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26 de nov. de 2009

Criacionismo e ateísmo, por Ricky Gervais

Ricky Gervais é um homem multitarefas do showbizz inglês. Talvez a obra que mais o destacou tenha sido a série original The Office. Ateu, aqui, em um show de stand-up comedy, ele fala um pouco sobre o criacionismo.




Na sequência, uma grande declaração sobre o fato de ele ser ateu. Faço minhas as suas palavras.

18 de nov. de 2009

Deus é fiel

Texto que saiu na Folha de São Paulo do dia 12/11:

Deus é fiel
CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS

EIS UMA frase que vemos, atualmente, estampada por toda a parte: dos gigantescos outdoors aos vidros dos automóveis, sem falar dos templos, das traseiras de caminhões e das faixas ostentadas nas passeatas pop-evangélicas.
Num outro momento e lugar, esse fato talvez não merecesse maiores considerações. Afinal, fanatismo religioso e proselitismo exagerado sempre houve neste "mundo de meu Deus", e por sua causa já muito se matou e se morreu.
Todavia, não podemos esquecer que é de um "ungido" Brasil pré-eleitoral que estamos falando, ele mesmo situado numa América Latina "consagrada" a líderes messiânicos que se creem mais do que deuses.
E, se apenas alguns deles ousam ser tão blasfemos a ponto de se compararem ao próprio Cristo, todos eles, sem exceção, desejam ver os seus mandatos religiosamente prorrogados "até o final dos tempos". Ou, se tal não for possível, devido às manobras da "maligna" oposição, esperam ao menos passar a faixa presidencial para o discípulo ou a discípula mais amada, na esperança de que, em breve, possam voltar -ressuscitados- ao poder que idolatram de forma luciferina.
Cabe-nos, portanto, investigar, ainda que brevemente, o que diabos significa dizer que Deus é fiel. Em primeiro lugar, não deixa de ser notável que, num mundo onde a infidelidade sempre foi a regra dominante (se é que desejamos ser fiéis à verdade), se procure atribuir a Deus, com especial relevância, não a qualidade de ser bondoso ou justo, mas a de ser fiel. E isso precisamente numa época em que reina a publicidade -a "sacerdotisa-mor" da mentira, a "deusa-mãe" do engodo- e na qual amigo trai amigo, os sacerdotes traem os seus rebanhos, os políticos os seus eleitores, os comerciantes os seus clientes etc.
Não seria isso, talvez, algum tipo de "projeção compensadora", semelhante às discutidas por Freud, Marx, Nietzsche e Feuerbach, que visaria, ao jogar toda a luz sobre a divina perfeição, ocultar nas sombras a podridão humana?
Por outro lado, quando dizemos que Deus é fiel -supondo que saibamos, na teoria e na prática, o que é fidelidade-, na mesma hora nos vem à mente uma questão: a quem, nesse caso, seria Ele fiel?
Aos católicos que trucidaram protestantes ou aos protestantes que trucidaram católicos? Aos nazistas que assassinaram judeus nos campos de concentração ou aos israelenses que supliciam palestinos nos campos de refugiados? Aos muçulmanos que mataram "ocidentais" no 11 de Setembro ou aos "ocidentais" que massacram muçulmanos no Iraque e no Afeganistão? A Stálin, Pol Pot e Mao, que eliminaram dissidentes como matamos mosquitos, ou a Hitler, Mussolini e Franco, com suas terríveis atrocidades? Aos corintianos que esfolam palmeirenses (e vice-versa) ou aos cronistas esportivos que, por maldade ou ignorância, estimulam a violência nos estádios?
Infelizmente, se examinarmos as coisas como de fato se apresentam -tendo a história como suprema corte, como dizia Hegel- e não com os benevolentes olhos do "outro mundo", forçoso será concluir que o Pai Eterno se mostra bem mais fiel aos que esbanjam dinheiro nos shoppings de luxo do que às crianças que se acabam nos semáforos da Pauliceia; aos que erguem as odiosas barreiras transnacionais do que aos migrantes de todas as latitudes que não se cansam de tentar atravessá-las; aos malandros que vendem a salvação neste ou n'outro mundo do que aos crédulos que tolamente a compram; enfim, aos malvados, desonestos e egoístas do que aos bons, corretos e solidários.
Eu, que não sou teólogo, ouso crer, piedosamente, que Deus -se é que Ele existe- não é fiel a mortal algum, mas unicamente a Si mesmo, à Sua inextrincável complexidade, à Sua silenciosa incompreensibilidade, à Sua incognoscível natureza (incognoscível, quem sabe, até para Ele).
O que nos resta, a nós mortais, se formos lúcidos, é o enfrentamento cotidiano da terrível solidão desses espaços infinitos, que tanto assustavam Pascal, e dos quais provavelmente não virá resposta alguma, sobretudo se as perguntas forem feitas por pseudossacerdotes ou por políticos de ego inflado.
O que precisamos, no fim das contas, é ter coragem para lutar contra a tendência universal da humanidade a se curvar e a obedecer, que é muitíssimo maior do que qualquer eventual vontade de autonomia. Por causa dessa tendência, uns poucos "lobos" espertalhões são capazes de pastorear rebanhos gigantescos de "carneirinhos humanos", que se prostram agradecidos ao jugo do chicote, sempre contentes e -claro- fidelíssimos.

CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS , 49, médico, psicoterapeuta e neurocientista, é escritor, artista plástico, mestre em artes pela ECA-USP e doutor em linguística pela Universidade de Toulouse-Le Mirail (França).

23 de out. de 2009

Criacionistas, agora eles estão vindo pegar suas crianças

Imagine que você é um professor de História Romana ou de Latim, ansioso para transmitir o seu entusiasmo pela Antiguidade Clássica – pelas elegias de Ovídio e pelas odes de Horácio, pela vigorosa economia da gramática latina como exibida na oratória de Cícero, as belezas estratégicas das Guerras Púnicas, o gênio estratégico de Júlio César e os excessos voluptuosos dos últimos imperadores.

Este seria um grande empreendimento que tomaria muito tempo, concentração e dedicação. Ainda assim você encontraria o seu tempo continuamente prejudicado, a atenção da sua classe distraída, pelos latidos de uma matilha de ignoramuses (que como professor de latim você entenderia que seria o jeito certo de declinar ignorami) [1] que, com apoio político e especialmente financeiro, espalham aos quatro ventos que os romanos nunca existiram. Que nunca houve um Império Romano. Que o mundo inteiro veio a existir apenas um pouco antes do tempo de que temos memória. Que o espanhol, o italiano, o francês, o português, o catalão, o ocittânico e o romanche, todas essas línguas e os dialetos que as constituem surgiram espontânea e separadamente, e que nada devem a um ancestral chamado latim.

Ao invés de devotar toda a sua atenção para a nobre vocação de ser um erudito e professor, você é obrigado a investir parte do seu tempo e energia para a retrógrada defesa do pressuposto de que os romanos realmente existiram: uma defesa contra a exibição de um preconceito ignóbil que poderia fazê-lo chorar caso você não estivesse tão ocupado lutando contra ele.

Se a minha analogia sobre o Professor de Latim lhe pareceu por demais irreal, aqui está um exemplo mais realista. Imagine-se um professor de história mais recente, e que as suas lições sobre a Europa do Século XX são boicotadas, impedidas ou interrompidas de outra forma por grupos bem organizados e bem financiados assim como grupos políticos musculosos de negadores do holocausto. Diferente dos meus improváveis negadores do Império Romano, os negadores do Holocausto realmente existem. Eles se expõem razoavelmente, são superficialmente preparados e adeptos do aprendizado aparente[2]. Eles recebem apoio do presidente de pelo menos um grande estado atual, e contam com o apoio de pelo menos um bispo da Igreja Católica. Imagine que, como professor de História da Europa, você é continuamente encarado com exigências beligerantes tais como a de “ensinar a controvérsia” e a dar “tempos iguais” para a “teoria alternativa” de que o Holocausto nunca aconteceu e que foi inventado por um bando de farsários sionistas.

Os adeptos da moda do relativismo intelectual seguem o rastro afirmando que não existe verdade absoluta: que acreditar que o Holocausto aconteceu ou não é uma questão de crença pessoal, que ambos os pontos de vista são igualmente válidos e, portanto, devem ser igualmente “respeitados”.

Este é apenas o início de mais um grande texto de Richard Dawkins, sobre o mesmo assunto de duas postagens atrás. É grande, mas vale muito a pena ler tudo.

A Origem da Estupidez

2009 está sendo comemorado como o "ano de Darwin", graças aos 200 anos de seu nascimento e aos 150 anos da publicação de "A Origem das Espécies", talvez o livro que tenha impactado de maneira mais definitiva o pensamento humano a partir do século XIX. Marx e Engels, por exemplo, que homenagearam Darwin em suas obras ("O Capital" e "Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem", respectivamente), impactaram o mundo também, particularmente durante o século XX. Sigmund Freud, em "A Interpretação dos Sonhos", também causou uma revolução de ordem mundial ao promover suas ideias que fundariam a psicologia analítica. Porém, se ainda hoje acompanhamos discussões acerca de temas/obras de Marx/Engels e Freud, nenhum tema ou autor causa mais discussão - e tem mais potencial "revolucionário", eu diria - do que os que "A Origem das Espécies" implica.

Nos EUA, uma guerra nada silenciosa está sendo travada há um bom tempo entre ateus e criacionistas pelo que pode ser ensinado nas escolas norteamericanas, particularmente nas aulas de História e Biologia. Resumidamente, os ateus - e cientistas em geral - querem que apenas a Teoria da Evolução seja ensinada nas escolas, juntamente com a Pré-História - ambas ancoradas por métodos científicos, os mesmos utilizados na produção das matérias dadas em Matemática, Química, Física, etc. Já os criacionistas exigem que seja ensinado o Criacionismo, vertente NADA científica que acredita que Deus criou o universo em sete dias e há cerca de seis mil anos (mais precisamente, no ano de 4004 a.C.).

Veja bem, a questão não é ensinar o Criacionismo nas aulas de Religião - o que deveria ser o seu lugar (na minha opinião, nem deveria ser ali, mas...). É ensiná-lo nas aulas de Biologia e História, subvertendo completamente teorias científicas e fatos comprovados cientificamente para que UMA das MUITAS versões religiosas sobre a criação do mundo seja ensinada.

Talvez não sintamos tanto isso aqui no Brasil, país eminentemente católico e de uma passividade e tolerância religiosas que beiram a preguiça - no melhor dos sentidos, certo? Errado. Em 2004, a governadora do Rio de Janeiro, Rosinha Garotinho, tentou implementar aulas de religião criacionistas nas escolas da rede pública do estado, mas o projeto não vingou (graças a Deus?). Mas em várias escolas particulares, as coisas estão piores. Várias escolas no Brasil já fazem isso, ou no mínimo ensinam a Teoria da Evolução E o Criacionismo, lado a lado, nas aulas de Biologia. E não são escolas quaisquer; tratam-se de escolas do calibre do Colégio Presbiteriano Mackenzie e do Colégio Batista Brasileiro, ambas de São Paulo.

A postagem já está ficando longa e outro dia eu escrevo mais sobre as implicações que uma barbaridade dessa tem para a humanidade em geral, apesar de ter certeza que os poucos leitores deste blog já devem saber. O que eu queria falar realmente é que, no dia 19 de novembro, criacionistas distribuirão cópias de "A Origem das Espécies" nos EUA com um prefácio de 50 páginas com bullshits religiosas. Saibam mais no vídeo a seguir e leia mais aqui:

“A autora do vídeo é uma romena chamada Cristina. Ela critica a iniciativa de Kirk Cameron e Ray Comfort de distribuir exemplares de “A Origem das Espécies”, de Darwin, com uma introdução de 50 páginas, expondo a visão dos criacionistas sobre o assunto”.


4 de abr. de 2008

Religião não praticante (IV)

Ao ler o comentário do Rodrigo na última postagem, tive vontade de fazer um adendo. Ia escrever um comentário, mas como ele ficou grande vai como uma postagem mesmo.

Em um trecho do seu comentário ele diz que "boa parte dos que se dizem católicos afirmam o serem para estar em sintonia com a 'maioria da população do país'". Concordo absolutamente, é o tal "Maria-vai-com-as-outras" que eu falei. Esse trecho do comentário dele é ótimo pois nos mostra um aparente paradoxo: se tu for ver, na verdade a maioria da população do país cria uma maioria (que é aquela que elas querem pertencer) que não existe (a de supostos católicos), mas que acaba existindo de forma teórica e que influencia a vontade da maioria em ter uma religião. Se ficou confuso, usarei um exemplo numa escala micro: se somos quatro pessoas numa sala (Eu Mesmo, João, Pedro e Paulo, para exemplificar) e eu acredito que os outros três são católicos, vou dizer que também sou católico para ficar em sintonia com eles. Se o Paulo não é católico de repente acredita que nós três somos, vai fazer o mesmo. Idem com Pedro e com João. Logo, seremos quatro não-católicos numa sala de quatro católicos.

Maluco, né?

3 de abr. de 2008

Religião não praticante (III)

Discutimos anteriormente uma condição essencial de pertencimento a uma religião e vimos, através de exemplos, que os católicos brasileiros não parecem seguir muito o código religioso do catolicismo. Hoje vamos tentar começar a entender o por quê desse abismo entre teoria e prática religiosa, de maneira muito resumida. Para isso, precisaremos voltar um pouco no tempo...

Em primeiro lugar, não sou tão ingênuo a ponto de acreditar que, por exemplo, na Idade Média as pessoas seguiam à risca TODOS os preceitos católicos. O caso é que as sociedades pré-Reforma (e algumas do período posterior também) eram muito mais regradas por preceitos religiosos do que somos hoje. Graças a uma combinação de fatores que envolve a Reforma e a ascensão do capitalismo, entre outros, a religião foi aos poucos deixando de regular todas as instâncias da vida social e tornando-se um elemento facultativo na vida das pessoas. O problema é que esse fenômeno de desassociação religiosa na sociedade se deu muito mais rapidamente do que outro fenômeno que deveria acompanhá-lo: o do desapego a uma religião ou, em outros termos, a desobrigatoriedade social de se ter uma religião X ou Y.

Explico: o tempo foi passando, os Estados-Nação foram tornando-se cada vez mais laicos – por uma série de motivos –, e com isso a influência da religião nas Leis e nos códigos sociais, muito grande antes, foi ficando mais fraca. Por outro lado, as pessoas começaram a se desinteressar pela religião institucionalizada na esfera íntima da vida social numa velocidade muito, mas muito menor. O resultado dessa equação torta é a situação que temos hoje: pessoas que acreditam em um Ser criador (visto que a necessidade de crer em algo além do nosso conhecimento não está nem um pouco próxima de sequer diminuir) que de certa forma se obrigam a uma filiação em alguma religião institucionalizada. Essa religião, por sua vez, tem o seu particular código religioso. O conflito entre o que cada um pensa (o seu “código moral”) e o que aquela religião manda (o código religioso) aparece então, e a pessoa prefere continuar considerando-se religiosa e não seguir todo o código religioso a simplesmente negar aquela religião (ou todas as religiões).

A época moderna e a sua sucessora (a pós-modernidade) também são responsáveis por essa transformação de pensamento em relação às religiões. Com a modernidade nós temos, entre outras coisas, a Reforma Protestante, a primeira bem-sucedida tentativa de duvidar de preceitos católicos depois de muito tempo. Isso serviu como um exemplo de que as pessoas “comuns” podiam interpretar as normas da Igreja do seu jeito, e foi o que de fato aconteceu, ao longo dos séculos que se seguiram.

Já à pós-modernidade pode ser atribuído algum crédito nesse processo graças à relativização, que alcançou todos os níveis possíveis, da Física a Religião. No mundo de hoje, tudo é relativo. Par o relativismo, o que eu penso é o certo e ponto final, visto que o mundo é o que eu vejo (bobagens de uma pseudo-física quântica, mas vá lá). Nesse sentido, seguir normas pré-estabelecidas há séculos ou milênios é um contra-senso; sou eu quem deve fazer meu caminho. Percebam que não estou afirmando que isso é certo ou errado; apenas estou mostrando que pensar assim E seguir uma religião é uma contradição em termos.

No Brasil, isso tudo se dá particularmente com o catolicismo, dada a nossa herança portuguesa. Por isso temos aqui cerca de três quartos de supostos católicos no país. Em um movimento “Maria-vai-com-as-outras” vicioso, as pessoas se obrigam e obrigam as outras a escolher uma religião (normalmente a católica, mas é bom lembrar que outras também são bem citadas, como a espírita, por exemplo). Essas mesmas pessoas, que se consideram tão “esclarecidas” (e aqui esse termo não poderia ser melhor, porque ele faz referência exatamente ao Iluminismo), são as mesmas que criticam ou tiram sarro das pessoas “crentes”. Ora, como vimos antes, teoricamente TODOS os religiosos são crentes, visto que têm que acreditar no que os mentores daquela igreja (bispos, pastores, padres, ministros) falam. De novo, percebam que eu não estou dizendo que não seja um absurdo seguir normas religiosas; estou tentando mostrar a contradição da maioria das pessoas que dizer ter uma religião e criticam aquelas que são carolas. Um ótimo exemplo a dar é o dízimo: fazendo parte de quase todas as religiões (mesmo aquelas que não o institucionalizaram costumam pedir “contribuições para ajudar o trabalho”), ele é normalmente associado no Brasil apenas às religiões evangélicas (Igreja Universal, Show da Fé, etc.). A maioria dos católicos acha um absurdo dar dinheiro àquele pastor da televisão que só fala "bobagens", mas esquece que o dízimo está estipulado também na Igreja Católica, e que no Brasil ele voltou a ser implantado pela CNBB na Igreja Católica após 1969. Como diz o ditado, pimenta nos olhos dos outros...

Dessa forma, estamos escolhendo nós mesmos, entre um código religioso, regras que nos convenham. Ora, fazer isso e ainda dizer que pertence a determinada religião é um absurdo, justamente pela questão da fé; em nenhuma religião está escrito que as regras (normalmente divinas) são facultativas e que devem ser julgadas por cada um, bem pelo contrário. Em todas temos punições severas para quem não as cumpre durante sua vida (Inferno para os católicos, punições em uma próxima vida para os espíritas, etc.). Se tu quer escolher no que acreditar, beleza. Crie seu próprio código e viva de acordo com ele, mas não diga que é religioso, porque ser religioso não é acreditar em um Deus, mas seguir uma religião.

Percebam que não estou entrando no mérito de que parte desse código religioso (ou todo ele) foi feito por pessoas, que escolheram seus critérios arbitrariamente, baseados por escolhas pessoais ou políticas. Afinal, se você é religioso e acredita realmente que esse código religioso não é divino, mas mundano, está entrando em uma contradição em termos. Argumentar que os padres são mundanos, que uma parte deles é pedófila, que o Papa é nazista, etc., não serve para se abster de cumprir as ordens divinas; afinal, os erros dos “funcionários” da Igreja não justificam os seus, visto que o código religioso deve ser atendido por todos – afinal, o castigo (Inferno) e a redenção (Céu) são para todos.

Não sou católico, muito menos religioso. Quando falo aqui de pecado, de Céu, etc., estou utilizando termos próprios da Igreja Católica, que fazem parte de um conjunto de normas que devem ser respeitadas por quem se diz dessa religião. Não estou defendendo que todos devam seguir os preceitos do catolicismo, mas o contrário; defendo que as pessoas parem de tomar uma postura hipócrita ao dizerem que são de determinada religião, mas não conseguem seguir nem os seus preceitos básicos, quanto mais TODOS eles – o que seria o ideal para um religioso de verdade. Se você duvida de algo na sua religião, logo você deixa de fazer parte dela. Afinal, a fé é o motor primordial de toda a crença religiosa, querendo ou não. Ao duvidarmos de algo que é baseado em fé, nos distanciamos daquela religião (seja nos atos ou nos pensamentos) e nos aproximamos de um ceticismo hipócrita, que tenta se esconder atrás de uma pseudosubjetividade travestida de crítica, típica da era pós-moderna.

Com isso, encerro mais uma parte dessa série. Não tenho muito mais a escrever sobre isso (acho), mas pelo menos de mais uma coisa eu quero tratar, e será no próximo “capítulo”: a questão da camisinha e da AIDS na concepção (trocadilho involuntário) da Igreja Católica.

28 de mar. de 2008

Religião não praticante (II)

Continuando a série que se iniciou ontem, veremos hoje algumas normas do código religioso da Igreja Católica e como elas NÃO são seguidas por quem as deveria seguir, os que dizem ser católicos.

Para a Igreja Católica – como para várias outras religiões – a castidade é algo a ser mantido até o casamento. Isso quer dizer que TODOS os católicos devem casar virgens. Depois de casado, o bom católico deve manter relações sexuais apenas com fins de procriação – teoricamente, “uma trepada e um nenê”, como diria Mano Changes. Portanto, é proibido o uso de camisinha ou qualquer outro método anticonceptivo. Se esse casto e obediente católico por acaso se arrepender da união matrimonial com sua esposa, não poderá, sob hipótese alguma, pedir divórcio, já que este é proibido.

Bem, acho que não preciso escrever muito para convencer vocês que NADA do parágrafo acima é seguido por grande parte dos religiosos – sempre com a desculpa de ser não praticante. Ora, como vamos ver mais à frente, “religioso não praticante” é uma contradição em termos. Enfim, para a maioria das pessoas o sexo é um ato corriqueiro, necessário e muito prazeroso, o que vai de encontro a absolutamente tudo o que o catolicismo prega. Os métodos anticonceptivos são amplamente utilizados e encorajados por quase todo mundo, não só por causa da gravidez, mas também pelas ameaças da AIDS e de outras doenças sexualmente transmissíveis (também veremos mais sobre isso posteriormente). Já o divórcio é visto com tanta naturalidade pelas pessoas que não vale nem a pena comentar, basta ver os índices de divórcios de casais católicos.

Já que estamos falando de proibições, vamos às regras mais conhecidas do catolicismo, os Dez Mandamentos e os Sete Pecados Capitais. Para quem não lembra, os mandamentos que Deus passou para as tábuas de pedra e entregou a Moisés são:

1 - Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas.
2 - Não invocar o Seu santo nome em vão.
3 - Guardar os domingos e festas.
4 - Honrar pai e mãe (e os outros legítimos superiores).
5 - Não matar (nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo).
6 - Não pecar contra a castidade (em palavras ou em obras).
7 - Não furtar (nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo).
8 - Não levantar falsos testemunhos (nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo)
9 - Não desejar a mulher do próximo.
10 - Não cobiçar as coisas alheias.


Como podemos ver, o único mandamento que pouca gente desobedece é o quinto – e talvez o sétimo também –, e mesmo assim pode-se argumentar que isso se deve ao fato de que existem leis para punir gravemente autor de tal ação. Quanto aos outros mandamentos, conheço inúmeros “católicos” que não cumprem NENHUM dos outros nove (ou oito). Veja bem que, partindo da idéia de obediência incondicional e irrestrita ao código religioso, mesmo que se desobedecesse apenas um já teríamos um pecador, enfim, um católico de meia tigela.

Entre os Pecados Capitais a coisa não é muito diferente. Vejamos a lista da Igreja Católica:

Vaidade;
Inveja;
Ira;
Preguiça;
Avareza;
Gula;
Luxúria.


Nossa, na verdade aqui fica pior. Todos esses pecados fazem, em maior ou menor grau, parte da vida de praticamente todos os católicos (talvez porque façam parte da natureza humana).

Tudo bem, a própria Bíblia admite que todos temos falhas e que iremos pecar uma hora ou outra. Porém, ela também fala no nosso arrependimento perante os pecados, e não em aceitação subjetiva das normas impostas por ela. Uma coisa é eu desejar a mulher do vizinho e me arrepender, me confessar, dizer pra mim mesmo “nunca mais vou fazer isso” e de fato não fazer. Outra coisa é dizer “sou católico não praticante”, desejar a mulher do próximo e pensar que essa norma é uma coisa muito antiga ou coisa que algum ser humano escreveu ou qualquer outra “auto-desculpa” para continuar no pecado. Ou seja, pecar não é o problema, mas sim dizer que eu ajo de determinada maneira (que é pecaminosa na minha religião) porque aquela determinada regra não se aplica a mim.

Depois de alguns exemplos práticos, estamos vendo que as pessoas parecem selecionar, entre as regras do código religioso, aquelas que mais lhes convém. Antes de encerrar por hoje é necessário lembrar que a questão do livre-arbítrio (que parece ser o caso dessa postagem) já foi largamente discutida dentro do catolicismo, tendo Santo Agostinho como expoente de maior destaque. Segundo a Igreja Católica, todo mundo tem o livre-arbítrio, ok. Mas, se tu usa o teu para desobedecer o que Deus disse, tu vai pro Inferno e ponto final. Portanto, ao duvidar das imposições religiosas estamos pecando e não somos verdadeiros cristãos.

Aguardem a terceira parte...

27 de mar. de 2008

Religião não praticante (I)

Antes de começar esse post, quero avisar que a minha intenção não é ofender ninguém. Afinal, religião é um assunto muito delicado, que mexe com fé e paixões e normalmente deixa as pessoas meio exaltadas. Aconselho a ler o que está abaixo com a mente aberta, sem pré-julgamentos. Depois, quero dizer que, quando comecei a escrever sobre o assunto, não esperava que tivesse tanto a dizer. Por isso, vou dividir a leitura em várias postagens (mais uma série para vocês), para torná-la mais interessante. Vou começar hoje falando sobre o que faz de uma pessoa uma religiosa e as contradições existentes na maioria dos brasileiros, que vivem dizendo que são de determinada religião, mas de forma “não praticante”. A maioria dos exemplos que dou aqui é oriunda do catolicismo, mas apenas porque teoricamente o Brasil tem 73,8% de católicos. Evidentemente, o grosso do texto aplica-se a todas as religiões.

O Brasil é considerado o país com o maior número de católicos do mundo. Pelo último censo do IBGE, 73,8% dos brasileiros declararam serem fiéis aos princípios do catolicismo. Muito bonito. Uma nação de católicos, de religiosos. Aproximadamente 140 milhões de pessoas. Lindo. Esses dados, vistos de longe, são realmente impressionantes. Porém, após uma análise mais aprofundada eles não se mostram tão seguros assim.

Antes de mais nada, existe uma questão filosófico-teológica aqui: o que deveria ser necessário, a priori, para um sujeito se considerar pertencente a uma religião? Ora, a primeira exigência que passa pela minha cabeça é a obediência às normas, regras, regulamentos e qualquer que seja o nome dado a um padrão estabelecido que dita o que é certo e o que é errado em uma religião – vamos chamá-lo de agora em diante de “código religioso”. Para mim, essa obediência deve ser incondicional e irrestrita; afinal, esse código religioso normalmente veio à Terra através de um escolhido ou iluminado divino ou do(s) próprio(s) deus(es). Logo, é infalível. E mais: visto que ter fé é acreditar sem ter provas ou evidências que comprovem aquilo em que se acredita, porque duvidar do código religioso, se nos é dito que sua origem é divina?

Isso posto, vamos a alguns fatos do cotidiano que mostram como nossa nação não é assim tão religiosa. Em primeiro lugar, as igrejas estão cada vez mais vazias. É obrigação de todo católico participar pelo menos da missa de domingo, assistir o sermão do padre, comungar com a comunidade e de repente até se confessar, se estiver precisando. A maioria dos católicos nem sabe como funciona uma missa e dentre os poucos que comparecem grande parte não o faz de maneira periódica. Tá, mas na Bíblia não está escrito assim, de modo claro, que a gente deva ir à igreja todos os domingos. Então eu dou esse argumento de lambuja pra quem ainda quer enxergar milhões de católicos no país, porque ele não vai fazer falta. Vamos nos ater ao que a Bíblia e o Papa (que, segundo o catecismo da Igreja Católica, é o “Bispo de Roma e sucessor de apóstolo Pedro, é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade da Igreja. É o vigário de Cristo, cabeça do colégio dos Bispos e pastor de toda a Igreja, sobre a qual, por instituição divina, tem poder pleno, supremo, imediato e universal” nos dizem e vamos avaliar se existe obediência incondicional e irrestrita ao código religioso do catolicismo.

Amanhã tem a segunda parte, não percam e não deixem de comentar – se quiserem.

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