24 de nov de 2008

Da série...

...textos que eu queria ter escrito (é grande, mas vale a pena):

Uma Insuspeita Relação entre Política e Astrologia
Paulo Irineu

Desde os primórdios da humanidade, pessoas como nós têm buscado as mais diversas mentiras para crer. A julgar pela disseminação desta prática, deve existir alguma propensão genética do ser humano para acreditar em tudo o que não é verdade. É como se o nosso cérebro identificasse, através de um mecanismo primitivo, a essência mentirosa das coisas e, imediatamente, se fiasse nelas. Contudo, não nos precipitemos em chamar de estúpidos os homens por suas fraquezas; se eles escolhem os erros, é porque sabem que são erros.

“Mas”, você pergunta, “de que diabos esse cara está falando?!” Ora, amigo, estou falando de você. A menos, é claro, que você não seja humano (nesse caso, entre em contado comigo). Estou aludindo, em verdade, a duas coisas que por ora me vêm à cabeça: o voto, como obrigação patriótica, e a crença nos signos, como refúgio espiritual.

Comecemos pelo primeiro. Quem já não ouviu a velha crítica ao hábito brasileiro de esquecer as misérias que lhes são impostas diariamente para, uma vez a cada dois anos, dirigir-se às urnas para fingir que o seu voto vale alguma coisa? Como podem acreditar que algum candidato, em meio à costumeira corja de carreiristas pilantras, possa ser um salvador iluminado, e que, bastando identificá-lo e elegê-lo, poder-se-á garantir um futuro brilhante para o nosso país? A televisão tem feito insistentes campanhas para incentivar o voto consciente, como se escolher o candidato menos pior fosse sinônimo de consciência política; como se fosse possível identificar o perfil do político por suas promessas – que são iguais a de todos os seus oponentes –, ou pelas ideologias que alegam ter seus partidos – cuja essência constitui-se precisamente na ausência de ideologias. O voto nulo, este que parece ser a escolha mais correta (quando não se tem nada de bom para escolher), é um tabu, associado aos alienados ou aos anarquistas.

As pessoas querem acreditar que o país, um dia, “irá para frente”. Perder a esperança no futuro glorioso do Brasil é heresia social, horror dos patriotas, sinal infalível da derrota moral e da ignorância. Quando escreveu “Brasil, o país do futuro”, o europeu Stefan Zweig desviou-se de suas temáticas preferidas para relatar suas impressões sobre o nosso país, tamanho fora o seu deslumbre; para ele, os brasileiros obteriam um papel central no desenvolvimento mundial, em algumas décadas, tal era a sua propensão para o sucesso. Zweig suicidou-se, pouco tempo depois, e não pôde avaliar as proporções do seu equívoco. Não o culpo, no entanto. Hoje, decerto ele teria outra idéia das coisas que visse; os brasileiros, esses sim, mantêm-se iludidos e contentes em viver no Brasil, onde abunda o carnaval, a bunda e o futebol.

Se, como se sabe, todos os candidatos prometem melhorias em todas as áreas em que se sabe haver déficit, acreditar neles seria o mesmo que considerá-los todos ótimos e enormemente competentes. Mas, nós sabemos, eles não o são. Então, talvez nos reste avaliá-los não pelas suas promessas de campanha, mas pela ideologia de seus partidos. Tentemos isso, porém, e veremos que não há a menor coerência entre propostas partidárias e metodologia de governo. As ações políticas já não são baseadas em ideologias, mas em interesses circunstanciais. Ora, o que podemos fazer é escolher nossos candidatos pela competência que pareçam demonstrar. Para tanto, temos duas opções: ou acompanhamos a vida política do sujeito, o que resultará em total perda de tempo, ou o julguemos pelas feições do rosto.

Se, contudo, não pudermos avaliá-lo segundo tais conceitos, escutemos nas ruas as músicas de campanha e votemos naquela que não for de tão mau-gosto. Se, ainda, nós pensarmos que todas as músicas são ruins, ou que todas são igualmente boas, podemos votar naqueles que tiverem pago mais pessoas para hastear bandeiras nas esquinas, o que, eles devem pensar, representa grande mérito político e sem dúvida nos daria indícios de sua competência inata. Se, afinal de contas, nós não prestamos atenção nas bandeiras, vejamos o logotipo dos partidos e a legenda de cada um, decidindo-nos pela cor mais jeitosa, ou pelo nosso número da sorte. Não importa o que façamos, o país quer que façamos uma escolha. Só não vale votar nulo: só os alienados fazem isso.

Perdoe-me. Às vezes, simplesmente não consigo evitar o sarcasmo.
Tenho que admitir, de todo modo, que ter esperanças no futuro brilhante do Brasil é atitude mais cômoda do que se tornar um pessimista, e que os pessimistas, em geral, são menos felizes. Afinal, não saberia dizer qual o melhor caminho a se tomar com relação às eleições. O que é certo é que as coisas têm sido duras para a humanidade desde que ela começou, e não há razões para se acreditar numa mudança drástica – o que só não se aplica aos comunistas. O fato é que, bastando o Estado dizer, o povo se enfileira e segue estupidamente às urnas, participando da fraude mais bem estruturada da América Latina. Os brasileiros são feitos de palhaço. Vá votar com um nariz vermelho.

Agora, passemos para o segundo tópico: o horóscopo.
Até mesmo nos mais respeitáveis meios de comunicação, pode-se encontrar quem manifeste opiniões baseando-se nos preceitos do zodíaco; o que você pensa disso? Por acaso, você acredita que a gravidade dos planetas tem alguma influência sobre o desenrolar da sua vida? Se sim, por quê? Alguma vez você já teve alguma impressão própria de que os planetas guiavam a sua vida? Você teve algum indício disso pessoalmente? Afora as coincidências que as pessoas acumulam na memória para defender suas crendices, nada indica que o ser humano tenha seus pensamentos, atos e humores orientados pelos astros. Não há razão nenhuma para se induzir uma idéia dessas. Se você acredita nisso, é por duas razões: primeiro, porque você leu em algum lugar ou alguém lhe disse; segundo, porque você quer acreditar. De modo geral, você acredita porque quer saber quem você é, para se sentir seguro, e conhecer as características do seu signo, o que o poupa do trabalho da auto-descoberta, fornecendo um perfil pronto no qual você tentará se enquadrar.

Com pouco esforço, você irá decorar a personalidade-padrão do seu signo e irá convencer-se de que ela é perfeitamente compatível com suas propensões naturais. É enormemente mais provável que a alma humana não seja enquadrada em padrões tão pobres e limitantes quanto uma seqüência de doze quadros místicos, inventados há mais de dois milênios por astrólogos que acreditavam que a terra era chata e que os planetas consistiam em deuses luminosos. Mas a alusão a esses fatos, é claro, lhe deve ser incômoda e ofensiva. Paremos por aqui.

É evidente que a humanidade, em pleno século XXI, continua tão imatura quanto em seus primeiros dias. Se a evolução das espécies constitui-se em uma adaptação ao meio, e não em um aperfeiçoamento das virtudes, como se pensava antigamente, assim também é com a evolução da civilização: ela muda, se adapta aos tempos, mas não se torna melhor a cada século – apenas se transforma. As tolices de milênios atrás ainda são praticadas pelas pessoas mais inteligentes de nosso tempo. Nas palavras de Millôr Fernandes, a mentira passe a ser considerada, depois de um ano, como “apenas uma outra faceta da verdade. Se persistir, dentro de dez anos será um rapto de imaginação da pessoa que a pronunciou. Um século depois já ninguém mais se lembrará de quem disse a mentira e ela será parte fundamental da sabedoria popular, se transformará em fantasia, em canto, em ode, em épico, em conceito geral de eternidade filosófica.”

Portanto, não tenhamos vergonha de ir votar no ladrão mais respeitável, nem de consultar o horóscopo para nos sentirmos menos infelizes; bastaria que, como o nome de nossa espécie sugere (homo sapiens sapiens = homem que sabe que sabe), nós tivéssemos consciência do que fazemos.

Tirei daqui.

Um comentário:

Gabriel disse...

Olha, achei o texto muito cagação de moral pessimista pintada de esclarecimento acadêmico barato. Parece que o autor utilizou-se do voto nulo não porque estava no direito de fazê-lo, afinal de contas sua visão "aberta" mas estreita encherga a política como algo a ser somente repudiado. Claro, ignorando a política ela também te ignora e, embora a pessoa não participe efetivamente do ato do voto, ou outros tipos de atos políticos que não apenas este, é muito mais confortável, como no caso do autor, dizer para todo mundo depois: Bem feito votou no fulano e se fudeu! Isso pra mim e esconder-se atrás do próprio voto Nulo. Política não é assim que funciona. Óbvio, não vamos ser ovelhinhas e cair no conto do vigário mas, também ficar criticando de maneira maniqueista para mim não é válido.
Teria que pautar mais coisas para esclarecer melhor o meu ponto de vista, coisa que não dá pra fazer neste espaço então talvez eu escreva sobre isto nas férias..
Abração Valter

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