6 de nov. de 2008

A propósito...

...[REC], o filme, vai finalmente estrear nos cinemas brasileiros no dia 14 de novembro. Não perca, vale muito a pena ver na tela grande esse grande terror. Caso queira ler a minha crítica, clique aqui.

E daí?

Então o Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos. Mas e daí? Bem, e daí que é o primeiro negro a conseguir esse feito na história daquele país, e significa a quebra de oito anos de hegemonia republicana. Sim, mas e daí?

A questão racial nos EUA é muito diferente da questão no Brasil. Aqui, temos um racismo polido, meio britânico, do qual quase temos orgulho. Lá, a coisa é bem mais punk - vide, por exemplo, a Ku Klux Kan, ainda hoje com mais de 3000 homens, e os tumultos de Los Angeles em 1992 (http://en.wikipedia.org/wiki/1992_Los_Angeles_riots). Portanto, a vitória de um negro para o cargo de presidente nos EUA pode ser comparada, guardadas as devidas proporções, com, digamos, a eleição de uma pessoa oriunda das classes populares no Brasil. Toda a expectativa em torno do que uma pessoa assim, tão "diferente" do padrão que até então vinha tomando o poder, faz com que pareça que basta a ela subir ao poder para instaurar a felicidade, a igualdade e a fraternidade.

E é exatamente nesse ponto que eu gostaria de tocar: da mesma forma que a eleição de um ex-metalúrgico pernambucano fez com que muita gente acreditasse que finalmente teríamos igualdade no Brasil, lá nos EUA (não só lá, mas enfim) acredita-se que Obama, por ser negro, filho de queniano, etc. e tal, vai acabar com a crise financeira internacional, mudar radicalmente a política externa belicista norte-americana e ajudar o mundo todo. Infelizmente, acredito que esses segundos ficarão tão desapontados quanto os primeiros ficaram.

Sim, porque se o Lula deixou os pobres menos pobres, deixou também os ricos muito, mas muito mais ricos, aumentando ainda mais a desigualdade social no país; além disso, durante o seu governo ele vem tomando várias atitudes que antes ele e seu partido abominavam. Por que ele faz isso? Porque ele é malvado? Porque ele é de origem humilde? Porque ele é nordestino? Não, é porque ele é um homem só, assim como Obama.

Infelizmente, quanto mais eu estudo História mais eu vejo que uma andorinha só realmente não faz verão. Não basta somente alguém chegar, cheio de vontade de mudar o status quo, para que as coisas mudem. É preciso haver mais, é preciso ter um conjunto de características, locais e globais, conjunturais e estruturais, que aqui vou didaticamente chamar de "Winds of change". Não basta, claro, haver somente o vento; porém, não basta somente o homem. Entretanto, parece que não é isso que pensa a imprensa internacional, que vê em um homem como Obama a figura que vai mudar tudo. Claro que, havendo esperança no imaginário das pessoas, pode haver alguma mudança. O problema é que não será nem um milésimo dessa mudança que vem sendo prevista pelos mais otimistas - e por outros nem tão otimistas assim.

Muito em parte, isso tem a ver com outro assunto relacionado, que voltarei a abordar amanhã: o fato de Obama ser do partido rival daquele que governa os Estados Unidos há quase oito anos. Afinal, se eles são rivais, isso quer dizer que devem ser praticamente opostos, não?

Tentaremos chegar a uma conclusão amanhã.

31 de out. de 2008

Pontos corridos

Quando o Campeonato Brasileiro começou a ser disputado em pontos corridos, em vez do antes tradicional os-oito-melhores-disputam-um-mata-mata, muito se falou. Alguns criticaram, outros apoiaram. Até hoje se fala muito se essa é realmente a melhor fórmula para um campeonato no Brasil.

Eu, particularmente, prefiro o modo antigo: as equipes se enfrentam em turno e returno e, após o término das partidas, as oito melhores vão para as quartas-de-final, até o campeão ser conhecido em dois jogos finais de parar o país. Porém, não dá para negar que, em 2008, estamos acompanhando o Campeonato Brasileiro mais equilibrado de todos; temos cinco equipes com chances reais de ser o campeão, isso a seis rodadas do término da competição. É claro que por esse motivo os entusiastas dos pontos corridos estão gritando Brasil afora: "Viu, eu sempre disse que esse era a melhor forma de disputa!".

Basta ver TODAS as outras edições para esmagar esse argumento. Desde que começou a ser disputado, o Brasileirão de pontos corridos tem dado mais sono do que emoção no torcedor, que tem que assistir, faltando umas dez rodadas para acabar o campeonato, dois times na faixa intermediária jogarem entre si por absolutamente nada, visto que não têm pontos suficientes para entrar na Libertadores, mas possuem pontos de sobra para já se garantir na primeira divisão. Tem a Sul-Americana, claro, mas ninguém dá muita bola para ela mesmo, o que mais vale é a disputa de cima e a de baixo da tabela. Esses mesmos dois times, se disputassem o Campeonato "Old School", ainda teriam chances de chegar pelo menos em oitavo, o que faria o jogo ter grande importância.

Outro exemplo de jogos no final do campeonato: veja os casos de Vitória, Goiás, Coritiba, Botafogo e Internacional em 2008. Os cinco times não têm mais chances de ganhar o Campeonato, nem sequer de tentar a Libertadores. Porém, já estão com a vaga na Sul-Americana praticamente garantida, o que faz com que o Brasileiro já tenha perdido a graça para eles. Isso faz muita diferença em um confronto contra um time lá de baixo (que precisa ganhar para escapar do rebaixamento) e um lá de cima (que quer vencer o campeonato). Temos então a disputa entre um time que quer alguma coisa contra outro desmotivado por estar no meio da tabela. Se fosse no modelo antigo, TODOS os times ainda teriam algo a disputar, motivando a todos e tornando essas últimas rodadas empolgantes para todos SEMPRE, e não somente a cada seis anos. Sem contar que, se hoje houvesse o campeonato antigo, até o Sport (11º colocado), todos teriam chance de chegar à fase final.

Eu sei que muitos vão argumentar que a fórmula de pontos corridos é a mais justa, porque privilegia e equipe mais organizada, mais equilibrada, etc. e tal. Para isso, digo duas coisas: time campeão tem que saber jogar tanto pontos corridos quanto mata-mata, e por isso a fórmula antiga parece ser a ideal; e se fosse pela organização, como o Palmeiras, o Flamengo e o Grêmio estariam onde estão nesse ano?

28 de out. de 2008

Pequeno pensamento

Já não aconteceu contigo de andar pela rua e ver uma pessoa vindo na tua direção, te olhando de um jeito que parece que ela gostaria de ser tua amiga?

Se não aconteceu com ninguém, acho que estou ficando megalomaníaco...

Frase do Dia

"O grande consolo das velhas anedotas são os recém-nascidos".
Mário Quintana

24 de out. de 2008

Todos iguais

Neste ano, estou acompanhando mais as eleições de São Paulo do que as de Porto Alegre, o que me permite traçar alguns paralelos entre as duas. Porém, o que mais me chama atenção neste ano - na verdade, nos últimos anos - é a pasteurização das campanhas.

Durante boa parte do século passado, os partidos políticos, quando existiam no Brasil, podiam ser claramente divididos, principalmente entre esquerda e direita - graças, em boa parte, à Guerra Fria. Até durante a ditadura, com a ARENA e o MDB, havia uma clara diferença de posicionamento. Após vários fatores diferentes, como o fim da URSS e da Guerra Fria, a volta da democracia e o advento do neoliberalismo, tudo começou a mudar nas campanhas e discursos políticos. Vou citar duas grandes diferenças no cenário político, que também significaram mudanças de comportamento nas engrenagens que movem o sistema da política brasileira e, a meu ver, também podem ter outras conseqüências não muito boas para os partidos.

Em primeiro lugar, cada vez mais publicitários começaram a ser contratados para gerenciar as campanhas eleitorais, fazendo do horário político uma verdadeira campanha de marketing em que o candidato é "vendido" como um "produto" e suas façanhas e fracassos são maquiados para uma maior aceitação por parte do eleitor. O grande marco, para mim, foi quando o PT contratou o Duda Mendonça para fazer a campanha do Lula para presidente de 2002. Automaticamente, aquele cara de aparência suja, ex-metalúrgico, que falava tudo errado, deu lugar para um senhor de barba branca, fala mansa e que até apreciava bons vinhos, veja só. Não foi só por isso que o Lula se elegeu, mas que isso ajudou, ajudou. E então, cada vez mais as agências de publicidade descobriram esse filão (ou foram descobertas por esse filão, não sei), fazendo o Maluf parecer um cara para casar com a tua filha. Isso, é claro, foi causando uma certa padronização das campanhas eleitorais; afinal, ninguém mais quer se envolver com assuntos espinhosos antes de se eleger. O maior exemplo, nesse caso, é o das falsas promessas de candidatos a prefeito que dizem que cumprirão os quatro anos de mandato e que não vão sair antes para concorrer ao governo do estado. Só para citar dois casos, o Tarso Genro, em Porto Alegre, se elegeu para prefeito em 2000 c0m a promessa de que ia cumprir os quatro anos, sob acusação da oposição de que ia é sair dois anos depois para concorrer ao governo. Em 2002, quem era o candidato a governo do RS pelo PT? Genro, claro. Não se elegeu, bem feito. Sorte maior teve o José Serra, que se elegeu prefeito de São Paulo em 2004 dizendo que não ia concorrer ao governo ou à presidência em 2006 - ele chegou a fazer uma declaração em cartório. Não é que o seu Serra conseguiu se eleger governador de São Paulo em 2006? Tsc, tsc. No caso das campanhas para prefeito de São Paulo este ano, é nítido que, junto ao discurso do candidato (cada vez mais igual ao do adversário) está associado uma grande peça publicitária, um grande "show" de imagens, músicas e fontes que , a princípio, não têm nada a ver com uma campanha eleitoral.

Em segundo lugar, ocorre uma "prostituição" das ideologias políticas; cada vez mais os candidatos adequam suas campanhas por conveniência e não por inclinação partidária ou política. Um bom exemplo pode ser visto nas eleições para prefeito em São Paulo: no primeiro turno houve quase um empate técnico entre Marta Suplicy (PT) e Gilberto Kassab (DEM), mas com votos predominantemente vindos das camadas mais pobres para a primeira e com a maioria dos votos das classes A e B para o segundo. Pois bem, a estratégia de campanha da candidata do PT para o segundo turno foi mostrar que ela também vai fazer muito para os empresários e empresas, assim como para os bairros mais nobres da cidade, enquanto que Kassab se concentra em mostrar que fez e fará muito mais pelos pobres de São Paulo. Ora, se temos dois candidatos que vão governar para os ricos e para os pobre da melhor forma possível, que vão se concentrar no social, mas também dar apoio às grandes empresas, qual é a diferença entre os candidatos? A suposta diferença que os publicitários das duas campanhas querem nos vender está na competência; um acusa o outro de não ter feito isso ou aquilo durante seu mandato e já emenda que fez ou vai fazer melhor do que o outro. Novamente, não há nenhum indício de inclinação ideológica nos seus discursos, apesar de um partido ser declaradamente de direita, e o outro, de esquerda.

Particularmente, penso que essas novas características do mundo político de hoje são muito nocivas para a democracia, visto que supostamente não há muitas opções de mudança para a população. Cada vez mais escutamos as pessoas falarem que não vão votar em ninguém ou vão votar em qualquer um porque "é tudo igual", o que não deixa de ser cada vez mais verdade. Em Porto Alegre, a Manuela se aliou ao PPS, o que seria inadmissível há alguns anos. Hoje, é algo quase natural, criticado apenas por algumas mentes supostamente atrasadas. Infelizmente, parece que quem mais perde com isso é a esquerda, que já vem perdendo há algum tempo, desde que começou a jogar o jogo político com as regras da direita. Perde tanto que chego a me perguntar: estaremos presenciando o fim da esquerda no Brasil? Mas isso é assunto para outra postagem...

21 de out. de 2008

C***lho!!!

19 de out. de 2008

Do Surra

Incluído no novo pacote de salvação a ser votado pelo Congresso estadunidense: Estímulo ao desenvolvimento de energias renováveis, à compra de carros híbridos, etc. Se a história se repete, vem aí mais uma bolha. Se você tem algum projeto de produção de biodiesel a partir de meleca, está na hora de abrir sua start-up. Mas lembre-se de sair antes que a nova bolha estoure. A bolha imobiliária foi diretamente resultante da implosão da bolha da Internet. O Governo americano conseguiu diluir o crash das pontocom reduzindo os juros e fechando os olhos para a farra das hipotecas. E está agora tentando alternativas para uma nova bolha. Bill Clinton, no David Letterman ontem à noite, mencionou isso e deu como alternativa à saída da bolha via hipotecas nos idos de 2000, advinhem, o investimento em energias alternativas. A vantagem, segundo ele, é que esse tipo de investimento cria uma economia real, com empregos reais. É assim que os EUA resolvem suas recessões: investindo tudo em bolhas. E a propósito, Nouriel Roubini, no HardTalk da BBC de hoje: "É o início do fim do Império Americano". Com todas as letras. Sintetizou isso explicando que todos os grandes impérios ruíram quando passaram de grandes credores a grandes devedores, citando o próprio Império Britânico. Os EUA vão sair dessa devendo 700 bilhões a outros países (ironicamente, China, Rússia -- até Oriente Médio e, pasmem, Brasil). 700 bi além dos 9 trilhões do atual déficit, diga-se de passagem.
(update: link para a entrevista do Roubini: www.bbc.co.uk)

Como diz o título, tirado do Surra.

17 de out. de 2008

Porto que me alegra II

Quando cheguei em Porto Alegre, depois de estar morando há um bom tempo em São Paulo, a primeira impressão que tive foi a de respirar um ar diferente do que vinha respirando antes. Não se trata somente de poluição; além da qualidade superior (com menos poluição, mas com poluição, é bom lembrar), também é o friozinho do ar, aliado a uma sensação de estar em casa que não encontra eco em nada que eu tenha vivido até hoje.

É estranho passar por lugares que significaram tanto para mim e continuar sentindo essa sensação de importância, mesmo tendo passado praticamente um ano sem vê-los, mesmo tendo vivido outras experiências muito longe dali, mesmo tendo, de certa forma, dado as costas para esses lugares que me causaram tanta emoção - e ainda me causam. Ler os poemas de Mario Quintana sobre Porto Alegre agora me atinge de outra forma, me identifico muito mais na sua retórica saudosista, nostálgica, e no seu toque encantador e reverente à cidade.

É assim que me sinto em relação a todo mundo que conheço por essas bandas. Já que não posso dizer isso aos lugares, então me dirijo a todos os amigos que tenho em Porto Alegre e arredores (na verdade, por todo o Rio Grande do Sul) para dizer que não só não esqueci vocês, como penso em vocês todos os dias. Lembro-me de incidentes, casos e momentos engraçados, curiosos, marcantes e tocantes que passamos juntos, e isso funciona como um alento aqui na cidade cinza de São Paulo. Espero rever todos vocês, dos melhores aos piores amigos, o mais breve possível, e espero que o tempo e a distância não façam nada além de fortalecer ainda mais nossos laços. Aproveito também para pedir desculpas a todos os que devem ter se sentido um pouco esquecidos desde que me mudei e dizer que a culpa é toda minha, que por inexperiência ou imaturidade - ou ambos - não soube administrar as amizades à distância (para mim é um saco atualizar Orkut ou conversar por e-mail estando longe de vocês). Prometo tentar melhorar nesse quesito e espero que essa postagem sirva como um mea culpa.

16 de out. de 2008

Porto que me alegra

Nunca fui um desses caras que se orgulham de ser gaúcho, que gritam "Ah, eu sou gaúcho", que dizem com a boca escancarada que tomam chimarrão, adoram churrasco e amam a Polar. Eu adoro churrasco, mas adoro tanto quanto adoro pizza, lasanha e tantas outras maravilhas culinárias, e adoro por achar ótimo e não por ser do Sul. Nunca gostei tanto assim de chimarrão, tomo de vez em quando, mas se nunca mais tomasse não sentiria falta. Não bebo cerveja, mas mesmo assim meto meu bedelho onde não conheço e acho que a Polar é uma baita jogada de marketing de algum publicitário esperto, aproveitando a onda do tal orgulho gaúcho; se bobear, é uma Antártica com outro rótulo e com efeito placebo. Entretanto, mesmo assim não tenho como descrever a sensação de dizer, em São Paulo, que sou gaúcho, sem falar em orgulho. Sinto muito orgulho em ser gaúcho e muito orgulho da nossa capital, desse lugar maravilhoso que tem o tamanho certo para mim, que tem o ar perfeito para eu respirar, que tem as pessoas certas para se conviver. Isso é muito estranho para mim, visto que eu nunca fui um empolgado pelas nossas tradições - e continuo não sendo. Apenas percebi que não há lugar melhor do que aquele que a gente elege para o nosso coração, e parece que todos os gaúchos fazem isso ao nascer: elegem Porto Alegre, mesmo que seja preciso sair de lá para ter consciência disso - o que foi o meu caso. Essa espécie de homenagem a Porto Alegre continua no próximo post.

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