7 de dez de 2007

Silêncio absoluto

Ediomar foi ao cinema. Tinha um dia de férias pela frente e queria ver uma comédia, nada melhor para o derradeiro dia de descanso. Escolheu o filme, o local e a sessão; seria no primeiro horário da tarde, logo após o almoço. E lá foi Ediomar, ansioso por mais um filme.

Chegou ao cinema e executou o velho ritual de sempre: comprou o ingresso (ia sempre sozinho) e o refrigerante (não gostava de pipoca), depois dirigiu-se diretamente até a poltrona mais ao centro possível. Nesse caso, era mesmo a cadeira mais central, porque além dele só havia mais uma pessoa sentada na sala. Ainda não haviam ligado o projetor e o silêncio ali imperava. Gostou do que via porque não suportava cinema cheio; para ele, quanto menos gente, melhor. Assim, diminuía a probabilidade de um celular tocar no meio do filme ou de algum chato de plantão sentar a seu lado para dizer "olha só, agora vem a parte boa".

Já devidamente acomodado no seu lugar, Ediomar foi sendo acometido por uma sensação estranha e logo percebeu o que era: havia, naquela sala de cinema, um silêncio penetrante. Desde que chegara ali não havia barulho, mas agora estava percebendo isso mais claramente. A menina que lhe fazia companhia ali não fazia barulho, e nenhum decibel podia ser ouvido. Ao perceber o silêncio, a primeira sensação que teve foi de incômodo. Afinal, como todo morador de uma grande cidade, Ediomar estava mais do que acostumado ao ritmo frenético e constante da sua metrópole, em que nem de madrugada fica-se livre de barulho. Lembrou imediatamente da noite anterior, quando um caminhão de lixo passou na frente da sua casa, em plena madrugada, fazendo um barulhão e acordando meio mundo. Agora, depois de não sabia quanto tempo, se encontrava ali, sem barulho algum, sem nada pra escutar. E percebeu, atônito, que não sabia o que fazer com aquilo.

O primeiro pensamento que passou pela sua cabeça foi o de fazer algum barulho e quebrar aquele incômodo silêncio. Depois pensou melhor e quis deixar essa honra ao destino, limitando-se apenas a assistir o espetáculo que aquela ausência de som lhe provocava. O que decidiu fazer, logo em seguida, foi algo que não fazia há tempos, nem lembrava há quanto: passou a sentir.

O primeiro sentimento que lhe tomou o corpo foi uma grande nostalgia de quando era criança quando, antes de dormir, sua mãe beijava-lhe o rosto e lhe acariciava a face, dando-lhe um boa noite carinhoso. Logo após essa rotina ela desligava a luz do quarto e o pequeno Ediomar ficava ali, no escuro e no silêncio, pensando em como queria ser logo um adulto e poder fazer o que quisesse. A criança pensava como deveria ser bom ser grande, ter o seu próprio dinheiro, trabalhar, enfim, viver como mamãe e papai viviam.

O pensamento de Ediomar retornou ao cinema. Percebeu que havia crescido e, naquela sala de cinema, no mesmo silêncio e escuridão de quando era criança, mas separados por anos dos daquele quarto em que o pequeno Ediomar dormia, pensou em como queria três coisas agora: novamente ganhar um boa noite carinhoso, ao ir dormir naquela noite; ficar mais vezes no silêncio absoluto, pensando na vida; e voltar a ser criança. De repente, uma luz invadiu a tela do cinema e o barulho retornou àquela sala. Em breve os trailers começariam.

Saiu do cinema sem assistir o filme, em busca de silêncio.

2 comentários:

luciano disse...

De certo ele foi à fármácia, comprar tampões de ouvido.

Ana disse...

Eu te amo!!!

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