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15 de mar. de 2010

Antes do Amanhecer

Pode ser interessante um filme que conta a história de duas pessoas que se conhecem em um trem, começam a conversar até o amanhecer do dia seguinte e se apaixonam? Se for um filme de Richard Linklater, não só pode como deve.

O que a história de Antes do Amanhecer tem de mais interessante é o fato de que o casal se apaixona por meio de uma gostosa e intensa conversa que dura poucas horas. Repleto de diálogos inteligentes, o filme elabora um perfil realista dos protagonistas e desenvolve uma história simples, porém comovente.

O filme inicia em um trem e, desde o momento em que o casal começa a conversar, já é possível perceber o grande entrosamento que adquirem um pelo outro. Isso é essencial no início para que acreditemos que Celine pudesse mesmo aceitar o convite de um desconhecido para descer do trem e passar uma noite com ele.

A partir daí, a conversa entre eles domina a narrativa, trocando de assunto de uma maneira muito fluida e natural. A naturalidade dos diálogos entre os dois é evidenciada pela forma como eles se relacionam: desde a cena na loja de música, quando ficam extremamente desconfortáveis enquanto escutam uma canção, até quando Jesse, de forma desajeitada, tenta pedir um beijo a Celine, podemos sentir um relacionamento real surgindo diante de nossos olhos. Além disso, outro destaque na conversa são as questões filosóficas abordadas no filme, que vão de questões políticas até metafísicas, que colorem os personagens de maneira muito eficiente.

E se o trabalho de Hawke e Delpy surge com um entrosamento fantástico, que auxilia na verossimilhança do roteiro, Richard Linklater também merece destaque ao manter, por exemplo, um plano em que Jesse tenta ajeitar o cabelo de Celine, que cai novamente em seu rosto (e então ela mesma arruma), ou outro em que ele tenta pegar a mão de Celine, que desvia a ação, fazendo com que Jesse fique meio sem jeito, mostrando mais uma vez a naturalidade das ações. Além disso, aproveitando de forma muito elegante a belíssima cidade de Viena, Linklater usa planos abertos dos locais que serão palco para os diálogos do casal, como se estivesse apresentando-os para o espectador, para depois se concentrar efetivamente na relação entre os dois.

Encerrando de uma forma dúbia e melancólica, mostrando os locais em que o casal havia passado, só que agora completamente vazios, Antes do Amanhecer exibe uma ótima história que suscita vários questionamentos no espectador, o que evidentemente torna a experiência de assisti-lo não só um mero passatempo, mas também uma reflexão sobre a vida - e de uma forma muito sensível.

FICHA TÉCNICA

Antes do Amanhecer (Before Sunrise) - Nota A
Direção: Richard Linklater. Roteiro: Richard Linklater e Kim Krizan. Com: Julie Delpy e Ethan Hawke.

Obs.: a crítica da continuação, Antes do Pôr-do-Sol, encontra-se aqui.

5 de mar. de 2010

O cinema argentino

Eu poderia falar aqui por muitos parágrafos sobre a superioridade do cinema argentino em relação ao brasileiro, particularmente para aqueles que ainda não entendem como os filmes nacionais pré-selecionados ao Oscar acabam ficando no meio do caminho. Porém, acho melhor dar apenas um pequeno exemplo de técnica cinematográfica aplicada à narrativa para ilustrar essa superioridade hermana. Ele vem do candidato argentino ao Oscar deste ano, O Segredo dos Seus Olhos, e trata-se de um plano-sequência de uns cinco minutos que é extremamente complexo do ponto de vista da execução, particularmente nos segundos iniciais (o "voo" pelo estádio) e a passagem por uma abertura seguida da queda de um personagem. É claro que o filme é muito mais do que isso, mas este plano-sequência pode ser tomado como exemplo em uma escala menor. Apesar de provavelmente perder o Oscar neste domingo para A Fita Branca, de Michael Haneke, fica aí um exemplo de técnica a ser seguido pelo Cinema brasileiro (outra mudança seria nos temas, que nos últimos anos são praticamente os mesmos, mas isso é uma outra história).

13 de out. de 2009

Novo fenômeno?

Se dá pra dizer que [REC] foi um novo Bruxa de Blair, parece que já fizeram o novo [REC]. Trata-se de Paranormal Activity, filme do estreante Oren Peli, que foi exibido pela primeira vez em 2007, no festival de filmes de terror Screamfest. Nesse e em outros festivais especializados, o filme surpreendeu positivamente a plateia, e o boca-a-boca gerado fez com que a Paramount decidisse distribui-lo, em circuito limitado, nos EUA. O lançamento do filme foi neste fim de semana, e ele ocupou o quinto lugar nas bilheterias, com 8,28 milhões de dólares. Considerando que o filme foi lançado em apenas 160 salas (com uma impressionante média de 44 mil dólares/sala!) e custou apenas 15 mil dólares, ele tem grandes chances de bater o recorde de Bruxa de Blair como filme mais lucrativo da história.

O filme conta a história de um casal que recém se muda para uma casa em que coisas suspeitas acontecem, o que os leva a colocar câmeras para vigiar o ambiente e descobrir se trata-se de uma casa mal-assombrada.

Além de utilizar a câmera em primeira pessoa (assim como Bruxa de Blair e [REC]), Paranormal Activity ainda guarda mais uma semelhança com eles: o seu marketing. Nos EUA está rolando uma campanha para que mais cinemas passem o filme, o que obviamente aumenta o boca-a-boca e o disse-me-disse em torno dele. Mas o que mais me chamou a atenção foi um dos trailers do filme, utilizando a mesma ideia usada em [REC]: filmar as reações da plateia. O resultado vocês veem abaixo:



Será que todo esse hype se justifica? É o que veremos a partir de 4 de dezembro, quando ele deve estrear por aqui.

19 de ago. de 2009

Xuxa homenageada em Gramado

Noite de horror e indignação em Gramado. Alguma mente desprovida de qualquer senso cinematográfico decidiu coroar Xuxa Meneghel como a Rainha do Cinema. É inclusive a manchete do Diário do Festival, que circula aqui no evento: Gramado Reverencia sua Rainha. E, pior: Kikito especial homenageia a rainha do cinema, da música e da televisão. No país de Fernanda Montenegro, de Aneci Rocha, de Laura Cardoso, de Helena Ignez, de Tônia Carreiro, de sei lá... Hebe Camargo, caramba... O Festival de Gramado, pateticamente, tenta vender ao público a mentira que Xuxa é a rainha do cinema. Tudo por um punhado de mídia. Como se vendem barato os organizadores do Festival de Gramado que decidem quais serão os homenageados!

Sem mais a acrescentar, apenas o que está contido na continuação do texto.

1 de jul. de 2009

[REC]²

Eu não gosto de continuações. Tenho muito receio delas estragarem o que foi feito nos filmes originais. Exemplos não faltam, e os primeiros que me vem à cabeça é Bruxa de Blair 2 e Efeito Borboleta 2, que simplesmente não deveriam ter existido. Quando a continuação não é ruim, costuma ser apenas mais do mesmo, o que também não acrescenta nada à história original e, portanto, não precisaria existir. Raras são as continuações que realmente valem a pena; normalmente, tratam-se de filmes que já foram pensados durante a execução do primeiro, (De volta para o futuro II e III) ou de franquias (O Cavaleiro das Trevas). Por que isso? Porque normalmente uma continuação é apenas um caça-níqueis, uma forma de tentar ganhar mais dinheiro com uma coisa que deu certo.

Tudo isso para dizer que saiu o trailer da continuação do melhor filme de terror de 2007 (lançado aqui, com um atraso monumental, em 2008): [REC].



Achei que o trailer poderia ser do Doom. Estou com medo do trailer, e não é exatamente medo dos zumbis, mas do filme ser uma bomba. Agora é esperar...

27 de abr. de 2009

Sinédoque, Nova Iorque

Adoro filmes bobos. Adoro me divertir com algo que diz exatamente o que quer dizer. Mas também não resisto a uma obra que possui várias camadas, que a cada revisitada vai se abrindo e se revelando cada vez mais, e cada vez de forma mais complexa e genial. Eu sei o quanto é difícil indicar um tipo de filme assim, do tipo que o espectador tenha que ver de forma bem atenta e, provavelmente, mais de uma vez - afinal, já é difícil fazer alguém assisitir um filme UMA vez... Mesmo assim, sou obrigado a indicar essa obra-prima.

Assisti, no último fim de semana, Sinédoque, Nova Iorque. Uau. Sério, fazia muito tempo que não via algo tão grandioso, tão precioso. Antes de mais nada, quero dizer que sou meio suspeito para falar, pois adoro o Charlie Kaufman, diretor e roteirista do filme, e todos os roteiros que ele escreveu (Natureza Quase Humana, Quero Ser John Malkovich, Adaptação, Confissões de uma Mente Perigosa e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças). Mas nessa sua estréia como diretor ele se superou; fez um filme que talvez daqui a alguns anos torne-se o que 2001 foi para os anos 70 ou o que Magnólia foi para os anos 90 (ou mesmo o que Cidade dos Sonhos foi para a nossa década atual). O que todos esses filmes compartilham, em suas essências, é o fato de serem exercícios intelectuais de qualidade extremamente humanista e de investigação da mente humana. E isso Kaufman faz muito bem.

Eu ia escrever um monte sobre o filme. Ia mostrar o quão denso ele é, mesmo nas partes menos óbvias, o quão bem amarrado ele foi, o quanto ele te atira para fora do cinema pensando em coisas da vida. Ia mostrar como ele perderia a força se tivesse sido dirigido por outra pessoa, pois a direção de Kaufman é importante para o próprio entendimento do filme - assim como seu título -, ia dedicar uma série de frases para exaltar o cara e sua obra. Em vez disso, vou deixar três citações de críticas que, de uma forma ou de outra, sintetizam tudo o que eu ia dizer.

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A estréia de Charlie Kaufman na direção sugeria que ele elevaria a maiores potências seu gosto pelo incomum. O que não poderíamos prever é que ela criaria uma obra-prima instantânea, tão repleta de significados, fúria, solidão, complexidade, dor, perdão, paixão, poesia e tanto amor. Esses termos podem parecer clichê, palavras gastas, mas cada um deve ser entendido na acepção real da palavra. Dissecando a vida e a arte de Caden Cotard, Kaufman fala de si, de todos os artistas, de todos nós, da vida no cinema e fora dele. Fala de uma intrincada e ao mesmo tempo simples rede de relações, medos, frustrações, descaminhos, devoções e sentimentos conflituosos chamada vida.
Fábio Dantas. Crítica completa, aqui.

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E é neste aspecto que Charlie Kaufman mais uma vez comprova seu absurdo talento: embora nossa eterna busca pelo “sentido da vida” tenha originado milhares de obras na Literatura, no Teatro, na Música e no Cinema, o roteirista adota uma estrutura narrativa ímpar e mais do que apropriada à sua função como contador de histórias para investigar a questão: premiado com uma verba inesgotável para criar o espetáculo que desejar, Caden resolve conceber um simulacro de seu mundo em um galpão, contratando dezenas (talvez centenas) de atores que, todos os dias, recebem instruções específicas sobre como deverão interagir com os demais intérpretes. Uma espécie de performance da Vida, a montagem de Caden o transforma, na prática, num Deus de seu próprio universo, permitindo que ele explore a própria psique enquanto busca encontrar, através da experimentação constante, o grande Significado de Tudo (Douglas Adams diria “42”; Kaufman provavelmente responderia “Caos e Desespero”). Com isso, o título do filme se justifica ao transformar Caden e suas angústias num símbolo da Humanidade e a própria Humanidade, em suas contradições e seus esforços de compreender o Universo, num resumo da jornada do próprio Caden. Assim, Sinédoque, New York gradualmente se transforma num exercício narrativo fascinante, construindo uma estrutura complexa que revela novas e surpreendentes camadas sob aquelas que já conhecíamos – e logo Caden constrói um galpão dentro do galpão a fim de representar o simulacro do simulacro (que, claro, ganha seu próprio mini-simulacro). Esta viagem interna se torna tão intrincada que, em certo instante, acompanhamos um enterro que, minutos depois, é representado no espetáculo de Caden apenas para, mais adiante, ser revisto como uma montagem teatral da montagem teatral – e, neste momento, os atores que interpretam outros atores são ladeados por uma tela na qual mais pessoas são projetadas, completando um círculo enlouquecedor de inúmeras representações dramáticas numa ficção da ficção da ficção. (É preciso dizer, aliás, que o design de produção de Mark Friedberg é absolutamente espetacular.) E é neste ponto, diga-se de passagem, que compreendemos a inteligência de Kaufman ao retratar Adele como uma pintora que cria retratos minúsculos que exigem lentes de aumento para serem apreciados, já que, de certa forma, é exatamente isso que Caden faz com sua megalomaníaca produção, jogando luz sobre cada um de nós ao compreender que, por mais que sejamos meros figurantes no que diz respeito à Humanidade, somos, claro, todos protagonistas de nossas próprias vidas.
Pablo Villaça. Crítica completa, aqui.

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[...] não é que você tenha que retornar ao filme para poder entendê-lo. Você tem que retornar ao filme para compreender o quão bom ele realmente é. A superfície pode te intimidar. As profundezas te envolvem. O todo revela-se, e então você pode retornar a ele como um talismã. [...] O assunto de "Sinédoque, Nova Iorque" nada mais é que a vida humana e como ela funciona. Utilizando um diretor de teatro novaiorquino neurótico, ele abarca cada vida e como ela enfrenta as dificuldades e falha. Pense só um pouco e, meu Deus, isso é sobre você. Seja lá quem você for.
[...]
"Sinédoque, Nova Iorque" não é um filme sobre o teatro, apesar de parecer. Um diretor de teatro é um personagem ideal para representar o papel que Kaufman pensa que todos nós desempenhamos. [...] Os atores são as pessoas nos papéis que nós damos a elas a partir do nosso ponto de vista. Algumas delas interpretam papéis designados para fazer o que não têm tempo nem condição de fazer. Elas têm um jeito de atuar que é independente, infringindo as instruções. Elas tentam controlar suas próprias projeções. Enquanto isso, a fonte de toda essa atividade fica velha e cansada, doente e desesperada. Isso é real ou é um sonho? O mundo não é nada além de um palco, e nós somos meros atores dentro dele. Tudo é uma peça. A peça é real.

Roger Ebert, traduzido por mim. Crítica completa, aqui (em inglês).

13 de mar. de 2009

O Cinema de autor e Watchmen

Uma dúvida que muitas pessoas têm, quando o assunto é cinema, é sobre como identificar a assinatura de determinado diretor em um filme. Em vários casos isso é mesmo difícil, pois em Hollywood existem muitos diretores que são contratados para fazer um filme para o (e do) produtor, executando uma direção genérica e sem nenhuma característica essencial - coisa que, infelizmente, só vem aumentando a cada década. Entretanto, há muitos outros que ainda conseguem, se não completamente fazer um "cinema de autor", estabelecer certas características que os definem como cineastas peculiares. Para exemplificar isso, o link a seguir mostra como ficaria a adaptação de Watchmen na visão de seis diferentes cineastas. É uma brincadeira, é claro, mas que é feita a partir do estereótipo que se tem desses diretores, graças justamente as suas assinaturas cinematográficas. O site é em inglês, mas mesmo que você não entenda bulhufas tem uma ilustração que mostra bem o que o texto quer dizer. Clique aqui e divirta-se!

30 de nov. de 2008

Os Estranhos

Da Wikipédia: Slasher é um sub-gênero de filmes de terror quase sempre envolvendo assassinos psicopatas que matam aleatoriamente. Pecando em vários sentidos em sua produção tanto no roteiro quanto na atuação, edição, fotografia, música e envolvendo muito sangue. Normalmente são feitos com baixo orçamento, daí são constantemente nomeados como "terror b".

Clichê é uma idéia relativa a algo que se repete com tanta frequência que já se tornou previsível e repetitiva dentro daquele contexto.

Acho que o estreante diretor e roteirista Bryan Bertino leu principalmente a segunda frase dessa explicação sobre o gênero slasher quando pensou em fazer Os Estranhos. O filme conta a história de um casal (Kristen e James, Liv Tyler e Scott Speedman, respectivamente) em crise, que vai passar uma noite na casa de veraneio dos pais de James, que fica no meio do nada, e então começam a ser aterrorizados por três estranhos de máscara, tendo que lutar por sua sobrevivência.

Começo a crítica falando sobre um dos únicos méritos do filme: tensão e sustos. Através de uma edição eficaz e uma trilha sonora alta e aguda (principalmente nos momentos de sustos), Bertino consegue deixar o clima tenso principalmente ao longo da primeira metade do filme. Porém, existem dois poréns: primeiro, muitos dos sustos existentes são aqueles totalmente clichês de slashers (como a mão no ombro do mocinho, juntamente com a trilha sonora alta e aguda, que depois revela-se apenas como a mão da mocinha) - só faltou o clichê dos clichês, o gato preto saindo do armário; segundo, a tensão e os sustos não conseguem segurar o filme sozinhos, por causa principalmente do maior erro do filme: atribuir poderes divinos aos três "estranhos".

Sim, isso mesmo: poderes divinos. Os três invasores são oniscientes, onipresentes e onipotentes ao longo de todo o filme. Entretanto, são - ou deveriam ser - pessoas comuns, de carne e osso! Em O Grito, por exemplo, temos um ótimo filme de sustos e tensão, que tem momentos absolutamente cagantes que prendem o espectador graças à edição eficaz e à trilha sonora alta e aguda, mas também ao enredo, que faz sentido dentro da lógica proposta pelo filme (afinal, é um filme de fantasma, então a maneira com que os fantasmas agem faz sentido, pois eles são fantasmas, ora bolas). O problema aqui, em Os Estranhos, é que os personagens-título antecipam todos os passos dos mocinhos, entram e saem da casa sem fazer barulho (corrigindo, fazem barulho quando querem, porque alguns barulhos são importantes para dar sustos) e parecem ter o poder de se teletransportarem, o que é de um absurdo extremo e que retira da tensão e dos sustos o foco do filme, trazendo-o para esses erros de lógica e furos do roteiro - um pecado, infelizmente. Não que o roteiro de O Grito seja lá essas coisas, mas pelo menos tem lógica interna - o que esse Os Estranhos não tem.

Alguns exemplos: tem uma cena em que James vai buscar seu celular no seu carro, que está estacionado do lado de fora da casa. Ele chega no carro, abre a porta e se debruça para procurar o telefone. Então uma mão chega por trás dele e toca o seu ombro. Assustado, ele se vira para trás, mas não vê nada. Olha no banco de trás e nada. Sai do carro e olha ao redor e nada. Ah, e a tal mão fez tudo isso sem fazer barulho algum. Depois ele volta pra dentro da casa, fica um pouco lá, e quando volta para o carro este está todo amassado na frente e com os vidros quebrados. Porém, ninguém havia escutado barulho algum de dentro da casa (detalhe: a casa fica no meio do nada e qualquer barulhinho, quando é pra assustar, pode ser escutado). Aí ele olha pra frente e tem uma mulher ali, a uns vinte metros dele. James pergunta a ela o que eles querem, e Kristen aparece na porta, pedindo pra ele entrar. Ele se vira para dizer a ela que volte para dentro e, quando se vira de volta, A MULHER NÃO ESTÁ MAIS LÁ!! O último exemplo que vou dar (mas que não é o último do filme, juro) é um spoiler que conta um trecho importante do filme; portanto, se você não quer que a história se estrague, vá direto para o próximo parágrafo. Não tem a ver com os super-poderes dos estranhos, mas sim com a falta de lógica que serve para dar sustos: dois meninos entram na casa, depois de todos os acontecimentos, e vêem o casal no chão, todo ensangüentado, imóvel. Um dos meninos se aproxima de Kristen e vai encostar no seu braço, quando ela arregala os olhos e solta um berro. Fim do filme! Ora, quem está na situação dela não fica imóvel e sem fazer barulho, dando um berro quando alguém se aproxima. Essa parte só entrou no filme para fazer com que o espectador saia do cinema com um último (e inverossímil) susto.

Bem, pra não dizer que eu só falei mal do filme, os primeiros quarenta e cinco minutos, que mostram os problemas do casal, são bem amarrados e montados, nos fazendo importar com o destino dos personagens. As atuações não são ruins, mas têm o mesmo problema da maioria dos filmes do gênero: a mulher que fica histérica boa parte do filme e o cara que tenta resolver tudo, mas que só faz mais merda (exemplo e clichê dos clichês: deixar a mulher dentro de casa, sozinha, enquanto vai no celeiro ver um rádio velho; é o velho "fica aí sozinha com o(s) assassino(s) que eu vou até ali fazer uma coisa sozinho e provavelmente ser morto. Afinal, se separar é o melhor a fazer nesses casos, né?").

Para o maior lançamento de Hollywood do ano no gênero, a gente entende porque o Japão e a Espanha continuam como os maiores produtores de filmes de terror da atualidade.

FICHA TÉCNICA

Os Estranhos - Nota C

Direção e roteiro: Bryan Bertino. Com: Liv Tyler e Scott Speedman

6 de nov. de 2008

A propósito...

...[REC], o filme, vai finalmente estrear nos cinemas brasileiros no dia 14 de novembro. Não perca, vale muito a pena ver na tela grande esse grande terror. Caso queira ler a minha crítica, clique aqui.

28 de set. de 2008

Ainda [REC]

Respodendo ao comentário do André na última postagem, aqui tem um link para baixar o [REC], sem legendas. Para as legendas, tente alguma das que estão aqui. E, por favor, comentem sobre ele, caso assistam!

30 de jul. de 2008

Explicações

Tá, eu nunca mais prometo atualizar o blog. Ele será atualizado - e espero que com uma certa freqüência, mas sem promessas. Me sinto culpado em não conseguir atualizá-lo, juro. Porém, estou com pouco tempo útil para isso... Estou pensando em algum jeito de resolver isso, então aguardem!


Ah, e sobre os comentários do [REC], baixei o filme via Torrent. Nada mais justo, visto que ele não saiu no Brasil. Caso alguém tenha dificuldades em conseguir baixá-lo, deixe um comentário que eu vejo o que dá pra fazer. Esse filme merece ser visto...

11 de jul. de 2008

[REC]

Para ter uma idéia do que tu vai ler nos próximos parágrafos, veja esse vídeo:




Trata-se do trailer de [REC], que não mostra uma cena sequer do filme, apenas as reações das pessoas a sua pré-estréia na Espanha.


Se tu gosta de filme de terror/suspense, tem que ver esse filme. Se tu gosta de cinema, também. [REC] é a mais recente surpresa do cinema espanhol, que nos últimos anos vem se destacando principalmente nesse gênero, desde Guillermo del Toro e seu A Espinha do Diabo, passando por O Labirinto do Fauno e O Orfanato (de J. A. Bayona), além de outros. Definitivamente a Espanha desbancou o Japão como principal Cinema do gênero, apostando em qualidade técnica e inovações em temas que aparentemente já estavam batidos. Vamos ao caso específico de [REC] e seus méritos em relação a inovar o já batido.


Resumidamente, dá pra dizer que o filme é uma mistura de Dawn of the Dead (e todos os filmes de mortos-vivos que vieram na seqüência) com A Bruxa de Blair. Ou seja, um filme de zumbi com uma câmera na mão. Nada original, né? Aí que está um dos méritos do filme: a falta de originalidade é magistralmente driblada com um elenco de primeira, aliado a um roteiro inteligente e à competência da direção, que precisou ensaiar muito bem algumas cenas em que simplesmente tudo tem que dar certo em planos-seqüência de alguns minutos, no escuro e em corredores apertados. Ou, como diria Stephen King: “não importa a história, mas sim o narrador”.


[REC] mostra uma tentativa de reportagem de um programa de TV espanhol, que acompanha por uma noite o trabalho dos bombeiros. Um câmera e uma repórter vão passar a noite num quartel de bombeiros e mostrar um pouco da rotina de trabalho deles. O início do filme é propositalmente monótono, visto que mostra apenas cenas dos bombeiros ali, parados, dando entrevista, comendo, jogando basquete, e nada acontece. A repórter chega a dizer para Pablo, o cameraman, que deseja que aconteça alguma coisa para que a matéria se torne mais interessante. Pouco depois, um chamado leva uma equipe de bombeiros (sempre acompanhada pela de TV) a um prédio de seis apartamentos mais uma cobertura no qual os vizinhos não conseguem dormir graças aos gritos histéricos de uma moradora. Até aí, nada de mais, a não ser depois que essa moradora quase mata um policial e um bombeiro e que, ao tentarem sair do prédio com os feridos, todos dentro do prédio descobrem que este foi recém lacrado pela vigilância sanitária, que pede calma a todos e diz que aguardem ali dentro enquanto ela executa alguns procedimentos.


Obviamente, a partir daí temos grandes momentos de tensão, que vão aumentando gradativamente. Funciona mais ou menos assim: início do filme, monotonia; depois, um momento tenso, seguido de outro; depois, mais uma calmaria; por fim, tensão subindo gradativamente até chegar ao ponto de tu querer parar de assistir por não agüentar o suspense. Sério, fazia muitos anos que um filme não me assustava tanto - aliás, não sei se algum jamais me assustou a esse ponto. O diretor faz grande uso da perspectiva da câmera na mão: Pablo filma tudo que pode, tanto por curiosidade (mórbida) quanto por “amor” à profissão e também como uma tentativa de sobrevivência naquele terror. Sua câmera, após várias pancadas, começa às vezes a ter o som falhado, o que torna a ação extremamente incômoda em alguns momentos, tornando o suspense mais acentuado. Em outro momento, as luzes se apagam e o único recurso para enxergarmos é a luz da câmera de Pablo, tornando o clima ainda mais claustrofóbico. E quando a luz da câmera começa a falhar, então? A câmera de Pablo torna o filme muito mais próximo ao espectador, que se sente mais dentro do filme, o que obviamente aumenta - e muito - a tensão.


Outro fator que eleva a carga de tensão é saber, desde o início da apresentação aos “zumbis”, que esses lembram muito mais aqueles de Extermínio do que do já citado filme de George Romero: aqui eles correm, arrombam portas, enfim, agem com inteligência quase humana (com o perdão do trocadilho) para conseguir o que querem: atacar os não-infectados. Além de dar mais realismo, esse recurso é muito, mas muito mais assustador.


O roteiro é magistralmente construído para alternar momentos completamente sem ação com outros absolutamente angustiantes que os seguem imediatamente e sem transições graduais, fazendo com que o seu coração entre em uma montanha-russa dos infernos, e ainda nos entregar aos poucos o que está acontecendo. Isso sem contar nos momentos que o espectador acha que vai levar um daqueles sustos batidos e nada acontece, apenas para que um momento depois ele seja levado a pular da cadeira com o que aparece na tela. Os últimos dez minutos do filme, aliás, são absolutamente assustadores; se você for assistir [REC], prepare o seu coração (como diria Galvão Bueno), porque ele vai tentar saltar pra fora do seu corpo nesses minutos finais, que entram pros anais do Cinema assim como os vinte primeiros minutos de O Resgate do Soldado Ryan.


Infelizmente o filme, que saiu em novembro na Europa, não chegou aqui no Brasil – nem sei se vai chegar. Portanto, pode baixá-lo sem culpa.


Hollywood, preguiçosa que só ela, já está providenciando um remake de [REC]. Chama-se Quarantine e deve estrear por lá no fim do ano.


FICHA TECNICA


[REC] - Nota A


Direção e roteiro: Jaume Balageró e Paco Plaza. Com: Manuela Velasco.

7 de jul. de 2008

Mais uma lista...

Tá, prometo que essa vai ser a última lista de 100 melhores filmes de todos os tempos por algum tempo... Aliás, muito nada a ver, serve só como sugestão de filmes para ver.

27 de jun. de 2008

Spielberg

Tenho pelo menos três críticas para escrever, e uma delas é do novo Indiana Jones. Enquanto a crítica não vem, fiquem com os dez filmes mais bem dirigidos pelo Spielberg, segundo o Rotten Tomatoes.

Ah, e antes da crítica do Indiana vem uma de um filme de terror espanhol que quase não me deixou dormir...

19 de mai. de 2008

Mais uma lista³

Aí vaí mais uma lista com filmes, desta vez com os 1001 filmes que você precisa assistir antes de morrer, separados por ano e até 2003. Clique aqui e pegue várias sugestões para o feriadão!

7 de mai. de 2008

O Nevoeiro (II)

The Mist (que aqui no Brasil vai ser lançado como O Nevoeiro) continua dando pano pra manga. Neste link, um ótimo texto que reflete um pouco a questão da necessidade do ser humano em se agarrar a algo para tentar manter a "normalidade" aparentemente a ele inerente, a partir do ponto de vista do filme. E mais: ele propõe, de maneira discreta, que pensemos a respeito de como nós criamos, ao longo dos séculos, mecanismos de "auto-proteção" para impedir que as coisas saiam do normal. Dentre eles, o mais óbvio parece justamente ser a religião. Afinal, sempre que tentamos explicar algo que foge da nossa compreensão, a resposta mais fácil parece ser a religiosa. Isso funciona com a morte, o nascimento, etc., e também com insetos gigantes vindos junto com um nevoeiro e que tentam te matar. Enfim, divirtam-se com a leitura.

6 de mai. de 2008

Mais uma lista²...

...dos 100 melhores filmes de todos os tempos. Agora é do Times, e é ótima para comparar com a daí de baixo e perceber como essas listas são subjetivas mesmo. Para mim, serve somente como indicação de filmes que não vi. Clique aqui para vê-la.

30 de abr. de 2008

Mais uma lista...

...dos 100 melhores filmes de todos os tempos. Clique aqui.

8 de abr. de 2008

The Mist

Stephen King é, para mim, um cara injustiçado. Muita gente acha que ele escreve mal, mas hoje em dia várias pessoas “importantes” já voltaram atrás em relação a sua literatura. Muita gente acha que ele só escreve contos e livros de horror/terror, mas na verdade esse é só o seu gênero principal. Muita gente acha que as suas obras, quando adaptadas para o Cinema, não ficam boas, mas aí (e nas outras duas afirmações anteriores também) nós temos Frank Darabont para nos provar o contrário.

Dono de uma filmografia curta, dos quatro longas-metragens da sua carreira, três são adaptações de obras literárias de King: além de The Mist ele dirigiu e escreveu Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre. Esses dois últimos não são de terror/horror; o primeiro é um drama que se passa dentro de um presídio (e que está em segundo lugar na lista do Top 250 do IMDB, maior banco de dados de Cinema do mundo, na votação dos internautas como melhor filme de todos os tempos – e com a mesma nota do primeiro lugar) e o segundo é um drama com toques de realismo fantástico aclamado por crítica e público. Faltava a Darabont adaptar uma obra de terror de King, já que são poucos os filmes do gênero baseados em livros do “mestre do horror” que são realmente memoráveis (me lembro só de Carrie, a Estranha e O Iluminado, e gostaria de esquecer porcarias como Cujo e O Apanhador de Sonhos) e ele parece captar como ninguém o universo do cara. Com The Mist, portanto, tudo parecia levar a crer que teríamos um baita filme de terror. Depois de assistir o filme, posso dizer que, se não temos um baita filme de terror, pelo menos temos uma bela adaptação de uma obra de King. Na verdade, se Darabont não tivesse acertado tanto a mão nos dois outros filmes ou se outra pessoa tivesse assinado The Mist, o resultado seria mais evidenciado, pois não se esperaria tanto. Porém, comparado com as suas outras adaptações, essa é realmente a sua pior cartada. Só que isso não quer dizer que necessariamente o filme seja ruim.

A história é a seguinte: após uma violenta tempestade, uma neblina toma conta de uma pequena cidade do Maine, aprisionando dezenas de pessoas em um supermercado. O problema é que essa neblina esconde monstros que vão desde insetos gigantes até uma espécie de dinossauro gigantesco, e agora as pessoas terão que lutar por suas vidas. Não bastasse os seres estranhos, começam a surgir divergências sérias entre o grupo, o que torna tudo mais tenso.

Pessoas presas num lugar, sendo ameaçadas por algo misterioso? Sim, esse tipo de história vem sendo contada há anos por diversos filmes (de vampiros e mortos-vivos, principalmente), mas como diz o próprio Stephen King num de seus contos, “não importa a história, importa o narrador”. Aqui, Darabont consegue dar dinamismo suficiente para a história caminhar de maneira inesperada, retirando cedo personagens que pensávamos que fossem ficar até o fim e dando a outros, que tinham menos importância até então, uma grade força. Os diálogos são muito bem construídos, particularmente em um filme do gênero, dando tridimensionalidade a seus personagens (a exceção fica com o baixinho Ollie).

Os bichos que vêm com a neblina logo mostram que não estão de brincadeira; fortes e rápidos, matam as pessoas sem dó e são muito superiores aos humanos, como mostra a seqüência em que algumas criaturas invadem o supermercado e causam um belo estrago. O problema é que os efeitos visuais não são lá grande coisa, fazendo com que a maioria dos ataques perca parte do impacto. A exceção está nas seqüências que envolvem a neblina, o que faz com que os efeitos possam ser ajudados pela pouca visibilidade existente.

Aliás, um recurso presente na maior parte dos filmes de suspense/terror é justamente a falta de visibilidade (graças à escuridão), o que felizmente não acontece em The Mist. Se ela existe para ajudar alguns efeitos visuais, ela não se faz presente para causar medo ou sustos. Pelo contrário: quase toda a película se passa no claro, o que é mais um ponto positivo, visto que mesmo assim o filme consegue o mérito de assustar, causar medo e tensão e prender o espectador na cadeira.

Outro mérito do filme é justamente trazer o suspense também para dentro do supermercado; sabemos que existem monstros lá fora, mas mesmo quando eles não entram nos mantemos em tensão constante graças aos problemas internos, relativos à própria natureza do ser humano, que começa a agir de maneira diferente ao topar com uma situação inexplicável. Dessa forma, temos uma pregadora religiosa que em questão de horas passa de louca a exemplo a ser seguido, criando um séquito ao seu redor apenas com sua teoria do Antigo Testamento, gritando que Deus está castigando a humanidade pelos pecados que ela vive cometendo; um advogado incrédulo (até mesmo por questões pessoais) que lidera um grupo que quer sair do supermercado para buscar ajuda; e finalmente, o grupo do “mocinho”, que tenta manter a calma e fazer tudo da maneira mais racional possível. À medida que o tempo vai passando esses conflitos vão aumentando, tornando a situação de dentro do supermercado tão ruim quanto a de fora.

Aliás, o papel de Marcia Gay Harden é irritantemente bom - ao contrário dos outros atores, apenas ok. Lembrando em algumas cenas a mãe de Carrie, a atriz imprime um olhar triste e insano que lhe dá muita verossimilhança ao bradar frases sobre o castigo divino. E é interessante notar que à medida que suas previsões parecem ter efeito muita gente passa a acompanhar suas pregações e ser um seguidor. Esse mini-culto fica tão cego que chega a praticar um “sacrifício” em nome de Deus. Aqui está uma óbvia crítica à cegueira religiosa. Por outro lado, o grupo de Thomas Jane (o “mocinho”) é mais racional. Isso não significa que eles não sejam contraditórios: para ajudar uma pessoa muito ferida eles se arriscam a sair do supermercado para alcançar a farmácia ao lado, correndo o risco de sacrificar mais vidas ainda – o que de fato acontece. Apesar disso, esse evento na farmácia é importante para a história; afinal, depois dele um dos personagens passa, a seguir o culto fanático-religioso e os outros finalmente decidem que permanecer no mercado não vai servir de nada e tentam fugir dali.

Mas o principal em The Mist é, com certeza, o final: sem fazer concessão nenhuma ao espectador, o filme traz um desfecho que vai deixar a maioria das pessoas frustrada e/ou chocada, mas que é absolutamente genial pela originalidade que contém. Não se trata aqui de uma reviravolta no estilo Shyamalan; está mais para o final de Oldboy, uma tragédia que faz a gente exclamar (com o perdão do palavreado) “Puta merda!”.

FICHA TECNICA

The Mist - Nota B

Direção e roteiro: Frank Darabont. Com: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden.

14 de fev. de 2008

A Bússola de Ouro


Na grande indústria de hoje em dia, quando algo faz sucesso várias pessoas tentam desesperadamente empurrar algo parecido para se aproveitar da situação favorável. É assim na música (quando uma banda de determinado estilo estoura, rapidamente surgem outras iguais), na literatura (vide os casos recentes de O Código Da Vinci e os "Desvendendando", "Descobrindo", "Acabando", etc., o tal Código, e de O Segredo e seus sucessores) e não poderia deixar de ser também na sétima arte. Com o sucesso estrondoso de O Senhor dos Anéis (17 Oscar, líder absoluto nas bilheterias de dezembro e janeiro de 2001, 2002 e 2003 e quase 3 bilhões de dólares de arrecadação), todos os estúdios correram atrás de adaptações fantásticas para encherem os bolsos. Para se ter uma idéia, até livro escrito por criança os caras adaptaram (Eragon). Não era surpresa que logo chegaria a vez de A Bússola de Ouro, best seller literário de Philip Pullman.

Antes dele, dois outros filmes-franquia tentaram ocupar o lugar de O Senhor dos Anéis: o mediano Crônicas de Nárnia e o fraco Eragon, que com arrecadações de respectivamente 730 milhões e 245 milhões de dólares em todo o mundo tiveram um sucesso relativo embalado pela trilogia de Peter Jackson. Enquanto Nárnia já tem continuação garantida, Eragon ainda espera o seu destino cinematográfico enquanto franquia. 

Quanto a Bússola de Ouro, seu destino é um paradoxo; talvez crentes do sucesso do filme, os realizadores fizeram um filme quase idêntico ao de SdA: A Sociedade do Anel, um final inacabado que diz para o espectador "até o ano que vem!". O problema é que o fiasco nas bilheterias pode fazer com que poucos apareçam no ano que vem, e a própria continuação da franquia pode estar sob ameaça. Mas o que pode ter feito com que esse longa, com US$ 180 milhões de orçamento, fizesse esse vexame retumbante até agora?

Em primeiro lugar, o óbvio: por melhor que fosse, Bússola de Ouro está ancorado num suposto nicho de mercado, o da fantasia. "Suposto" porque parece que há um certo tempo o público cansou desse tipo de fantasia - os próprios números descendentes de Nárnia e Eragon mostram isso. O Senhor dos Anéis representou um ápice no gênero não por ser qualquer fantasia, mas por ser a obra-prima do aclamado e lendário Tolkien e por ser uma trilogia realmente excelente do ponto de vista cinematográfico. Definitivamente, não é o caso de Bússola de Ouro.

O filme comete erros atrás de erros, do início ao fim. Os realizadores parecem não saber como contar uma história complexa (existem vários universos paralelos, no da história as pessoas têm suas almas separadas dos corpos e representadas por animais, e há muitos anos foram construídas bússolas de ouro para contar a verdade sobre o Pó que une todos esses universos... ???) de maneira clara e sucinta ao mesmo tempo; em vários momentos somos atirados de um tempo para outro, e em um momento a protagonista é tutelada pelo personagem de Daniel Kraig para um instante depois já estar sob a guarda de Nicole Kidman. O pior momento do corra-para-contar-toda-a-história-logo ocorre já no terço final, quando Kidman conta o destino de Craig, desaparecido do filme há uma meia hora, em meio minuto, seguido de flashes explicativos. Ridículo é um adjetivo fraco para esse subterfúgio. Aliás, o nome de Craig deveria ser tirado dos créditos, já que se bobear ele aparece menos do que os garotinhos que Lyra Belacqua vai resgatar. 

Os personagens também são mal desenvolvidos por conta dessa pressa em contar a história. As feiticeiras, por exemplo; não há tempo para estabelecer nenhuma relação com Serafina Pekkala, simplesmente porque ela aparece uns onze segundos na película. O ursão é, talvez, o personagem mais destacado na história, mas mesmo com ele a relação estabelecida é tênue. 

O roteiro não tem furos, tem rombos. A todo momento eu me perguntava "mas por que isso está acontecendo ASSIM?". Vejamos três exemplos (contém spoilers): 
- o ursão vence uma batalha contra determinado personagem (aliás, a resolução dessa batalha é a coisa mais Rocky dos últimos tempos - lamentável) e fica muito ferido, inclusive com uma pata que parece estar quebrada. No instante seguinte ele já está levando a menina na garupa através de quilômetros de um terreno inóspito e sob forte tempestade de neve! 
- Lyra Belacqua e o ursão chegam a um precipício que só tem uma pequena ponte (clichezão). A menina passa e a ponte cai, deixando o seu companheiro do outro lado (clichezão). Ele diz pra ela ficar ali que ele vai buscar ajuda (clichezão), provavelmente se referindo ao amigo aeronauta. Pois bem, alguns minutos depois surgem da direção do precipício centenas de homens, sei lá de onde, para capturar as criancinhas. Então, quando tudo parece perdido, lá está o ursão, surgindo do nada, junto com mais umas centenas de pessoas - do "bem" - e o aeronauta lá em cima, na sua nave com capacidade para umas dez pessoas. Ah, e quando a luta termina as centenas de pessoas do bem simplesmente ignoram a protagonista, a quem estavam dando total importância até o momento. 
- Lyra entra num lugar extremamente vigiado, onde as crianças estão aprisionadas. Então ela fala para um deles - devidamente vigiado: "peça para as crianças vestirem roupa para o frio". Pouco tempo depois, um corte rápido para a menina explodindo uma máquina não sei como e outro corte, em seqüência, mostrando as crianças saindo do tal lugar super vigiado. Simplesmente não se conta como elas conseguiram fugir, numa demonstração gritante de preguiça por parte do diretor.

Em suma, Bússola de Ouro é uma aula de como não se adaptar um best-seller, de como não se aproveitar de um suposto nicho de mercado e, principalmente, de como desperdiçar 180 milhões de dólares - se bem que pelo menos os efeitos visuais foram bem elaborados, justiça seja feita. Esperemos a continuação, então (argh). 

FICHA TECNICA

A Bússola de Ouro - Nota D

Direção: Chris Weitz. Com: Nicole Kidman, Daniel Craig, Dakota Blue Richards, Eva Green.

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