Repostando...
Começou hoje a 6ª Bienal do Mercosul aqui em Porto Alegre, reunindo 250 obras de 67 artistas do mundo todo. Por causa disso, retorno com esse post não tão antigo assim...
Crônicas, acontecimentos pertinentes e supérfluos, comentários, enfim, um depósito para as idéias que me vêm à cabeça durante o dia.
Começou hoje a 6ª Bienal do Mercosul aqui em Porto Alegre, reunindo 250 obras de 67 artistas do mundo todo. Por causa disso, retorno com esse post não tão antigo assim...
Postado por
Eu mesmo
6
comentários
Marcadores: Opinião, Repostando
É muito fácil criar uma lenda urbana. Existem várias por aí, espalhadas como o vírus da gripe no inverno. Algumas são famosas, outras nem tanto, mas todas têm algo em comum: mexem com o imaginário coletivo, forçando aquela frase na cabeça das pessoas: "Será que é? É, poderia ser." Em Porto Alegre e arredores tem aquela lenda das plaquinhas "Conserto Gaita", que seria um ponto de prostituição ou algo pior, tem a das plaquinhas "Jesus vai voltar", que seriam escritas por alienígenas ou sei lá quem, etc. Enfim, lenda urbana é o que não falta por aí. Mas, como eu disse antes, é fácil criar uma. Mãos à obra, então.
Todo mundo que pega ônibus deve ter visto pelo menos uma vez na vida um daqueles meninos com uma caixa de torrones ou de balas de goma na mão, pedindo para comprar um e ajudá-los, certo? Para quem já viu mais de um desses meninos vem a pergunta: você já notou que eles falam A MESMA COISA DO MESMO JEITO? Quero dizer, eles falam com um "sotaque" que só eles têm, tipo "Peeessoaaaal, estooou aquiiii paaaara pediiiir...". E mais, eles falam exatamente as mesmas palavras!! Caso queiram uma prova, analisem o momento em que eles falam que poderiam estar pedindo ou roubando: "eu podia estar pedindo OU ATÉ CERTAMENTE roubando". Eles enfiam este "ou até certamente", que não é nada usual, no meio da frase, SEMPRE!!! Bem, esses são os fatos. Vamos agora às possibilidades de lenda urbana que podem existir daí:
1 - Os meninos são, na verdade, robôs em fase de testes. Um laboratório norte-coreano (claro!) desenvolveu protótipos para utilizá-los posteriormente em uma guerra contra os EUA e está testando-os aqui no Brasil, de maneira discreta. Os testes servem principalmente para conferir a durabilidade e obediência das máquinas. Isso explicaria o português estranho (que afinal de contas foi programado por um coreano!) e o fato deles falarem sempre a mesma coisa. O pouco dinheiro arrecadado serviria para amenizar os custos do frete dos robôs - um frete Coréia do Norte/Brasil custa uma fortuna!
2 - Estes vendedores foram todos recrutados a partir de um anúncio de jornal, daqueles de uma "empresa bem estabelecida no mercado" que procurava "jovens com iniciativa" para "trabalho com vendas". Trata-se de uma fábrica de fundo de quintal que fabrica torrones e balas de goma em grande escala e que hoje já conta com mais de cem vendedores espalhados pela região metropolitana. Os vendedores recebem treinamento especializado ("agora todo mundo, repita comigo: 'eu podia estar pedindo ou até certamente roubando'") e ganham por comissão. A vantagem para a empresa é que ela não precisa pagar vale-transporte para eles, já que todos são incentivados a trocar as moedas que ganham dos passageiros com o cobrador, ajudando-o no troco e ganhando em troca o direito de passar por baixo na roleta. Por tudo isso, a empresa já ganhou alguns prêmios de responsabilidade social.
3 - Todos os jovens foram vítimas de abdução por alienígenas. Os extraterrestres gostam de se divertir, e sua maior diversão é ver humanos fazendo coisas sem sentido algum. Esses ETs são os responsáveis pelo programa da Luciana Gimenez na Rede TV! e por alguns telejornais e novelas. Bem, quanto aos jovens, todos tiveram uma sonda instalada (não me pergunte onde) e passaram a ter uma única motivação na vida: vender torrones e balas de goma dentro de meios de transporte em massa. A dificuldade na fala estaria diretamente associada com o desconforto da sonda. Então, eles juntam um dinheiro, vão até uma doceria, compram uma caixa de torrones ou de balas de goma e a vendem nos ônibus, com uma margem de lucro pequena. Com o dinheiro eles compram outra caixa e com o lucro compram rúcula, único alimento que lhes é permitido comer (por que você acha que ainda vendem rúcula por aí? É porque eles compram!!!). Os ETs observam tudo lá de cima (ou de baixo, depende do ponto de vista) e se mijam de tanto rir.
4 - Todos eles foram retirados de orfanatos pelo maligno Dr. Frankenhartzschütz e forçados a fazer esse trabalho escravo sob ameaça de terem seus rins retirados e vendidos no Marrocos. O insano vilão tem agentes espalhados por todos os ônibus; ao vê-los, os jovens vendedores ficam com tanto medo que têm que se concentrar para lembrar do texto que foi memorizado em um dos campos de concentração do cruel doutor. Por isso aquela fala toda errada. Assim, Frankenhartzschütz consegue fazer com que as ações da sua empresa, a Torrones & Balas de Goma Ltda., se mantenham há mais de dez anos como uma das mais altas do mercado, vencendo consecutivamente todos os Top of Mind na categoria "doces".
Postado por
Eu mesmo
3
comentários
Marcadores: Humor, Repostando
Até um tempo atrás eu não gostava de ver em fóruns ou no Orkut ou em qualquer lugar aquelas formas alternativas de escrita (tipo "vo6 saum du caralhu"). Achava aquilo um atentado à língua portuguesa, uma demonstração intencional de ignorância, etc, etc, etc. Pois bem, depois de pensar um pouco mais demoradamente no assunto, eu confesso: estava errado.
Sair falando mal desse tipo de comportamento é puro preconceito. Explico: quem, dentre os nobres leitores deste humilde blog, fala um português 100% correto? Nós, os gaúchos, por exemplo, adoramos falar o "tu" e usar o verbo na terceira pessoa do singular (tu sabe?), e amamos cortar alguns "s" do final das palavra*. "Ah, mas a fala é uma coisa, a escrita é outra." Não. Não é. Vai dizer que nunca ouviu alguém falar alguma coisa errada (tipo "tem bem menas gente aqui hoje") e ficou pensando "hum, que mangolão"? Os erros ocorrem tanto para a escrita quanto para a fala, e o preconceito é o mesmo. E esse preconceito está muito calcado no status.
Max Weber chamou a atenção de que não é só o capital que forma uma elite; é preciso também haver status (prestígio social), que se consegue através de uma série de estratégias, dentre elas o uso de comportamentos próprios e de preconceitos quanto a qualquer outro comportamento. Pois bem, o escrever/falar certo é um desses comportamentos. Se eu escrevo/falo certo, me coloco em um nível acima daqueles que não o fazem. Vamos pensar bem: uma pessoa que erra uma palavra, seja escrita ou falada, não tem A MENOR CHANCE de ser tão capaz de expôr suas idéias quanto outra que não erre? Qual é a relação entre as duas coisas, a não ser a manutenção de um prestígio social? É importante existir uma gramática que normatize a língua; afinal, de outro jeito talvez não conseguíssemos nos entender. Mas não pode se perder de vista que essas normas são, em última instância, políticas.
Essa escrita estilizada que existe por aí hoje em dia nada mais é do que a expressão de uma geração. Se essa geração está equivocada em seus princípios, isso não tem nada a ver com o fato dela escrever desse jeito - isso porque qualquer geração tem suas gírias próprias, o que é até mesmo fonte de identificação de grupos sociais diferentes. Achar que alguém que escreve de um jeito xis não consegue estabelecer uma argumentação lógica é cair no puro preconceito. Não estou aqui dizendo que TODOS os que escrevem assim o fazem sabendo como a mesma frase ficaria com um português correto, ou que TODOS são ótimos na retórica. Apenas que essa forma de escrita pode ser uma opção - ninguém nunca escreveu num e-mail alguma abreviatura, por exemplo?
* ironia óbvia
Postado por
Eu mesmo
2
comentários
Marcadores: Opinião, Repostando
Postado por
Eu mesmo
4
comentários
Marcadores: Curiosidade, Repostando
Os Mais Vendidos
Existem muitas pessoas que acham que, no meio da arte, o que vende muito não é bom; bom mesmo é aquilo que é conhecido por poucas pessoas, apenas por aquelas que sabem apreciar e entender determinados artistas - que passam a ser chamados de "cult". Isso é uma bobagem tão grande que é difícil entender como pessoas que se consideram "inteligentes" ou "cultas" continuam a fazer disso uma regra nas suas vidas. Aliás, esse post é em homenagem a um professor de literatura da UFRGS que pediu aos seus alunos para fazerem uma resenha de algum livro que leram, mas que não poderia ser "desses que vendem muito, tipo o 'Código Da Vinci'", e sim um "tipo 'O Nome da Rosa'". Veja bem amigo, além de você ser um idiota, está ajudando a proliferar esse tipo de idiotice intelectualóde e elitista. Porque é isso que esse tipo de pensamento representa: uma tentativa de parecer intelectual e um esforço em tentar diferenciar-se da cultura "popular", colocando-a em um nível menor do que o "cult". O conceito de cult, como qualquer outro conceito, é uma construção. O cult é tão construído, tão não-natural quanto o que é "sucesso" ou "popular". Eu nem vou entrar no mérito de que gosto é relativo, apesar de isso já bastar para encerrar o assunto. Porém, a questão é mais embaixo: todo mundo tem o direito de achar algo bom ou ruim, mas não deveria usar a quantidade de vendas como parâmetro. Prefiro mostrar alguns exemplos de como nem sempre as coisas são como aparentam ser.
Começando pela música, qual é a banda considerada pelos "entendidos" como a melhor de todos os tempos? Os Beatles, né? Porém, nos anos 60 eles eram a coisa mais pop que existia na face da Terra, a ponto de alguém escrever que eles foram os Backstreet Boys da década de 60, o que não é tão exagerado assim... Além disso, são a única banda/artista da história da música que tem seis discos de diamante (mais de 10 milhões de cópias vendidas)! O duplo "The Beatles" (de 1968, conhecido também como "Álbum Branco") já vendeu mais de 19 milhões de cópias; as compilações "The Beatles 1967-1970" e "The Beatles 1962-1966" (ambas de 1973), venderam respectivamente 16 e 15 milhões de discos; "Abbey Road", de 1969, já passou dos 12 milhões; "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", de 1967, já vendeu mais de 11 milhões; a coletânea "1", de 2000, alcançou a impressionante marca de 10 milhões de discos em 2004. "Ah, mas Beatles é banda pop!", alguém pode pensar. "Quero ver um exemplo do rock'n roll!" O Led Zeppelin tem cinco discos de diamante...
Na literatura a coisa não é muito diferente. "Dom Quixote", de Cervantes, foi eleito por cem escritores de 54 países numa pesquisa do conceituado Clube do Livro da Noruega a melhor obra de ficção de todos os tempos. Porém, ele continua na lista dos mais vendidos em dezenas de países, sendo o segundo livro mais editado até hoje, perdendo só para a Bíblia. Mas justamente o melhor exemplo é sugestão do pseudo-mestre em Literatura da UFRGS: "O Nome da Rosa". Quando o livro foi publicado, em 1980, tornou-se rapidamente um dos maiores fenômenos editoriais das últimas décadas. Demorou apenas um ano para alcançar a marca de dois milhões de exemplares vendidos, somando hoje mais de 20 milhões em vendas. Recentemente a Folha de São Paulo colocou o livro na coleção da Biblioteca Folha, fazendo com que as vendas da edição daquele dia aumentassem em mais de 30%. Poderia ainda citar os exemplos da Lya Luft e dos Veríssimos (Érico e Luis Fernando), mas não vou me alongar muito.
Talvez no cinema seja mais difícil de achar exemplos, mas eles não faltam: entre os diretores mais aclamados, vários "blockbusters": Francis Ford Coppola, Steven Spielberg, Roman Polanski, até o David Lynch (com a série Twin Peaks) já foram vistos por milhões de pessoas.
Chega de dar exemplos. O que eu quero dizer é que podemos gostar do que nós quisermos, podemos achar ruim o que der na telha, mas temos que evitar sermos pedantes e/ou preconceituosos. Não se pode rechaçar uma obra simplesmente pela vendagem que ela alcançou, sem ao menos tê-la visto, ouvido ou provado; há muito se esqueceu que muitas vezes a vendagem é tão somente conseqüência da qualidade do produto. A grande maioria das pessoas que criticam o Paulo Coelho nunca leram sequer uma linha dele; alguns até já leram "Ulisses", de Joyce, e fingem que entenderam e gostaram para manterem-se no grupinho fechado dos cult. Não deveria ser por aí. Todos deveriam ter a liberdade de citar as coisas que gostam sem serem tachados de ignorantes ou similares e não terem de citar as mesmas obras sempre, com o intuito de parecerem inteligentes.
Postado por
Eu mesmo
2
comentários
Marcadores: Geral, Opinião, Repostando