30 de nov de 2008

Os Estranhos

Da Wikipédia: Slasher é um sub-gênero de filmes de terror quase sempre envolvendo assassinos psicopatas que matam aleatoriamente. Pecando em vários sentidos em sua produção tanto no roteiro quanto na atuação, edição, fotografia, música e envolvendo muito sangue. Normalmente são feitos com baixo orçamento, daí são constantemente nomeados como "terror b".

Clichê é uma idéia relativa a algo que se repete com tanta frequência que já se tornou previsível e repetitiva dentro daquele contexto.

Acho que o estreante diretor e roteirista Bryan Bertino leu principalmente a segunda frase dessa explicação sobre o gênero slasher quando pensou em fazer Os Estranhos. O filme conta a história de um casal (Kristen e James, Liv Tyler e Scott Speedman, respectivamente) em crise, que vai passar uma noite na casa de veraneio dos pais de James, que fica no meio do nada, e então começam a ser aterrorizados por três estranhos de máscara, tendo que lutar por sua sobrevivência.

Começo a crítica falando sobre um dos únicos méritos do filme: tensão e sustos. Através de uma edição eficaz e uma trilha sonora alta e aguda (principalmente nos momentos de sustos), Bertino consegue deixar o clima tenso principalmente ao longo da primeira metade do filme. Porém, existem dois poréns: primeiro, muitos dos sustos existentes são aqueles totalmente clichês de slashers (como a mão no ombro do mocinho, juntamente com a trilha sonora alta e aguda, que depois revela-se apenas como a mão da mocinha) - só faltou o clichê dos clichês, o gato preto saindo do armário; segundo, a tensão e os sustos não conseguem segurar o filme sozinhos, por causa principalmente do maior erro do filme: atribuir poderes divinos aos três "estranhos".

Sim, isso mesmo: poderes divinos. Os três invasores são oniscientes, onipresentes e onipotentes ao longo de todo o filme. Entretanto, são - ou deveriam ser - pessoas comuns, de carne e osso! Em O Grito, por exemplo, temos um ótimo filme de sustos e tensão, que tem momentos absolutamente cagantes que prendem o espectador graças à edição eficaz e à trilha sonora alta e aguda, mas também ao enredo, que faz sentido dentro da lógica proposta pelo filme (afinal, é um filme de fantasma, então a maneira com que os fantasmas agem faz sentido, pois eles são fantasmas, ora bolas). O problema aqui, em Os Estranhos, é que os personagens-título antecipam todos os passos dos mocinhos, entram e saem da casa sem fazer barulho (corrigindo, fazem barulho quando querem, porque alguns barulhos são importantes para dar sustos) e parecem ter o poder de se teletransportarem, o que é de um absurdo extremo e que retira da tensão e dos sustos o foco do filme, trazendo-o para esses erros de lógica e furos do roteiro - um pecado, infelizmente. Não que o roteiro de O Grito seja lá essas coisas, mas pelo menos tem lógica interna - o que esse Os Estranhos não tem.

Alguns exemplos: tem uma cena em que James vai buscar seu celular no seu carro, que está estacionado do lado de fora da casa. Ele chega no carro, abre a porta e se debruça para procurar o telefone. Então uma mão chega por trás dele e toca o seu ombro. Assustado, ele se vira para trás, mas não vê nada. Olha no banco de trás e nada. Sai do carro e olha ao redor e nada. Ah, e a tal mão fez tudo isso sem fazer barulho algum. Depois ele volta pra dentro da casa, fica um pouco lá, e quando volta para o carro este está todo amassado na frente e com os vidros quebrados. Porém, ninguém havia escutado barulho algum de dentro da casa (detalhe: a casa fica no meio do nada e qualquer barulhinho, quando é pra assustar, pode ser escutado). Aí ele olha pra frente e tem uma mulher ali, a uns vinte metros dele. James pergunta a ela o que eles querem, e Kristen aparece na porta, pedindo pra ele entrar. Ele se vira para dizer a ela que volte para dentro e, quando se vira de volta, A MULHER NÃO ESTÁ MAIS LÁ!! O último exemplo que vou dar (mas que não é o último do filme, juro) é um spoiler que conta um trecho importante do filme; portanto, se você não quer que a história se estrague, vá direto para o próximo parágrafo. Não tem a ver com os super-poderes dos estranhos, mas sim com a falta de lógica que serve para dar sustos: dois meninos entram na casa, depois de todos os acontecimentos, e vêem o casal no chão, todo ensangüentado, imóvel. Um dos meninos se aproxima de Kristen e vai encostar no seu braço, quando ela arregala os olhos e solta um berro. Fim do filme! Ora, quem está na situação dela não fica imóvel e sem fazer barulho, dando um berro quando alguém se aproxima. Essa parte só entrou no filme para fazer com que o espectador saia do cinema com um último (e inverossímil) susto.

Bem, pra não dizer que eu só falei mal do filme, os primeiros quarenta e cinco minutos, que mostram os problemas do casal, são bem amarrados e montados, nos fazendo importar com o destino dos personagens. As atuações não são ruins, mas têm o mesmo problema da maioria dos filmes do gênero: a mulher que fica histérica boa parte do filme e o cara que tenta resolver tudo, mas que só faz mais merda (exemplo e clichê dos clichês: deixar a mulher dentro de casa, sozinha, enquanto vai no celeiro ver um rádio velho; é o velho "fica aí sozinha com o(s) assassino(s) que eu vou até ali fazer uma coisa sozinho e provavelmente ser morto. Afinal, se separar é o melhor a fazer nesses casos, né?").

Para o maior lançamento de Hollywood do ano no gênero, a gente entende porque o Japão e a Espanha continuam como os maiores produtores de filmes de terror da atualidade.

FICHA TÉCNICA

Os Estranhos - Nota C

Direção e roteiro: Bryan Bertino. Com: Liv Tyler e Scott Speedman

Um comentário:

André disse...

Tua resenha me lembrou uma cena de Todo Mundo em Pânico: a mocinha, na sala de aula, olha para a janela e vê, lá fora, o assassino mascarado. Então ela olha para a frente. A câmera volta para o enquadramento da janela e mostra o assassino saindo correndo de uma forma desengonçada. Eis que a mocinha se vira para a janela novamente e, ao ver que o assassino mascarado não está lá, a trilha sonora lança um acorde de suspense.

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