23 de jun de 2009

Meio e fim

Todos nós somos seres históricos. Isso quer dizer que nossos atos são influenciados pela História e a influenciamos por meio dos nossos atos. Somos, também, limitados por ela (uma pessoa da Idade Média não dizia que avistava OVNIS, nós não falamos que vimos um dragão, etc.). Pois bem, podemos dizer que somos meio e fim para a História. Por meio eu quero dizer que é pela gente – e por nossos comportamentos, costumes, usos, linguagem, etc. – que se pode estudar como é (ou foi) a nossa época. Sabemos, por exemplo, que a década de 1980 foi de extremo mau gosto no quesito moda – na verdade, no quesito TUDO – por causa dos modelitos das bandas e atores da época. De certa forma, somos um meio para algo – nesse meu exemplo, um estudo tosco de História da Moda. Já por fim refiro-me ao fato de que somos isso que somos e ponto final – aí entra a limitação histórica à qual me referi anteriormente. Utilizando o exemplo dos anos 1980 novamente, as pessoas daquela época estavam limitadas pela moda da época; vestir uma camisa de flanela, por exemplo, era coisa de pobre, o que anos mais tarde, no início da década de 1990, seria a coisa mais fashion do universo. Logo, quem usava camisa de flanela não o fazia para ser fashion, mas por necessidade (ou seja, até esse comportamento aparentemente insignificante sofria as pressões do seu tempo).

Meio e fim já estão definidos por ora, ok. Agora, vamos para uma constatação mais prática: até que ponto certas obras podem ser consideradas como críticas do seu tempo, ou apenas como uma prova de que em determinada época se produziu tal coisa? Deixem-me explicar melhor, e com um exemplo. No Cinema, nos últimos dois anos, foram lançados dois filmes que sofreram duras críticas por serem porta-vozes de um determinado pensamento (o de que bandido bom é bandido morto e que nesses casos tudo é permitido para se acabar com o crime) e, ao mesmo tempo, elogios rasgados sobre como os dois eram críticos a – adivinhem – esse mesmo tipo de pensamento. Estou falando de O Cavaleiro das Trevas e Tropa de Elite.

Tirando a história e o gênero diferentes, esses dois filmes possuem pelo menos uma grande semelhança: apresentam uma cidade corrupta e dominada pelo medo, com pessoas muito más como antagonistas, e com um herói (anti-herói?) que, em nome da "ordem", se autoriza a fazer o que quer que seja para conter os seus inimigos – e é autorizado tanto pelas pessoas de bem de dentro do filme quanto pelas pessoas que o estão assistindo. E agora? Seriam os dois filmes exemplos de como está configurada a nossa sociedade, que de tanto medo parece hoje autorizar qualquer coisa em nome de uma determinada "ordem" – até mesmo a perda de liberdades individuais, vide o caso dos Estados Unidos na era Bush filho – e, portanto, fim, ou obras críticas, que tentam denunciar exatamente esse pensamento teoricamente ilógico de autorizar alguém para fazer qualquer coisa em nome de um bem maior – ou seja, um meio para a crítica à nossa sociedade?

Eu, particularmente, acredito na segunda opção – numa próxima postagem eu coloco meus motivos para acreditar nisso. E vocês, o que acham?

Um comentário:

Patrícia disse...

Correndo o risco de ser taxada como aquela que fica em cima do muro, acho que as duas opções são corretas. Ambos os filmes refletem os vários lados de uma sociedade, na qual algumas pessoas acreditam que tudo é válido na luta contra o inimigo (seja ele interno ou externo) e, ao mesmo tempo, critica esse pensamento e essa lógica que, segundo essa perspectiva, sustenta a continuidade da estupidez humana. Sei lá..não sei se é mérito enxergar as coisas assim, elevando tudo a um grau de complexidade tal que nos impede de afirmar se algo é certo ou errado, se um filme, como no teu exemplo,reflete a sociedade ou a critica. Só sei que assitindo Tropa de Elite, eu, que teoricamente tenho uma posição bem definida sobre o assunto em pauta (segurança pública, violência, criminalidade, etc), tive momentos nos quais entendi as reações e posições daqueles que legitimam o uso da força para vencer uma "guerra" que parece só crescer.
Vou ter que encerrar meu comentário...o Maxi Lopez acabou de perder um gol inacreditável...pqp!

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