. A resposta gira em torno de permitir ao leitor o estabelecimento de um final próprio: assim, um leitor cínico pensaria em um final mais "real", enquanto um mais apaixonado imaginaria um final feliz, no melhor estilo "... e viveram felizes para sempre". Pois bem, o fim de Antes do Pôr-do-Sol vai exatamente ao encontro dessa premissa; a resposta para o que acontece com eles está na cabeça - e no coração - de cada um que o assiste.

O fato de pensarem que são feitos um para o outro - apesar de não dizerem explicitamente isso, ao longo do filme essa impressão parece clara neles - não os exime de problematizar a questão: será que eles pensam isso exatamente por não terem se conhecido por mais tempo? Será que se eles tivessem se encontrado seis meses depois e começado a namorar não teriam terminado logo depois? Mais uma vez, a resposta cabe apenas à interpretação que cada um fará das perguntas que o filme lhe atiça, e isso é sempre um feito louvável em um filme.

Quanto à outra rima temática, essa é feita com o primeiro filme; enquanto Antes do Amanhecer terminava mostrando os locais em que o casal havia passado, completamente vazios, reforçando o tom de melancolia do seu final, Antes do Pôr-do-Sol inicia com os lugares em que Jesse e Celine irão passar, causando uma sensação de expectativa em torno de como esses pontos serão preenchidos pelos dois - e, conseqüentemente, em como será a resolução do seu romance.

Enfim, a dupla de filmes de Richard Linklater se mostra uma ótima história que suscita vários questionamentos ao espectador, o que evidentemente torna a experiência de assisti-la não só um mero passatempo, mas também uma reflexão sobre a vida - e de uma forma muito sensível.

FICHA TÉCNICA

Antes do Pôr-do-Sol - 2004 - Nota A
Direção: Richard Linklater. Roteiro: Richard Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke. Com: Julie Delpy e Ethan Hawke.

2 comentários:

Ana disse...

Molto bene! :D
Fiquei com vontade de assistir colada em ti.
Baci baci

André disse...

São dois baita filmes. Ethan Hawke e Julie Delpy se superaram, imagino o trabalho que deve ter sido gravar tantos planos longos (e com bastante improvisos nos diálogos, acredito).

É o tipo de filme que te faz querer conhecer uma guria em uma viagem e se apaixonar pro ela. Me lembra bastante Lost in Translation (ou vice-versa).

Creative Commons License

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.