15 de dez de 2006

A revolução não será televisionada

Graças à maior parte da imprensa brasileira, quase ninguém está sabendo do que se passa atualmente em Oaxaca, no México. Desde maio, quando milhares de pessoas saíram às ruas para apoiar as reivindicações de aumento salarial dos professores, passando pela duvidosa eleição para presidente do México e chegando até o mês de dezembro, tumultos sistemáticos vêm tomando conta do cotidiano local. Porém, quase nada (às vezes nada mesmo) saiu até agora na imprensa do Brasil.

Para entender o que acontece no México atualmente, é preciso voltar um pouco no tempo e enxergar o contexto atual daquele país. A princípio, tudo começou em maio, quando estourou uma greve de professores em Oaxaca. Depois, a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO), formada por uma grande parcela da população para enfrentar o Estado mexicano, passou a defender a causa dos professores. Ela também iniciou forte apoio à eleição do candidato da esquerda, Andrés Manuel López Obrador, aparentemente derrotado nas eleições de junho. Essa eleição teve como vencedor Felipe Calderón, da direita, por uma diferença de apenas 0,58%, o que gerou especulações de fraude eleitoral. Obrador criou um governo paralelo, com ministros e reuniões próprios e independentes do governo eleito.

Com essa situação o governo de Calderón, que assumiu em dezembro e que é o sucessor do ex-presidente Vicente Fox, perdeu muita credibilidade - e legitimidade - perante a população. A APPO se aproveitou da situação e conseguiu reunir milhares de pessoas para fazer megamarchas por toda Oaxaca, tomando cidades, edifícios públicos, fazendo marchas e barricadas nas ruas da capital. Talvez a maior conquista até agora tenha sido a tomada da sede de uma transmissora do canal Televisa, tão hegemônico para o México quanto o é a Rede Globo para nós.

Essa situação gerou um contra-ataque por parte do governo: Vicente Fox exigiu que a Polícia Federal Preventiva (PFP) usasse de todos os meios para conter os tumultos. É como se hoje Oaxaca estivesse em estado de exceção, no qual as garantias individuais são postas de lado para o controle da população. Dessa maneira, a situação lá é, no mínimo, caótica. São enfrentamentos quase diários pelas ruas, em um clima de verdadeira guerra civil, entre populares e a polícia.

Mas nada disso aparece para nós. Nossa imprensa seletiva faz o favor de deixar bem distante dos brasileiros qualquer notícia que avente que existe a possibilidade de mudança no status quo. Porque o que acontece no México atualmente é muito claro: tem-se uma situação em que não há legitimidade popular do presidente, denúncias de fraude eleitoral e um governo paralelo que em algumas regiões goza de muito mais popularidade do que o governo oficial. Só que tudo isso só está acontecendo por conta da mobilização popular, justamente o que deve ser afastado do pensamento do brasileiro. Sim, porque no Brasil paga-se muito imposto, não se tem acesso a quase nenhum serviço público de qualidade e sustenta-se políticos corruptos com salários astronômicos, mas isso parece não irritar suficientemente a população para que ela exija mudanças. Uma das razões pode ser encontrada na nossa imprensa.

Se alguém duvida que a situação no México esteja tão feia assim para não passar na nossa televisão - eu cheguei a duvidar -, acompanhe aqui boletins diários e aqui e aqui duas mostras dos enfrentamentos entre polícia e povo.

2 comentários:

Leo disse...

Muito legal o texto... deviam fazer o mesmo nesse país e dar uma camaçada de pau nesses políticos ladrões, que aprovam 91% de aumento de salário - que jah era uma fortuna!

Kleiton disse...

Recomendo esse texto do "Le Monde Diplomatique" Brasl, pra aprofundar o assunto:

http://diplo.uol.com.br/2006-11,a1447

Abraço

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