8 de nov de 2008

E daí? (II)

Após tratar da questão de um negro alcançar a presidência dos EUA pela primeira vez (e não quero desfazer esse fato, apenas quis relativizá-lo com relação à toda esperança colocada nisso), vamos tratar da interrupção dos republicanos no poder, e a suposta melhora que isso trará para o país e o mundo.

Uma vez, assisti uma entrevista com a Luciana Genro em que ela falava da "americanalização" da política brasileira, ao citar a ilusão de se ter o PT no governo federal. Dizia ela que, nos EUA, dois grandes partidos se revezam no poder, ambos servindo aos mesmos interesses, com poucas diferenças básicas entre eles. Isso daria uma ilusão de democracia, já que haveria um sentimento de mudança a cada troca de partido. Porém, no frigir dos ovos, não haveria grandes mudanças estruturais no país.

Na maioria das opiniões políticas a respeito da última eleição norte-americana à presidência, sempre aparece o discurso de que a eleição de um democrata significará uma grande mudança nos EUA. O próprio slogan da campanha de Obama dizia isso ("We can change"), o que mostra bem o imaginário da maior parte das opiniões sobre a polarização política nos EUA. Um exemplo que sempre é dado é que o novo presidente retirará as tropas norte-americanas imediatamente do Iraque. Porém, Obama nem assumiu ainda e já disse que não será bem assim, que talvez tenha que retirar as tropas aos poucos - se retirar. No fundo, o mesmo discurso do seu antecessor, o Bush, e de seu adversário, McCain. Isso sem contar a sua política econômica, que vai se voltar para conter a crise, mas nunca em tentar mudar estruturalmente as engrenagens que movem a economia do país - aliás, é importante lembrar que o pacotão de 700 milhões de dólares que o Bush aprovou recebeu grandes críticas dos republicanos, e só saiu do papel graças ao lobby democrata no congresso.

Em suma, existem diferenças entre republicanos e democratas, mas elas se limitam a um certo ponto dentro de uma grande área em comum: uma área neoliberal, belicista, anticomunista (ou melhor, anti qualquer coisa que não seja do pensamento norte-americano), protecionista e intervencionista que existe há, pelo menos, oitenta anos. Por isso, a eleição de um democrata ou de um republicano pode mudar alguma coisa, mas não tanto quanto parece.

Isso, aliado ao que já foi exposto na outra postagem, serve para relativizar um pouco a euforia que a eleição de um negro democrata causou no mundo. A eleição de Barack Obama tem relevância sim - inclusive relevância histórica -, mas é preciso tentar enxergá-la da forma mais racional possível.

5 comentários:

Débora Vogt disse...

Sim, é só lembrar da posse do Lula em 2002. Milhares de pessoas foram lá, choraram e eu mesmo fiquei feliz. É claro que racionalmente, empiricamente, nada vai mudar. Agora, ninguém vive só de racionalismos, as pessoas precisam de esperança, necessitam acreditar que dias melhores virão. Talvez eu seja otimista demais, não sei, mas creio que pelo menos, para os negros, algo mudou.É claro que a maioria deles continuará sem educação de qualidade, vivendo na periferia e sem muita perspectiva. No entanto, é como se existisse um ciclo que foi quebrado. Infelizmente não para todos, mas é como se alguém gritasse "ainda há esperança".

Rodrigo Cardia disse...

Sinto que o Obama, por carregar tamanha esperança de mudança assim como o Lula aqui no Brasil (guardadas as proporções dos problemas, é claro), pode vir a se tornar uma decepção tão grande quanto o Lula para aqueles que esperam mudanças radicais.
E enquanto o sistema eleitoral dos EUA for como é - eleição presidencial indireta e em só um turno - dificilmente terá fim o bipartidarismo nos EUA. Pois haviam outros candidatos, mas na prática há apenas dois partidos muito parecidos entre si (o que faz muita gente dizer, com certa dose de razão, que os EUA têm um regime de partido único aparentemente bipartidário), e quem deseja mudança acaba votando no que acha menos pior entre democratas e republicanos: um "voto útil".
Não que eleição em dois turnos significasse mudança imediata, mas pelo menos haveria a chance de um outro partido chegar à presidência.

Leo disse...

E como diz aquele slogan do PT:
"Deixa o homi trabalhar!" :)

André disse...

Obama venceu porque o povo cansou das trapalhadas do Bush. Simples assim. Como ele é democrata, passa a imagem de ser o oposto.

Thiago F.B disse...

Qual esperança de "Mudanças Milagrosas" são esperanças tolas!!!
Definitivamente isso vende bem...
Mas não condiz com a realidade em qualquer parte do mundo!!!

Mas a esperança faz parte do negócio e é ela que viabiliza a tal de "democracia" e etc...

Enfim, mundanças sempre acontecem em casos como este, o que nos resta é torcer para que de fato elas sejam maiores do que de pronto parecem realmente ser (do ponto de vista pessimista e por que não dizer, realista da coisa).

Boa sorte pro Obama e pra nós nisso tudo...

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